Thursday, June 21st, 2007...18:10

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O meu problema com
a literatura de viagem

Alexandre Soares Silva

O meu problema com a literatura de viagem é que essa gente toda vai para lugares onde eu não quero ir. Era diferente no século XIX, quando África era romântica; mas hoje ela tem todo o charme de uma Monguaguá com guerrilha, uma Barueri com fome, uma Osasco com diarreia. Pobre África: de Continente Negro a mero problema socioeconómico em menos de cem anos. E a Ásia é a mesma coisa. E o México! Meu Deus, que desgraça ser mexicano. Se eu fosse mexicano ficava atirando para cima e dançando em volta do meu sombrero de tanta angústia de ser mexicano. Chileno, peruano, que tragédia. A semana passada tive um problema no estômago e, sentindo ânsia, passei pela CNN. Um locutor dizia em espanhol, “e agora notícias do Chile”, acho que era o Chile, “o governo acaba de anunciar uma redução no preço do gás”, e nesse ponto a ânsia atingiu um clímax – digamos que ela se casou perfeitamente com o meu estado de espírito – e tive que correr para o banheiro, com um nojo bastante físico da América Latina. É o continente mais chato do mundo; tudo o que você pode esperar dele são estatizações e flutuações do preço do gás.

De modo que não há para onde ir. Para manter o ar de novidade e não ser, digamos, o ducentésimo milésimo inglês a escrever um livro sobre o Nepal, escritores de viagem tentam pequenos truques, como atravessar o país andando para trás enquanto jogam mahjong, ou caminhar por toda a planície do Terai sem parar de falar mal de Ann Coulter (Trashing Coulter in Nepal, de Andrew Sepowicz). Sem dúvida alguém ainda vai atravessar o deserto de Gobi vestido de Sr. Spock, procurando por mongóis que falem klingon («Burne-Smith atravessou o deserto de Gobi em 2005 à procura de trekkies, mas só encontrou uma menininha vestida de tentente Uhura na pequena aldeia de Junggar. Este é o fascinante relato dessa busca épica» – Salon Magazine). Essas tácticas não escondem o facto de os países antes misteriosos hoje são só pobres, e que a única maneira de fazer com que eles pareçam interessantes é inventar um truquezinho.

O que houve com o Mistério que abandonou o mundo? É possível recuperá-lo? Algum dia a mera menção a África vai voltar a causar-nos um frisson de adolescente lendo As Minas do Rei Salomão? Como se sente o povo zulu a respeito disso – eles que antes dominavam Kukuanaland, e cujo simples aparecimento no horizonte causava terror no homem branco, e agora só devem causar pena nos adoráveis seios arfantes de Angelina Jolie?
É possível voltar a acreditar que em algum lugar da Ásia existe uma raça de gente com o rosto na barriga? Não, claro que não – a visão económica e científica do mundo – nem a chamemos “científica”, não merece tanto; digamos “cientificazinha” – faria com que, se houvesse de facto uma raça de gente com o rosto na barriga, os jornais se enchessem de artigos sobre os problemas gastrointestinais dum povo que tem a boca tão perto dos intestinos. Eles não seriam misteriosos, terríveis, medonhos: seriam coitados. Concertos de rock seriam feitos para arrecadar dinheiro para eles.

No século XIX a Europa olhava para África com curiosidade, terror, e, vá lá, ganância. No século XX passou a encarar África quase que exclusivamente com pena (e, vá lá, ganância). O mistério sobreviveu um pouco século adentro, com Hemingway e Isak Dinesen, mas lá pelo final do século morreu de todo: caçadas eram agora um no-no, e achar uma parte do mundo “exótica” era considerado feio, paternalista, colonialista, que horror, que declassé. Por algum motivo sentir pena não era considerado paternalista – não me pergunte o motivo, também não entendo – e todos passaram a sentir pena de um momento para o outro. Houve uma orgia de pena. O mundo cobriu a África de pena. Soterrou a África em piedade e gráficos.

Não é tempo de chegarmos à conclusão de que tanta pena não ajuda África em nada? Podemos voltar a sentir que África é Misteriosa? Digam a verdade: se vocês fossem africanos não prefeririam que o mundo pensasse em vocês como guerreiros zulus saídos do romance de Rider Haggard, e não como criaturas famintas com moscas nos lábios? A velha maneira de encarar África era pelo menos capaz de causar auto-estima nos africanos, ao passo que a nova só causa vergonha e auto-piedade.

Onde está o escritor de viagens, ou mesmo de ficção, capaz de trazer o mistério e a dignidade de volta para África? E para o mundo? Porque o mundo inteiro precisa disso, mistério e dignidade – as ruas de Estocolmo e Boston, Lisboa e Brasília, tanto quanto as savanas onde Allan Quartermain caçava.

[Atlântico nº 26 - Maio de 2007]

11 Comments

  • Texto lindo e amargurado!
    Deixo uma sugestão.
    Suba ao largo da Graça! Dê as voltas que quiser, ainda é um must de exotismo, beleza e emoção. A mistura entre o medieval com o movimento operário. E o horizonte leva-nos sempre a África…

  • Paulo Pinto Mascarenhas
    June 21st, 2007 at 21:26

    Xico, o Alexandre Soares Silva é brasileiro e vive no Brasil. Também não falta lá exotismo, beleza e emoção.
    Obrigado pelo seu comentário.

  • Favor trocar “Barueri” (suburbio novo rico com o IPTU de Alphaville) por “Carapicuiba”, (a Nigéria perto de si).

  • Lembra o conto de Maupassant, “la peur”, no qual o personagem exclama: “pertenço à velha raça que ama em crer. Pertenço à velha raça ingênua acostumada a nao compreender, a nao procurar, a nao saber, feita para os mistérios circundantes e que se recusa à simples e clara verdade.”

  • Acredito que os meios de comunicação de hoje podem facilitar na perda do fascínio por alguns lugares Alexandre, as boas histórias e mitos não ganham a mesma popularidade e velocidade que as tragédias, violência, fome, corrupção e pobreza.

    Nossas crenças ficaram mais frias e duras, infelizmente você está certíssimo.

    Um abraço e boa viagem.

  • Memorável Laurence Sterne

    « Os ociosos que deixam o país natal vão para o estrangeiro por alguma razão ou razões que se podem derivar de uma destas causas gerais -
    Enfermidade do corpo,
    Imbecilidade do espírito, ou
    Necessidade inevitável.»

    Laurence Sterne adoraria os travel channels.

  • Hoje os mistérios deixaram de ser geográfico. São bem mais sociais.
    Dia desses li que o melhor falafel do hemisfério ocidental podia se comido em uma birosca de Havana Velha.
    Tá bom, não sei se isso justificaria uma viagem a Cuba, mas pelo menos é uma coisa curiosa de ser descoberta.

  • Hoje os mistérios deixaram de ser geográfico. São bem mais sociais.
    Dia desses li que o melhor falafel do hemisfério ocidental podia se comido em uma birosca de Havana Velha.
    Tá bom, não sei se isso justificaria uma viagem a Cuba, mas pelo menos é uma coisa curiosa de ser descoberta.

  • É recorrente, mas precisa ser reforçado: também há algo de trágico na má colocação das vírgulas…

    Não há crítica que sobreviva ao esturpo da garmática…

  • […] artigo sensacional, Meu problema com a literatura de viagem, Alexandre Soares Silva diz que precisamos devolver a dignidade à África. Ele não fala da […]

  • Great boys3f1651

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