Tuesday, May 29th, 2007...23:31
Entrada de pés juntos: em vez do tradicional olá, o Mediterrâneo e a Turquia
Escrevo na Atlântico há quase dois anos, e neste blog desde de hoje. O resto das apresentações foram tão bem feitas pelo Paulo que nem digo mais nada. Só que gosto muito da companhia. E passando ao que interessa:
No encontro que teve com Prodi, o Presidente francês terá falado de novo na sua proposta de União Mediterrânica. A proposta de Sarkozy surgiu, pela primeira vez, durante a campanha eleitoral e, de novo, na tomada de posse, tendo provocado reacções divergentes. É natural. Uns acham que é generosidade a mais, outros – os turcos – pressentem que é uma maneira engenhosa de os deixar de fora parecendo que ficam dentro. Talvez tenham todos razão, mas a proposta merece ser discutida. E, mesmo sem dever ser apresentada como tal, pode, de facto, acabar por ser uma solução para um problema que só devia ser resolvido daqui a dez anos mas que anda a ser discutido agora.
Já escrevi na Atlântico (em Outubro, se não me engano – e no 31 também disse uma coisa do género, mas não encontro) o que abaixo transcrevo.
Tanto faz que a Europa seja o centro do mundo, ou não. Do nosso mundo próximo e imediato é, e está, ao mesmo tempo, no meio do que há de mais relevante e complicado nas relações internacionais actuais: as relações entre o nosso mundo e o mundo islâmico. Por tudo isso, a proposta de Sarkozy devia ser discutida com atenção. É bastante mais importante do que as corridinhas de Sócrates à volta da Praça Vermelha.
“Um novo Projecto europeu. O maior sucesso da União Europeia é o efeito provocado pelos sucessivos alargamentos. A Portugal e Espanha, a oito países do que chamávamos Europa de Leste há vinte anos. E, noutra escala mas no mesmo sentido, a todos os países europeus que esperam um dia poder entrar. Muito mais do que o suposto e altamente discutível softpower europeu, é a perspectiva de adesão que tem provocado mudanças no Mundo. E mudanças para muito melhor. Estes sucessivos processos de adesão são a mais rápida e eficaz história de transformação democrática, reforma económica a progresso social em qualquer parte do Mundo nas últimas décadas. É esse o maior sucesso europeu. Acontece que o seu potencial está – por enquanto – limitado pela sua própria definição. Só quem tem expectativas de aderir é que se reforma o suficiente para poder entrar. Foi assim connosco, com Espanha, com os oito de Leste mais os dois que chegam já em Janeiro. E assim será, melhor ou pior, com os Balcãs e, talvez um dia, com a Ucrânia. Mas, e o resto? A capacidade europeia de provocar mudança no mundo tem sido este mecanismo, se ele se esgota geograficamente, o papel reformador da UE também termina aqui (esta tese, evidentemente considera que o efeito da UE no mundo fora do alargamento está muito muito longe de ser comparável tanto no passado como no futuro). A solução passa – deveria passar, entenda-se – por procurar reproduzir os efeitos desse mecanismo, exportando, consequentemente, o mesmo sucesso reformista. Como? Com um novo projecto europeu, desenhado em potencial parceria com os nossos vizinhos (estou a pensar primeiro que tudo nos mediterrânicos). Resumindo: criar, num futuro de médio prazo, uma área de livre circulação no Mediterrâneo tão próxima quanto possível da lógica do modelo da UE, à qual possam aderir os países aqui à volta que cumpram os critérios de democracia, economia de mercado e respeito pelos direitos humanos (o essencial dos critérios de Copenhaga). Seria uma espécie de adesão (com direito a beneficiar dos Fundos Europeus, das políticas comuns e das agências europeias) em troca de reformas. Seria, incidentalmente e sem ser essa a sua maior virtude, uma solução que, se interessasse a Marrocos, a Israel ou à Tunísia, poderia talvez interessar à Turquia se tivesse de concluir que o processo de adesão estava num impasse insuperável.
Em vez de lamentar a ausência de uma política externa comum ou de um lugar único no Conselho de Segurança das Nações Unidas – coisa que, curiosamente, nenhum dos “europeístas” defende – a União Europeia poderia assim cumprir eficazmente o seu projecto de promoção da paz e do desenvolvimento. Exportar, expandindo, o nosso modelo, é o melhor que a União Europeia pode fazer a si e ao Mundo. Ter vizinhos ricos, com populações sem necessidade de emigrar custe o que custar, pacíficos, democráticos e constrangidos pelos benefícios é um bom projecto europeu. E nem sequer é completamente novo.”

9 Comments
May 30th, 2007 at 0:21
Bem-vindo, Henrique. Abraço
May 31st, 2007 at 4:40
Caro Henrique,
Sabe o que é que se passa no mediterrâneo?
demograficamente, seriamos engolidos por muitas dezenas de milhões jovens do mediterrâneo
os problemas de corrupção
a ascendência do islamismo
Seria o fim da europa, tal como a conhecemos.
May 31st, 2007 at 9:50
Cara Julia,
sim, sei. É por isso mesmo. Eu não quero a entrada dos países do mediterrâneo, quero procurar produzir nesses países o mesmo efeito que noutros produziu a expectativa de adesão.
Nós seremos “engolidos” - queiramos ou não - pelos milhões de jovens do mediterrâneo, pela sua entrada ilegal ou pela tentativa de fuga à sua miséria ou pela ameaça dos “seus” regimes políticos. E ainda há os jovens da Indía, do Brasil… Como não acredito nem gosto de muralhas nestes tempos, vejo poucas alternativas. Mas sei que é, no mínimo, controverso.
May 31st, 2007 at 10:10
[…] os líderes europeus começam a recuperar alguma visão de futuro. Vem isto a propósito disto, ali em baixo, e sobretudo disto, ali ao […]
May 31st, 2007 at 14:23
Queiramos ou não??? Uma coisa são centenas de milhar de refugiados etc e outra são dezenas de milhões de emigrantes. Sinceramente, não percebo qual é o problema das muralhas. Sempre existiram.
Mas o efeito de que fala assentava na premisa ou expectativa realista da adesão. A UE vai ter que engolir, mais tarde ou mais cedo, com um gigantesco sapo (Turquia). Tem, essencialmente, duas opções: 1) aceita-a e integra-a, movida por interesses e preocupações sistémicas-geoestratégicas (e fica sem saber o que fazer a nivel interno) e 2) exclui a T, provocando uma cissão perigossissima…o que já aconteceu, a maior parte dos turcos já nem quer ouvir falar da UE…sentem-se humilhados, e com razão….
esta opção 3 de que fala (tentar 1 e 2 simultaneamente) é uma jogada infantil…A cissão já se deu…mas quase ninguém se apercebeu disso na Europa. (vide sondagens sobre a UE na Turquia)
May 31st, 2007 at 17:46
Cara Julia “queiramos ou não” é uma expressão. O que quero dizer - eu gostava de nem sempre ser lido literalmente, mas pronto - é que eles estão lá e ou “entram” neste modelo 3 - como lhe chamou - ou entram pela emigração, ou “entram” ficando lá mas sendo concorrenciais (mais tarde ou mais cedo as empresas europeis deslocalizam-se para lá), ou “entram à bomba” (também vai acontecer às vezes), ou entram legal e ilegalmente. E por aí fora. O que quero dizer é que as “muralhas” não resolvem quase nada porque as pessoas e os problemas não desaparecem assim - isto não é a fronteira israelo-palestina e os prolemas não são os mesmos.
De resto, sobra-me esta visão “infantil” que alguns distraídos temos.
Mas deixe-me rematar dizendo-lhe duas coisas. eu sou favorável à entrada da Turquia, mas não é sobre isso este post. Este post é sobre como devíamos tentar exportar os factores de sucesso do alargamento da UE aos nossos vizinhos do Mediterrâneo. Uma ifantilidade. Está bem acompanhada, o VPV acha o mesmo. O Sarkozy acha o contrário. Mas o VPV é nitidamente menos infantil do que o Sarko.
Para fechar. então, que sugere? Muralhas?
June 1st, 2007 at 4:20
Eu conheço a expressão (denota inevitabilidade, disse-me o meu professor no Max Planck)
Sim, muralhas enormes, com metralhadoras poderosíssimas, e pelo menos um regimento de paras gay (a perseguição dos gays do lado de lá tem que ser explorada).
Não me parece que esteja a colocar as questões mais pertinentes, que são estas, no meu entender:
exportar os factores de sucesso….(pense nisto)..
o que é que se passa nos mercados receptores?
por favor,
quem conhece os países do magreb sabe muito bem que isto é idealismo…
não vai conseguir exportar coisita alguma
são os mercados internos que determinarão o que se passa. Todo o mundo árabe-islâmico está fechado sobre si proprio, com raras excepções. (em termos comparativos)
Mas esta é uma opinião de uma espektadora
June 1st, 2007 at 4:22
Obrigada pela resposta.
June 1st, 2007 at 7:41
Obrigado eu, pelo comentários.
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