Thursday, June 21st, 2007...23:19
Eutanásia (7)
Caro Paulo,
Surpreendem-me um pouco o conteúdo e o tom do teu texto.
Primeiro. Não falei de “ajudar a morrer alguém com dignidade”, mas sim “ajudar a morrer alguém que amamos - um pai, uma mãe, uma irmã, um filho - com dignidade”. São coisas diferentes. Não sei se viste o “Mar Adentro” ou o “Million Dollar Baby”. Ambos exemplificam o que custa ajudar alguém que amamos a morrer. Claro que desligar a máquina a um tipo que não conhecemos de lado nenhum não é uma grande prova de amor. Mas não foi isso que escrevi.
Segundo. Referes “centenas de provas de amor maiores”, mas não apontas uma que seja. Se apontares, agradeço que o faças relativamente ao que eu escrevi e não ao que tu erradamente me atribuíste.
Terceiro. Eu não disse que tenho certezas sobre este assunto. Terei, para escrever o que escrevo, certamente algumas ideias sobre o assunto. Não me viste, ainda, nem verás, posso afiançar-te, dar uma opinião “absoluta” e “final” sobre este tema. No plano dos princípios, aí sim, a minha opinião é muito clara (e, de resto, defendo que qualquer liberal, no plano dos princípios, só pode ter essa posição - e isto, acredita tu e acreditem os outros, não é entrar no “Campeonato do Grande Liberal”).
Quarto. Mesmo que tivesse certezas, mal estaria eu se me incomodasse de ter certezas como “muitos” ou de haver alguém como “tu” que não as tivesse.
Quinto. Mais mal estaria eu se, com a idade que tenho, resolvesse falar achando que com a minha idade fazia melhor era em “estar caladinho”. Que tu, com a tua idade, tenhas ou não certezas, é-me relativamente indiferente, para ser sincero. Dito de outro modo: mencionar a idade é um pouco despropositado.
Sexto. Isso de misturar “temas fracturantes” já cansa, Paulo. Ou discutes, ou não discutes. Essa “desqualificação” já é, perdoa-me a expressão, um pouco difícil de aturar. Até me fazes ir ao baú do Aforismos e Afins. Um tema ou é politicamente relevante, ou não. É filosoficamente interessante, ou não. É sociologicamente fracturante, ou não. A eutanásia é um problema politicamente pouco relevante, filosoficamente muito interessante e sociologicamente fracturante. Eu discuto-o porque o acho interessante.
Aliás, nem era meu intuito discutir isto nos próximos anos, mas já que o Rui Albuquerque o referiu, seria estúpido não tentar entabuluar uma conversa civilizada sobre isto. Já disse algumas vezes que me pelo por discutir um tema intelectualmente interessantes, mesmo se irrelevante ou até inútil (como o do rinoceronte na sala de estar). Cada um é como cada qual. No big deal.
Sétimo. Mas tu não tens, mesmo que não a tempo inteiro, uma carreira política, Paulo? Fico levemente surpreso. Eu é que não tenho mesmo, believe me.
Oitavo. Falas da possibilidade de erro. Eu sugeri que separássemos a questão no plano teórico e no plano prático - para depois chegar a uma conclusão global. No plano teórico, presumimos que a pessoa quer mesmo morrer com probabilidade 100%. Queres responder perante este “cenário” - em abstracto -, ou não gostas de “thought experiments”? São coisas muito úteis para este tipo de temas.
Nono. Quanto ao que aconteceria “amanhã” à opinião da pessoa que pede a eutanásia e quanto à possibilidade de cura futura, isso são coisas que a própria pessoa pode ajuizar. Ou não? (Imaginando que “fisicamente” pode). Se achas que alguém consciente e na plenitude das suas faculdades mentais, como Ramón San Pedro, não ”consegue” ter isso em conta e devia tomar outra decisão, isso só tem uma palavra, Paulo: paternalismo. E daquele da pior espécie.
Dez. Dizes que preferes continuar a pensar que “enquanto há vida, há esperança”. Tudo bem. Não está em causa o que pensas “para ti”, mas que direitos atribuis aos outros. Eu sei que é difícil discutir racionalmente questões tão sensíveis, sobretudo quando se está meio (só um bocadinhozinho) na política e sempre que se fareja um tema do tipo X se saca da cartilha do “tema fracturante”, da “agenda Y”, etc. Eu, repito, nem tencionava falar disto nos próximos anos. Gosto de pensar e acontece que tenho algumas ideias sobre o assunto. Queres trocar algumas, ou queres guerrear? A escolha é tua.

12 Comments
June 21st, 2007 at 23:43
Tiago, sobre o tom e o conteúdo, estamos conversados. Aquela é a minha opinião sobre o assunto - e se te incomoda, paciência. Não te inclui nos “muitos”, mas tu, pelos lidos, enfiaste a carapuça. Os “muitos” a que me referia eram de um e do outro lado da barricada. Espero que, como liberal, me dês a liberdade de ter dúvidas, posso? Não respondo aos teus juízos morais a propósito do que escrevo, incluindo a honestidade, and so on. Poderia responder no mesmo tom, mas prefiro não o fazer.
Sobre o que deve pensar um liberal sobre a eutanásia, também não me parece exacto, porque a liberdade não é total quando existe um grau de incerteza se a pessoa em causa está na posse de todas as faculdades. Finalmente, quer queiras, quer não queiras, a eutanásia é um assunto fracturante, na linha de outros como o aborto ou o casamento entre homossexuais. Se é uma causa que defendes, ou não, isso é outra conversa.
June 21st, 2007 at 23:48
Ah, esqueci-me só de acrescentar que não tenho carreira política alguma. Se quisesse tinha, mas não tenho.
June 21st, 2007 at 23:51
Que a eutanásia é um assunto fracturante, é inegável.
Gostava de saber o que pensas sobre o caso em que NÃO existe grau de incerteza quando à posse de todas as faculdades mentais da pessoa.
Eu escolhi o verbo “surpreender”, não “incomodar”.
O que me surpreende no “tom”, ou melhor, na “forma”, é achar alguns comentários despropositados e eivados de algum espírito de barricada.
O que me surpreende no “conteúdo” é, por um lado, o toque paternalista e, por outro lado, a fuga a certas questões.
Não creio ter feito “juízos morais” sobre ti. Gostava que esclarecesses isso, se te apetecer, mas percebo (pelo que escreves antes) que não o queiras fazer.
Finalmente, é desnecessário reiterar que qualquer de nós só pode ter liberdade para ter dúvidas e, mais do que isso, só pode ter muitas dúvidas. Mal de nós se assim não fora. Não é o ter dúvidas ou não que eu critico, como percebes bem. Só critico o conteúdo do que dizes. Critico a forma como te referes às pessoas que nunca têm dúvidas e que bla, bla, bla, porque, no contexto, não é lícito que não me englobes nesse estimado conjunto de pessoas.
June 21st, 2007 at 23:52
“Ah, esqueci-me só de acrescentar que não tenho carreira política alguma. Se quisesse tinha, mas não tenho.”
June 22nd, 2007 at 0:04
Mas eu não estava a “englobar”-te, Tiago. Dirigi-me a ti, porque foste tu que escreveste sobre o assunto - e ponto final. O que digo - e repito - é que me é cada vez mais difícil tomar uma posição definitiva sobre assuntos como este, onde incluo outros fracturantes (há pouco esqueci-me da liberalização das drogas, por exemplo). É verdade que são questões que têm a ver com a liberdade individual mas também não é verdade porque são definidores de um modelo e de uma visão que política e socialmente o Estado dá à sociedade. A liberdade deve ser acompanhada de responsabilidade - e volto a repetir que só há plena liberdade quando os indíviduos estão na posse de todas as suas faculdades, o que se pode aplicar a todos estes assuntos.
June 22nd, 2007 at 0:14
“É verdade que são questões que têm a ver com a liberdade individual mas também não é verdade porque são definidores de um modelo e de uma visão que política e socialmente o Estado dá à sociedade.”
Concordo. Ao menos estamos juntos no não-atomismo.
“só há plena liberdade quando os indíviduos estão na posse de todas as suas faculdades, o que se pode aplicar a todos estes assuntos.”
Percebo e concordo com o princípio geral, mas não acho que se aplique a tudo. Primeiro, pode aplicar-se a muitos casos de eutanásia (e ela - em teoria - só é aceitável nesses casos; na prática pode ou não sê-lo). Quanto às drogas, só as drogas duras é que te fazem perder o auto-controlo. Drogas como a marijuana não fazem. Aliás, os malefícios são bem mais graves no tabaco e álcool, como bem saberás. No caso do aborto, põe-se a questão de haver um “outro”, mas não tanto de “faculdades”… embora, com algum contorcionismo, possamos frisar que o aborto impede ou desrespeita as faculdades potenciais e ainda não desenvolvidas do outro. Quanto à prostituição, também não se aplica. Quanto aos casamentos homossexuais, também não. A não ser que haja práticas sexuais que coarctema s faculdades mentais de quem as tem…
June 22nd, 2007 at 0:24
Drogas: as leves não me fazem perder o auto-controlo. Mas será - repito, será? - que não há indivíduos mais susceptíveis de começar por aí - eu sei que não é uma regra geral e que o mesmo pode acontecer com o tabaco e o álcool - e terminar nas drogas duras?
Aborto: não haverá casos em que as mulheres o fazem por absoluto estado de necessidade? Além disso, quais os direitos do pai homem, qual a liberdade de actuação que lhe resta no caso, pressupondo obviamente que a relação sexual foi realizada com pleno consentimento?
Prostituição: até que ponto uma prostituta o é por vontade própria e, por isso, livre?
Casamentos homossexuais: pressupondo o direito à paternidade ou maternidade a dois, como no casamento tradicional, não será posto em causa o direito da criança a uma referência masculina e a uma referência feminina?
June 22nd, 2007 at 1:09
Caríssimos,
Cuidado com essa ideia de que as chamadas drogas leves “não fazem perder o auto-controlo”… estou de urgência e acabei de internar um indivíduo por um episódio psicótico agudo no contexto de uma provável psicose tóxica.
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/sites/entrez?Db=pubmed&Cmd=ShowDetailView&TermToSearch=17415074&ordinalpos=4&itool=EntrezSystem2.PEntrez.Pubmed.Pubmed_ResultsPanel.Pubmed_RVDocSum
Desculpem a intromissão.
Cumprimentos
June 22nd, 2007 at 1:25
Paulo,
Drogas: as leves fazem-me - a MIM - perder facilmente o auto-controlo, no próprio momento, tal como o álcool e tabaco em excesso. Não preciso de muito para esse efeito, o que é um benefício agradável de ser muito moderado nesse tipo de consumos. Mas falamos, julgo eu, de auto-controlo mais do que meramente pontual - embora este seja suficiente para uma série de tropelias e desastres, como acaba de ilustrar a Ana. Percebo o ponto onde queres chegar (Paulo) e identifico-me com essa “preocupação”, sobretudo porque as drogas duras - ou melhor, e como diria o Zé Pedro dos Xutos, com grande autoridade, “a” droga dura, a única droga dura, pá, o “cavalo”, tás a ver? A heróina - fazem com que o indivíduo perca a capacidade de auto-determinação de forma grave e continuada.
“Aborto: não haverá casos em que as mulheres o fazem por absoluto estado de necessidade?”
Eu acho que sim! Isso não quer dizer que o façam sem estar na posse das suas faculdades, mas percebo o ponto. (Mas este não compro, porque uma coisa é tomar uma decisão sempre difícil, outra coisa é dizer que numa decisão difícil é preciso intervenção exterior, para “ajudar” a pessoa a escolher melhor).
“Além disso, quais os direitos do pai homem, qual a liberdade de actuação que lhe resta no caso, pressupondo obviamente que a relação sexual foi realizada com pleno consentimento?”
Isto dava outro post… ou blogue. Prefiro não responder, just because of that.
“Prostituição: até que ponto uma prostituta o é por vontade própria e, por isso, livre?”
Ui. Algumas feministas de bigode iam gostar de ler isso. Não me alargo muito. DEvolvo a pergunta: até que ponto é que uma pessoa que vende jornais e não “chegou” a uma Judite de Sousa é livre?
“Casamentos homossexuais: pressupondo o direito à paternidade ou maternidade a dois, como no casamento tradicional, não será posto em causa o direito da criança a uma referência masculina e a uma referência feminina?”
Falas não de casamentos homossexuais, mas da adopção por homossexuais. Eis um assunto onde não tenho uma opinião definitiva. A criança é, obviamente, o mais importante. Devolvo, reiterando as minhas dúvidas, algumas perguntas:
(1) O direito à referência masculina e feminina é absoluto?
(2) Deve - como hoje acontece - uma pessoa sozinha poder adoptar? Qualquer pessoa, ou apenas um hemafrodita, capaz de oferecer, pelo menos em parte, uma referência masculina e feminina?
(3) A referência feminina-masculina é construída com base no género ou nos comportamentos? Um gay afeminado é uma referência masculina ou feminina? Uma lésbica machona é uma referência feminina ou masculina?
June 22nd, 2007 at 1:36
Ainda relativamente à adopção gay:
(4) Assumindo que uma pessoa sozinha deve poder adoptar (hoje, em Portugal, é esse o caso), pode essa pessoa sozinha ser homossexual?
(5) Importam mais os afectos ou o género de quem adopta a criança? Entre - suponhamos - um casal homossexual com elevado rating em tudo, um casal heterossexual com rating menos elevado, mas substancial e uma instituição estatal sem condições, onde deve ficar a criança? Por outras palavras, quanto é que estamos dispostos a “trocar” - condicionando na hipótese de a criança sair da instituição, assumamos que por esta ser muito má -, em termos de afectos, capacidade de criar a criança, etc, pelo facto de um casal ser homossexual?
June 22nd, 2007 at 11:50
«Cuidado com essa ideia de que as chamadas drogas leves “não fazem perder o auto-controlo”…»
A Ana Matos Pires antecipou-se ao meu comentário… E só mais uma coisa, para além de despoletar um episódio agudo, constitui um factor de risco para o aparecimento de psicoses, como por ex., a esquizofrenia.
June 22nd, 2007 at 22:52
detecto aqui uma tensãozinha sexual…
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