Wednesday, August 8th, 2007...14:38

Coisas de facto graves

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O ‘Gay Lobi’ simultaneamente nega os riscos para a saúde das suas práticas e ao mesmo tempo exige que a sociedade em geral paga as despesas.

1. Parece-me, mas posso estar enganado, que as práticas do tal ‘Gay Lobi’ - onde a autora incluirá, certamente, a associação ”Abraço”, fundada por Margarida Martins - procuraram sempre, através de informação, publicidade, propaganda, manifestações públicas, etc., informar todas as pessoas sobre práticas sexuais individuais seguras (ou melhor, mais seguras, ou relativamente mais seguras, porque nada é infalível). Aliás, a subida vertiginosa dos casos de contaminação do HIV por via sexual heterossexual é, em parte, consequência da ideia errada, em grande parte pelo seu cariz identitário, de que o HIV era coisa exclusiva dos homossexuais (correlacionada com a ideia do mundo a preto e branco).

O que Patrícia Lança provavelmente quer dizer, mas não diz, é que essas organizações, apesar de lutarem, como poucas, por uma sexualidade mais informada e mais responsável - quanto aos riscos que cada um corre -, não desencorajam, tout court, a prática de actos homossexuais. Como não o fazem, segundo a ”lógica” de Patrícia Lança, “contribuem” e “promovem” estas doenças. Claro que a mesmo “lógica” seria aplicável, na mesma e exacta medida, à prática de actos heterossexuais, mas o ódio, como o amor (ou não fora ele o seu contrário), é cego. (No news are good irrelevant news).  

2. O Carlos insurge-se contra uma “demonstração de cariz sexual“, apresentando como um dos seus argumentos a incerteza relativamente a ”uma criança de 11 anos já ter uma identidade sexual definida“. Vamos por partes. Há uma manifestação eminentemente política, porque estão em causa coisas públicas, não privadas. Falar em “cariz sexual”, neste contexto, é um pouco redutor e quase nos leva a Miguel Sousa Tavares, quando disse, a propósito do  “beijo de Gaia”, não ver nele uma “orientação sexual homofóbica”.

Cada um dos jovens - num grupo de 40, com idades entre 11 aos 16 anos - estava acompanhado por um adulto e o barco onde seguiam estava longe dos barcos mais exibicionistas. Aos 11 anos, se bem me lembro, já há vontade de muita coisa. A mim preocupa-me zero que um jovem “tenha a sua identidade sexual definida” - aliás, preopcupa-me mais que esse jovem entenda e aceite que qualquer tipo de questão / dúvida não deve ser tanto uma ”preocupação” (com o sentido trágico que ela habitualmente acarreta), como uma coisa vivida com naturalidade. 

Haver jovens que participam em manifestações destas (cujo formato, diga-se, geralmente não me parece o mais produtivo nem me agrada especialmente) é, entre outras coisas, passar uma mensagem a todos - jovens incluídos - que todos têm, aos 18, aos 16, aos 12, aos 6 anos o direito a dar um beijo (consentido) a quem bem entenderem. Não sei como foram os 11 anos do Carlos. Nessa altura relativamente precoce, conseguia quase sempre convencer as minhas namoradas (uma de cada vez) a ir ”passear”, à hora de almoço, nos corredores desertos do colégio (católico) onde andava. O objectivo era muito prosaico: ver se nesse dia a coisa ia um pouco mais além. Teimosia própria de predador. Isto apenas para dizer que gostava que todos os miúdos e miúdas sentissem a mesma liberdade que eu sentia em seguir os meus impulsos, com A ou B. E que todos fossem tratados da mesma forma - por colegas, professores e pais - independentemente do sexo da pessoa (”objecto de desejo”) em causa. Enquanto um liberal-libertino como o Carlos, relativamente “arejado”, tiver dificuldade em compreender estas coisas, esse dia ainda está bem longe.

Leitura complementar: shyz-not-just-good-,-shyz-great.

15 Comments

  • Tiago, penso que é importante entender o contexto do meu post. No artigo que refiro, a única fonte para o post, não há qualquer referência à forma como os adolescentes participaram no desfile. Apenas diz que desfilaram. E tu, como eu, sabes qual o tipo de comportamentos demonstrados em desfiles deste género. Daqui a pergunta: a tua posição manter-se-ia se os adolescentes tivessem ido vestidos com fatos de cabedal a demonstrar comportamentos exibicionistas?

    “Isto para dizer que gostava que todos os miúdos e miúdas sentissem a mesma liberdade que eu sentia em seguir os meus impulsos, com A ou B. E que todos fossem tratados da mesma forma - por colegas, professores e pais - independentemente do sexo da pessoa (”objecto de desejo”) em causa. Enquanto um liberal-libertino como o Carlos, relativamente “arejado”, tiver dificuldade em compreender estas coisas, esse dia ainda está bem longe.”
    Repara que eu só me demonstrei contra a utilização de crianças numa manifestação de orgulho gay e da eventual manipulação que uma criança de 11 anos poderá ser vítima. Só. Todas as ilações que retiras daí estão erradas.
    Se leres o artigo que citas, verás que muitos membros da comunidade homossexual holandesa também se opuseram à utilização de crianças no desfile. Porque será?

  • Carlos,

    No artigo que citaste (clicando no teu “aqui”), le-se:

    “For the first time ever, a group of 40 teenaged gays aged 11 to 16 participated in the world famous gay parade. They were accompanied by their parents.”

    Isto quanto a estarem acompanhados de adultos.

    Tu falas de “utilizacao” de criancas. Mesmo que elas nao estivessem acompanhadas de adultos, o teu “pressuposto” foi o de que elas nao tinham ido por vontade propria, mas de certo modo coagidas. Ora, volto a frisar que eram criancas de 11 a 16 anos. 40 no total. HAveria uma ou outra de 11 anos, mas focar demasiado nessa idade e’ falacioso. Acresce que todos temos desenvolvimentos diferentes. Quem te garante que essa crianca de 11 anos nao tinha uma maturidade maior que a maturidade media de uma crianca de 13 ou 14 anos? Nao sabemos. O teu pressuposto foi “la’ estao os malandros do lobby gay a usar de todo e qualquer metodo para fazer valer o seu ideario”.

    E, diga-se, esse “pressuposto” nem seria totalmente infundado e, por si so’, inaceitavel (dada “alguma” evidencia que se conhece, de manipulacoes, etc).

    Mas repara que tu ignoras o principal do texto:

    “The initiator of the teenage gay boat, 14-year-old Danny Hoekzema, said the participation of teenage gays was necessary to ask attention for the position of young gays.”

    Ou seja, a ideia partiu de um adolescente de 14 anos, nao de um barbudo quarentao cheio de cabedal.

    Mais: esse adolescente fe-lo por uma questao de participacao civica - para chamar a atencao para o facto de haver adolescentes que gostam de pessoas do mesmo sexo, que sofrem tanto ou mais que os adultos que tambem gostam de pessoas do mesmo sexo (em termos sociais, etc). Acho que a isto se chama dever civico - de lutar por aquilo em que acreditamos, de forma pacifica, na nossa sociedade.

    O miudo nao foi para o barco “pavonear-se”. Foi para defender uma sociedade mais tolerante e mais aberta - e sobretudo “alerta” - quando ao facto de haver adolescentes atraidos por pessoas do mesmo sexo. A intencao era “politica” - la’ esta’ - e nao de “cariz sexual”.

    “Apenas diz que desfilaram. E tu, como eu, sabes qual o tipo de comportamentos demonstrados em desfiles deste género. Daqui a pergunta: a tua posição manter-se-ia se os adolescentes tivessem ido vestidos com fatos de cabedal a demonstrar comportamentos exibicionistas?”

    Nao obstante a tua premissa estar errada, respondo condicionalmente ‘a tua pergunta: se os adolescentes tiverem ido por vontade propria, nao vejo problema de maior.

    “Repara que eu só me demonstrei contra a utilização de crianças numa manifestação de orgulho gay e da eventual manipulação que uma criança de 11 anos poderá ser vítima. Só. Todas as ilações que retiras daí estão erradas.”

    Peco desculpa. Leste mal o artigo e, nesse caso, acho que devias rectificar a tua posicao, nao menos porque ela e’ denunciadora de uma certa predisposicao ao ataque do “Gay Lobi”. Eu, seja neste, seja noutro tema, teria sempre por premissa base que os jovens tivessem ido por vontade propria. Eram jovens dos 11 aos 16 anos. Percebo e concordo que 11 anos seja uma idade que sugira alguma inquietacao. Pegar nisso, sem mais informacao, para extrapolar coisas, pode ser perigoso. No teu caso, por falta de atencao, foi fatal.

    “Se leres o artigo que citas, verás que muitos membros da comunidade homossexual holandesa também se opuseram à utilização de crianças no desfile. Porque será?”

    Nao me preocupa a unanimidade. E’ natural haver opinioes divergentes. Tambem concordo que “criancas” nao devem participar em manifestacoes destas. Saber se o “jovem em concreto de 11 anos” e’ ou nao uma crianca e’ outra questao. Se pensares no Brasil, onde as “criancas” iniciam a sua vida sexual aos 11, 12 anos… enfim, o que tudo isto parece mostrar, como tambem diz a
    shyznogud, e’ que ha’ muita dificuldade em aceitar a sexualidade nos jovens (bom como em idades mais avancadas) mais jovens, sobretudo a homossexualidade.

  • Tiago, eu falo em utilização de crianças não no sentido de serem coagidas a participarem, mas no mesmo sentido com que discordei com a sua utilização no referendo do aborto. Independentemente de, num caso ou noutro, se terem deslocado de livre vontade.

    A sexualidade dos jovens é uma questão interessante. Tive um professor universitário que na altura do escãndalo da Casa Pia, afirmava que se os rapazes adolescentes tinham feito sexo consentido e com autorização dos pais, os adultos não deveriam ser punidos. Será que aceitar a sexualidade dos adolescentes é ir até este ponto? Nas comunidades ciganas é comum homens adultos casarem com meninas com menos de 14 anos com o consentimento das autoridades(conheci um caso de uma menina com 11 anos que casou com um homem de 28). Obviamente que quando se aceita estes casamentos, não deveria sobrar muita margem de manobra para punir os arguidos do caso Casa Pia.
    Choca-me isto, e choca-me a utilização de crianças de 11 anos para marcar este tipo particular de posição política. Se fosse activista LGBT, não o faria. E alguns dos activistas parecem estar de acordo comigo.

  • “Se leres o artigo que citas, verás que muitos membros da comunidade homossexual holandesa também se opuseram à utilização de crianças no desfile. Porque será?”

    porque, ao contrário do q muitos gostam de imaginar e de apregoar, o “mundo” gay é tão diverso como o straight, não será? O que é óptimo, adiante-se.

  • Carlos,

    Repito o que ja’ escrevi, e que faz toda a diferenca: a “iniciativa” foi de um jovem de 14 anos, que queria alertar para o problema dos jovens como ele, que sentem atraccao por outros do mesmo sexo. ‘A organizacao coube a decisao de aceitar ou rejeitar essa “iniciativa”. Dificilmente poderas encontrar exemplos mais obvios de participacao civica que um puto de 14 anos tomar uma iniciativa destas (quanto a iniciativas, Vitor Cunha tambem diz umas coisas que merecem ser lidas).

    A mim chocar-me-ia que “rejeitassem” a proposta bem intencionada de um puto que “sofre na pele” o que sofrerao todos os outros putos (nomeadamente, como se explica no artigo, a “dificuldade”, dada a “secretizacao” da coisa) em encontrar parceiros da mesma idade. E’ contra essa “secretizacao” que qualquer pessoa liberal e bem intencionada deve, quanto a mim, lutar. Entre isso e o “exibicionismo” vai uma grande distancia. Dizer nao ‘a secretizacao e’ aceitar que ha’ uma dimensao publica da nossa sexualidade que e’ natural e ‘a qual devem ter igual acesso (nao falo obviamente de leis, mas de tolerancia de comportamentos) todos, independentemente de quem tocam ou de quem beijam. Just that.

    Choca-me ainda que insistas no termo “utilizacao” de criancas, porque pressupoe que a iniciativa nao lhes cabe a elas. “Inclusao de jovens interessados” seria mais correcto. Mas se calhar seria “activista” de mais, cuidado com isso.

  • Por “Porque será” quis dizer “Quais as razões que os levaram a ser contra?”.
    Vocês parecem umas virgens, pah. O estratagema de vitimização permanente é esgotante.

  • Carlos,

    Supor que esse comentario sobre a vitimizacao e’ para a Shyznogud e’ tao improvavel que vou assumir que e’ para mim. E repara que a resposta so’ pode ser a mesma: sim, havera’ quem se tenha oposto a essa utilizacao, como havera’ quem se oponho ‘a exibicao de cabedais ou chicotes ou mamas ‘a mostra ou sequer ‘a realizacao de qualquer desfile, ou ainda a que se fale da coisa. (Como Joao Miranda muito bem lembra, pode ter-se comportamentos/impulsos homossexuais e ser-se homofobico).

    O facto de eu te criticar significa que criticaria quem escrevesse exactamente o mesmo que escreveste. What’s the problem? Critiquei a tua posicao. Opinioes ha’ muitas, como tu pensarao alguns “activistas”, nothing particularly wrong with that. Ou achavas que havia unanimidade nestes assuntos? Diversidade, meu caro, diversidade…

  • Tiago, o comentário era para Shyznogud.

  • Claro que era, Carlos… apenas me “adiantei”.

  • Faço minhas as palavras do Tiago para poupar letras e tempo de leitura ao Carlos.

  • Agradecido.

  • […] sobre as “criancinhas” na parada gay, escreve o João Galamba no Metablog (bolds da minha responsabilidade): 1) Se o objectivo destas […]

  • Caro Carlos,

    Eu esperava que tendo linkado 3 artigos sobre o tema - e tendo tu lido os mesmos, porque os citaste no teu comentário no blogue - já não viesses com a mesma ideia da instrumentalização das crianças. É mais que óbvio que estes míudos andam a falar dos seus amores e desamores na Internet e que os pais se limitaram a aceitar a vontade deles de participarem na manifestação.
    Os pais podiam proibir ou não, mas nunca obrigar, porque esses míudos não se deixam obrigar. Não sei se eras submisso quando tinhas 12 anos, mas eu certamente não iria a uma manifestação gay obrigado pelos meus pais. Além do mais, também foi referido que o barco em que os míudos andaram foi mantido à distância dos barcos onde iam os exibicionistas pelo que - como reconheces no título do mesmo- o teu último post no insurgente é demagógico e, neste caso, simplesmente falso. Quanto ao resto, há diferenças respeitáveis de opinião. Mas não percebo a obsessão em provocar seja quem for. É uma coisa que o Pedro Arroja também tem e que me parece uma fraqueza, não uma virtude.

  • Ana Matos Pires
    August 9th, 2007 at 2:16

    Bom, Tiago, muito bom.

    Cheguei tarde, mas ainda assim pergunto ao Carlos, vocês quem? parecem umas virgens porquê? qual estratagema de vitimização?

  • A questão do Carlos é muito pertinente e penso que é importante debruçarmo-nos sobre ela porque é uma ideia frequente na cabeça de várias pessoas.
    Caro Carlos, desculpe ser directo, mas pelo menos a sua opinião é homofóbica. Ao dizer que grave é “assumir que uma criança de 11 anos tenha já uma identidade sexual definida” ocorre-me que o que estava a pensar era “que horror uma criança que já sabe que é gay”. Agradece-se o politicamente correcto mas há que ler as entrelinhas.
    Nunca ouvi ninguém dizer “é grave que uma criança de 11 anos assuma que é hetero”, até porque se assim acontecesse, no mínimo, seria um motivo de orgulho para os pais, sobretudo se fosse um rapaz (éhhh ganda macho).
    Neste caso, em Amesterdão, só vou acrescentar que as crianças e os pais que iam naquele barco não estão “malucas”, e deixo as restantes considerações para vosso brainstorming.
    A sociedade educa-nos na heterosexualidade, e tudo o “resto” deixa-nos “confusos” mas isso não nos dá o direito ao preconceito.
    Para terminar, adoro-te Amesterdão!

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