Thursday, May 17th, 2007...0:38
Os calcanhares de Sócrates
RUI RAMOS

Definitivamente, Sócrates não é Aquiles. Aquiles tinha apenas um ponto fraco: o calcanhar por onde a mãe o terá segurado quando o mergulhou nas águas do Estige. Não sabemos por onde suspenderam José Sócrates quando lhe deram o banho de invulnerabilidade política. Mas deixaram-lhe muitos calcanhares. Não vou ser exaustivo. Bastam-me dois para sugerir que talvez um dia nos admiremos por ter julgado fatal a reeleição deste governo.

Em Lisboa, não foi só o calcanhar de Sócrates que ficou à mostra, mas é o dele que agora interessa. Perante uma Câmara Municipal a desfazer-se mais rapidamente do que as dunas da Caparica, o PS passou meses sem iniciativa, a falar desafinado. E quando houve que arranjar candidato, sob pressão do avanço de Helena Roseta, foi preciso ir ao armário do governo. No poder, com o partido e o Estado na mão, Sócrates não foi capaz de dar liderança e disciplina ao PS em Lisboa. Tal como nas presidenciais, ei-lo confrontado com uma candidatura dissidente. É verdade que Alegre e Roseta não fazem mexer as grandes pedras do aparelho do partido. Aí, ninguém se agitará enquanto houver migalhas a cair da mesa de S. Bento. Mas com o eleitorado, a história parece ser outra, como se viu com a votação de Alegre e com a que, segundo consta, algumas sondagens prometem a Roseta (embora o calendário mágico do governo civil possa resolver a questão). Por mais que lhe falem da “esquerda moderna”, os eleitores de esquerda do PS têm esta tendência para se tresmalhar à vista da “esquerda antiga”. Para eles, o chefe do partido é um intruso neo-liberal, que trocam pela primeira tentação romântica. Sócrates tem um “aparelho”, mas não tem uma corrente de opinião mobilizada no país a seu favor. Paira no ar das instituições, vivendo à custa de um resultado eleitoral de há dois anos. É uma vida legítima. Não é uma vida segura.

E daí a estranha relação de Sócrates com os candidatos socialistas: a arte não lhe chega para prevenir os dissidentes, mas tem-lhe chegado para criar uma certa distância de segurança em relação aos oficiais. Estes últimos suscitam sempre as mesmas especulações rocambolescas: ou foram eles que se impuseram a Sócrates, ou foi Sócrates que aproveitou para os “queimar”. Assim se passou com Carrilho e com Soares, dispensando Sócrates de partilhar o caldo da derrota nas autárquicas e presidenciais. Veremos o que acontecerá com António Costa.

O outro calcanhar apareceu na Madeira. Não me refiro à quase extinção local do PS. Refiro-me à quarentena que a irritação de Sócrates impôs ao governo da ilha. Não é bem assim? É pelo menos o suficientemente assim para que o Presidente da República se tivesse oferecido como medianeiro, e para que Jardim se sentisse autorizado a dar lições sobre o modo como os políticos devem saber representar vários papéis. Sócrates, como terá notado quem o viu em acção no parlamento, não representa. Zanga-se a sério. Uma vez, revelou que tinha dentro de si um “animal feroz”. Era uma confissão, e não um alarde. Há ali um excesso de sensibilidade e uma falta de paciência que seriam tocantes se não fossem embaraçosas, porque autorizam as maiores dúvidas sobre a sua capacidade para reconhecer que um debate tem dois lados, ou para mudar de opinião quando for preciso.

E estes calcanhares não ajudarão Sócrates a caminhar quando a sua fórmula de viabilização do Estado social – pagar mais e receber menos – chegar ao extremo, e se descobrir que a economia não sai do coma. É verdade que Sócrates tem uma protecção: a comparação com Barroso e Santana. Mas por esse lado, Sócrates poderá ser vítima do seu sucesso. No descrédito dos seus antecessores, para além de outras limitações, contou o medo que os atormentou de arriscar a “paz social”. Sócrates, com as suas “durezas”, provou que era um receio exagerado. Terá convencido a liderança do PSD de que o país está disponível para ir mais além, com uma política que não seja só de restrições, como esta, mas de oportunidades?

As sondagens continuam a ser lisonjeiras para o PS. Mas a falta de alternativa ajuda. A popularidade política é como a água num sistema de vasos comunicantes: só sai de um quando pode ir para outro. Se o PSD, por acaso, tiver um rasgo, talvez este governo se revele aquilo que, no fundo, sempre ameaçou ser: a segunda parte da odisseia de Guterres, em que a mesma equipa regressou para retirar de circulação os cheques sem cobertura que tinha passado aos portugueses antes de 2001.
P.S.: Mas pelo tal rasgo do PSD parece que vamos ter de continuar a esperar.
[Texto do “Público” de quarta-feira editado pelo autor para o blogue da Atlântico]

2 Comments
May 17th, 2007 at 12:04
Uma delícia de racíocionio, de brilhantismo ímpar. Obrigado e cumprimentos de uma admiradora.
May 17th, 2007 at 18:38
Meus Caros
eu não consigo visionar o Vosso blogue. Sou só eu ou estão com probs técnicos???? (só me aparece este post e mesmo no principio, em cima, o Cheney aparece sobreposto a uma data de coisas…isto está biruta!!!
cumprs
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