Wednesday, July 4th, 2007...0:00
Casado
Quando jogava à bola era o n.8. Para quem não sabe, o 8 é o vagabundo, o gajo que joga na frente, mas sem uma posição fixa. “Pá, joga atrás do Félix”, dizia-me o mister. O Félix era o n.9, o ponta-de-lança fixo. Fixo, vejam bem. O tipo, o Félix, tinha responsabilidades tácticas fixas. Tinha que se dar aos centrais. E eu? Andava soltinho da silva, entre o Félix e a linha média: O Dâmaso, o Nuno, o Pedro e o Tractor. A defesa, o Flor, o Johnny, o Zé e o Americano, era terra incógnita. Cruzei-me uma vez com o nosso guarda redes. Se não me engano, chama-se Ricardo.
O n.8, eu, era a modos que o benjamim, o gajo solto que complicava as coisas. Livre. Imprevisível. Podia errar à vontade. Um contador de estórias no meio de Mourinhos chatos. Uma cueca era mais que um golo. Um cabrito e não fazia mais nada. O “gajo que não parava quieto”, diziam os cabrões dos defesas. Pois, muito bonito, mas só jogava ao ataque. Não defendia. Não tinha responsabilidades. Eles não confiavam em mim para defender. Quando a equipa recuava, quando até o Félix ia marcar o central nos cantos, eu ficava na mama, a galar as miúdas nas moitas que faziam de bancada.
Eu era o inverso do Dâmaso, o n.º6, o trinco, o responsável, o gajo que defende e que ataca. Aquele que carrega a equipa às costas. Aquele que lidera, que grita. O boss. Eu podia falhar 10 vezes. O Dâmaso não podia falhar. Eu brincava. Ele liderava. A equipa podia passar sem mim (não era tão gira, não trazia tanta miúda ao pelado, e não jogava tão bem, mas podia passar sem mim), mas não podia passar sem o Dâmaso. Eu ganhava alguns jogos. Com o Dâmaso fomos campeões.
A vida de solteiro é a posição 8. A vida de casado é jogar com o n.º6 nas costas.

Comments are closed.