Saturday, June 30th, 2007...4:23
Peço desculpa
Às vezes escrever a quente dá nisto e depois uma pessoa arrepende-se de ter sido menos correcta ou rigorosa. Percebo perfeitamente onde o Paulo quer chegar, mas não chega falar na importante questão da reserva da vida privada de cada um, por uma questão simples: vivemos em sociedade e, tirando um caso ou outro, parte dessa vivência envolve uma expressão salutar de afectos em público. Já estou - com a devida licença - como Pedro Arroja: numa sociedade liberal - e, acrescento, tenho mesmo de acrescentar, civilizada - cada indivíduo cumpre certas obrigações. Parte dessas obrigações passam por uma acção pró-activa do indivíduo, outras por uma acção reactiva. Explico.
Para ser muito básico, um exemplo de uma acção pró-activa é oferecer o lugar, num transporte público, a alguém que dele mais precise. Numa sociedade liberal civilizada, não é preciso avisos a dizer que lugares X estão reservados a velhos ou grávidas, nem muito menos multas por não agir de acordo com essa norma: isso faz-me porque é óbvio que é isso que deve ser feito. Existe não só uma sanção social para quem não o faça, como, derivado também disso, um incómodo pessoal por não agir de acordo com o que deve ser feito.
Um exemplo de uma acção reactiva é sancionar um acto que é socialmente condenável, ainda que não seja - nem deva necessariamente ser - legalmente punido. Não me vou alargar sobre a noção de sanção social, até porque outros o farão bem melhor do que eu. Dou um exemplo apenas: numa sociedade liberal civilizada, uma pessoa que grita “Suas bichas! Paneleiros dum raio! Ordinários! Vão fazer essas porcarias para vossa casa!” quando vê dois homens de mão dada ou a dar um beijo na rua (ou duas mulheres, por razões sobejamente conhecidas algo bastante mais tolerado na nossa sociedade) será socialmente sancionada. Através de olhares, de palavras, de um qualquer contraditório que reequilibre o que foi uma transgressão de uma norma numa sociedade liberal civilizada - a não intromissão na esfera privada de cada um.
Ora, muitos ditos liberais não aceitam que seja um dever cívico individual lutar contra este tipo de discriminação e intolerância. Imagine que alguém, na Av. dos Aliados, grita “Preto dum raio! Vai para a tua terra!”, sem mais nem menos. Haveria algum tipo de reacção? Certamente que sim. E se fosse um grito homofóbico? Provavelmente não. Previsivelmente, pelo que lemos e vemos, certos liberais blogosféricos não teriam qualquer problema com isso, antes pelo contrário: viriam a correr defender, não a tolerância para com o outro, mas o direito a ser homofóbico. Percebam que não está em causa a essência da homofobia, mas apenas a sua expressão pública, quando esta colidir com direitos dos outros, nomeadamente, através de agressões físicas ou verbais. Cada um, intimimamente, pode ser e sentir o que quiser. Não estou, repito, sequer a falar de leis (embora pudesse, mas uma coisa de cada vez), apenas de comportamentos individuais socialmente tolerados - ou não.
Aquilo por que, no meu entender, qualquer liberal à moda antiga (uns meses de vivência em Inglaterra, apesar de tudo, ainda devem bastar para perceber o que isto é) deve lutar é pelo direito à indiferença: o direito a cada um levar a vida que entender, sem que ninguém o chateie com isso. Isso não se passa em Portugal e acho estranho que quem apregoe a defesa da dignidade e da liberdade humanas não se preocupe com uma coisa tão importante para uma pessoa como a possibilidade de fazer uma série de coisas publicamente sem ser incomodada.
Repito: é o direito à indiferença, o direito a não ser incomodado. Direitos negativos, caros liberais. Ninguém está aqui a falar do direito à adopção nem do direito ao casamento (podemos falar disso, mas não perdemos nada em separar as coisas e atentar ao que é primordial e antecedente a isso, que é a tolerância social do outro - e não se leia disto qualquer opinião sobre qualquer dos dois temas mencionados, que ficam para outra ocasião). No meio de uma série de opiniões moralistas e intolerantes, o que é que se retira - o que é que resulta - desse tipo de (não) reacções? Que o português médio, que sempre se sentiu no direito de chamar nomes às “fufas” e aos “paneleiros” que vê na rua, continuará a fazê-lo, porque está no seu direito. É isto que está em causa.
Haverá poucas marcas mais distintas desta homofobia e de sentir um direito de gozar com o outro e - aqui sim, Paulo - invadir a esfera do outro do que a reportagem da RTP, salvo erro feita pela jornalista Rita Marrafa de Carvalho, em que esta se vira para um tipo que estava a assitir ao desfile do Gay Pride em Lisboa e diz, mais coisa menos coisa: “Mas tem a certeza que está só a assitir?… Hmmm… É que… veja bem: tem uma t-shirt com as mangas enroladas… tem o tenisinho da moda… e umas calças todas catitas… não acha que devia estar no desfile?”. Quem não se incomoda com isto (já não diga que se insurja), não age de acordo com a ideia - admito que algo arrojada para muitos - de que a vivência numa sociedade civilizada comporta certas obrigações, desde logo a de não ser intrusivo na esfera do outro e lutar por um espaço público de tolerância social pelos comportamentos alheios.
Mas há mais. Há aquela ideia do “e tu não me chames homofóbico, para tua informação até tenho muitos amigos homossexuais, acontece que eles não são exibicionistas nem andam por aí a apregoar o que fazem em privado, como certas doidonas tricolores de botas altas”. E fazem muito bem. Como fazem os outros. Cada um tem o direito a expressar em público, dentro de limites, uma série de coisas. Só se pede (parece contraditório, dada a ideia de uma comunidade “coesa” e civilizada, mas não é) que se seja indiferente perante a diferença do outro. Ou melhor: que não se aja para com ele de maneira intrusiva.
No fundo, a ideia da “privatização total do sexo” é a ideia, muito apaziguadora, de que o sexo só existe dentro de quatro paredes e que, na rua, somos todos uns seres assexuados, imunes e indiferentes a essa dimensão da existência humana. O Ivan Nunes, para quem precise, refere um curso que pode ajudar. Mas cuidado: não vão, como o outro, deslumbrado com o que aprendeu em meia hora de visionamento do filme “Império dos sentidos”, pôr em causa uma vida inteira de correctude e temperança num curso de Verão.
Reparo agora que comecei por pedir desculpa. How foolish of me. Talvez seja da hora tardia a que escrevo. (Será que o Pedro já está a caminho da Dione?) Peço desculpa por ter pedido desculpa. Foi um engano. Felizmente vai acontecendo amiúde. Como consolo, peço ao leitor que concorde comigo que este é um daqueles casos em que two wrongs do make a right.

15 Comments
June 30th, 2007 at 11:25
Excelente!
June 30th, 2007 at 13:06
Muito bem
June 30th, 2007 at 14:36
Bem, Tiago, muito bem.
June 30th, 2007 at 16:25
Acrescenta a minha assinatura ao post, se fazes favor.
June 30th, 2007 at 18:40
Eu só tenho pena que o André Azevedo Alves não tenha traquejo nem nível para discutir contigo taco a taco este assunto, Tiago. Mas percebe-se porquê, vê-se bem de que lado está a razão.
June 30th, 2007 at 19:14
Idem, idem, aspas, aspas
June 30th, 2007 at 22:38
Bom post.
June 30th, 2007 at 22:43
Excelente texto.
June 30th, 2007 at 23:02
Grande Tiago! Argumentação irrepreensível. E a demonstração que o único liberalismo coerente é o liberalismo-comunitário, aquele que rejeita uma noção absoluta e fantasista do privado.
July 1st, 2007 at 0:56
muito bom
July 1st, 2007 at 23:56
Nada como um comentário concordante como o do João Galamba para arrasar com todo um texto. Poupa-se assim o latim, e sobra tempo para ver os anúncios de verão do sapo.
July 2nd, 2007 at 0:41
Ainda assim a opinião do Tiago Mendes sobreviverá pujante a colagens mais ou menos saltitantes.
Lido de fio a pavio e com muito gosto.
July 2nd, 2007 at 12:16
RAF,
O Tiago, por mais de uma vez, já se demarcou dos teus purismos liberais. Por isso, não me parece que a sua argumentação saia chamuscada pela tua acusação de desvio ideológico.
Cumprimentos,
Joao
July 4th, 2007 at 13:31
Obrigado por expressares tao bem o que abunda na nossa sociedade, e o que necessita de remedio santo.
July 20th, 2007 at 16:13
Reportagem assinada “salvo erro” por rita marrafa de carvalho?!?!?
Por acaso confirmou essa informação?
Se sim, então por que escreveu “salvo erro”?
São estas as marcas textuais dos interesses camuflados que andam por aí…
San..a Felg..ras
AH AH AH AH AH AH AH
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