Wednesday, May 9th, 2007...14:50
A Revolução
A conversa sobre a racaille de Sarkozy tem esquecido um ponto importante. Quando Sarkozy disse o que disse, disse-o distinguindo os desordeiros (“desordeiros” parece-me um bocado moderado demais, já que inclui assassinos, mas enfim…) daqueles que o não eram. Sarkozy chamou racaille aos fautores de crimes, não a comunidades étnicas ou geográficas (os habitantes das cités). Percebe-se muito bem que se queira obliterar esta distinção. Percebe-se muito bem e deve-se achar péssimo. Porque obliterá-la é pura demagogia. O “reflexo sociológico” na origem desta obliteração é muito interessante, e os seus antecedentes podem ser quase milimetricamente traçados. Mas as consequências políticas desse costume não o são menos: o divórcio esquizóide entre as “explicações” e a pedestre realidade, por exemplo, que exprime fundamente o abandono de qualquer vontade de reforma. E o que sobra então? O desejo de revolução. A sociologia é uma pele descartável. Uma boa parte da esquerda, apesar de não utilizar a palavra, continua a desejar a coisa: uma revolução. Com sangue e tudo o resto. Enfim, não é que queira verdadeiramente. É só que foi educada a pensar assim. E continua um bocado infantil.

2 Comments
May 9th, 2007 at 18:35
Inteiramente de acordo.
Permito-me apenas acrescentar que, reforçando o caracter demagógico com que, intencionalmente, uma parte significativa da imprensa se referiu ao incidente da “recaille”, na realidade, em 2005, Sarkozy disse o que disse (que foi pouco!) relativamente a tais desordeiros, apenas confirmando e repetindo os desabafos de uma habitante de um dos bairros molestados, durante uma sua visista como Ministro do Interior. Nem sequer a iniciativa de utilizar tal expressão (mais do que adequada, em virtude das circunstâncias) foi de Sarkozy….
May 9th, 2007 at 20:31
Obrigado. Nem me lembrava do detalhe que conta sobre a origem da expressão.
Paulo Tunhas
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