Wednesday, May 9th, 2007...11:23
Aron e o decote da esquerda
Na próxima Atlântico, vai sair um texto sobre as Memórias de Aron, agora publicadas pela Guerra & Paz.
Aqui fica o alfarrabista aroniano publicado na revista de Março último:
Raymond Aron, In Defense of Decadent
Para simplificar: cá em casa, junto ao armário dos medicamentos, há um altar em honra de Santo Aron. Chega como apresentação?
Raymond Aron (1905-1983; historiador, filósofo, sociólogo) foi odiado pela esquerda (atestado de virtude), mas nunca procurou refúgio na ortodoxia da direita (sinal de sensatez). Era demasiado céptico para se juntar a matilhas de mabecos. Nas lutas do século XX, Aron reconvocou o peso histórico do liberalismo conservador francês (Montesquieu, Constant, Tocqueville). Esta escola é uma das grandes guardiãs da ideia de Ocidente, sobretudo em tempos de incerteza. Este Plaidoyer Pour l’Europe Décadente é isso mesmo: uma defesa da sociedade liberal na Europa num momento de dúvida em relação ao futuro do Ocidente.
Convém recordar o ambiente desta época (1976): a URSS dava sinais de força e os EUA fraquejavam. Após a derrota no Vietname e a vergonha de Watergate, colocava-se em causa a capacidade americana para defender a Europa ocidental. A suposta superioridade intrínseca do socialismo era um cliché. A Europa liberal, dizia-se, estava em decadência e ia ser absorvida pela Europa de leste. Com este livro, Aron atacou este pessimismo. A Europa tinha problemas, sim senhor, mas não estava destinada à decadência ou à absorção pelo mundo socialista. Aron reafirmou a superioridade do pluralismo liberal sobre o despotismo comunista. E, acima de tudo, Aron revoltou-se contra o facto de os europeus ocidentais não terem a consciência da sua própria superioridade. Essa superioridade estava escondida pelo manto da «vulgata marxista», a cassete que dominava o espaço público de então (e que resistiu até hoje).
Nos anos 70, duas décadas depois do “Ópio dos Intelectuais”, já ninguém acreditava no Marxismo. Contudo, apesar da falência teórica de Marx, apesar do despotismo de todos os regimes marxistas, uma espécie de marxismo regurgitado (a vulgata) persistia na intelectualidade. Os (pseudo)marxistas ainda ostentavam uma pose sofisticada. Mas era só mesmo pose. Porque aquilo era marxismo de vão-de-escada, um conjunto de fórmulas ready-made, um pronto-a-pensar: «não um sistema de pensamento mas uma amálgama de preconceitos e ideias estandardizadas» (p. 52). A vulgata era (e é) um código para a mediocridade. Se proferir as palavras certas do menu, o ignorante passa a génio. A vulgata é o decote descarado da análise política. Aquele que dá voz à vulgata receberá, de imediato, elogios no mundo intelectual, da mesma forma que uma mulher receberá sempre piropos se passear o decote por um estaleiro de obras. Em 1976, a esquerda já era a galdéria ideológica que é hoje. O decote sobreviveu até aos nossos dias.
A vulgata resume o mundo a uma simples correlação de força: oprimidos vs. opressores. O mundo passa a ser tão simples como a novela do almoço. Esta divisão projecta-se, claro, na política internacional. Foi no tempo de Aron que se inventou a mentira do «imperialismo sem império» (p.133) que ainda hoje anima a anti-globalização: «os europeus devem a sua prosperidade não ao seu trabalho mas à exploração dos mais pobres» do Sul (p. 79). A mentira de 1976 persiste em 2007. O decote é mesmo bom. A vulgata destaca-se ainda pela dualidade de critérios («sinistrisme»). A tirania e os massacres, quando tinham a marca da esquerda, eram desculpados em nome da utopia futura. E, ao mesmo tempo que justificavam a morte de milhões, os intelectuais europeus consideravam o ocidente liberal como a personificação do mal na terra (mesmo quando era Pol Pot a matar). Descaramento de quem usa decote até ao umbigo.
Por fim, há que considerar a tal Nova Esquerda (ou «gauchisme» na linguagem de Aron) que surgia em força nos anos 70. Esta esquerda (dos esturjões Marcuse e Foucault) era diferente da velha esquerda de Sartre. Já não se defendia a URSS. O truque era outro: Marcuse e companhia diziam que uma tirania efectiva com milhões de mortos no currículo - URSS - era tão má como a repressão invisível do capitalismo. Por decreto ideológico, as sociedades liberais, as mais livres de sempre, passaram a oprimir as pessoas com um poder de sedução invisível, que só alguns intelectuais conseguiam ver… Esta mentira surgiu quando já não era possível dizer que a URSS era melhor que os EUA. Nos anos 70 (depois de Praga, 1968), a única saída para a vulgata passava por equivaler moralmente as duas sociedades, a liberal e a comunista. Esta falácia ainda hoje marca a esquerda. Ouvimos o seguinte com frequência: “pois, a URSS foi algo de negativo, mas os EUA não são melhores”. Um raciocínio que esconde o «negativismo vazio» (p.228) desta nova esquerda. Há aqui apenas ódio e repulsa pelo Ocidente. Um decote num peito ressentido.
Em 1989, a História confirmou a tese de Aron. Resta a pergunta óbvia: para onde foi a brigada do decote? Continua entre nós. E continua fascinada pelo sexo fácil. No tempo de Aron, os intelectuais do decote foram incapazes de admitir a superioridade da sociedade liberal (onde viviam…) sobre o socialismo. Hoje, são incapazes de defender, sem ambiguidades, sem o mas, os valores da sociedade liberal (onde vivem…) perante o radicalismo islamita. Aqueles que gritavam “viva a URSS” são os mesmos que agora gritam “somos do Hezbollah”. Aqueles que desculparam qualquer ditadura comunista e que criticaram, para espanto de Aron, os dissidentes que lutavam por liberdade (Sakharov, Soljenitsine) são os mesmos que hoje apoiam o Hezbollah; são os mesmos que desprezam os dissidentes muçulmanos que lutam pela liberdade (Hirsi Ali). Nada mudou. A brigada do decote continua a preferir errar com Sartre a dar razão a Aron. A esquerda sempre adorou sexo fácil.

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