Thursday, May 17th, 2007...8:13

- Tens razão.

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Quando era miúdo, o meu padrasto costumava contar-me uma história de que gostava muito, e eu também gosto. A do rabi que vai de terra em terra, falando com as pessoas, acompanhado do filho. Fala com a mulher, que lhe diz mal do marido, e responde-lhe: - Tens razão. Fala com o marido, que põe as culpas na mulher, e conclui: - Tens razão. E assim sempre, dando razão a todos os disputantes. Até que o filho lhe diz: - Pai, não podes dar sempre razão a toda a gente. - Tens razão, meu filho.  

As vezes que, ao longo da vida, me encontrei na posição do rabi não se contam. A última é com esta coisa das reportagens sobre a criança inglesa desaparecida no Algarve e o que José Pacheco Pereira e João Miguel Tavares escreveram a propósito dela. A minha tendência é para estar de acordo com Pacheco Pereira. Mas é verdade que João Miguel Tavares toca num ponto importante: descomovemo-nos facilmente das piedades simples, do que interessa às pessoas comuns. Há um texto de Fernando Gil, no livro Acentos, que se chama “Estas coisas de que os homens falam”, e que trata disto. À sua maneira tosca e rebarbativa, os jornalistas exibem, no tratamento do caso da criança desaparecida, e a par do resto péssimo que se sabe, uma certo forma de piedade de que temos tendência a desembaraçar-nos de um modo um pouco desenvolto demais. Contra mim falo.  

Santo Agostinho dizia que a piedade é coisa diferente da simples abstenção do mal. O problema é que a abstenção do mal já dá um trabalho dos diabos. Mas não creio, de facto, que a piedade para com a criança desaparecida seja puro histrionismo. Há algo ali que, à sua maneira, manifesta “uma comunidade humana na sua vontade de existir enquanto tal”, para falar como Fernando Gil. João Miguel Tavares di-lo excelentemente: “Na tragédia da pequena inglesa estão inscritos os nossos medos mais íntimos e o eterno mistério do mal. É por isso que toca fundo em qualquer pessoa, mesmo que não o saiba verbalizar”. É isso mesmo.

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