Thursday, August 9th, 2007...16:58

Uma conversa que nunca acaba

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Ter orgulho é afirmar que uma identidade não é um facto mas uma conquista (os escravos passaram a ser pessoas porque lutaram por isso, a sua humanidade não era um simples facto), que tem de ser afirmada publicamente, contestando e rejeitando a exclusão/vergonha/humilhação a que certos comportamentos estavam expostos. Por isso, conquistar e lutar por uma identidade inclui elementos de coragem e mérito. “Ser” é uma acção e não um atributo fixo. E por isso o “orgulho gay” faz todo o sentido: uma identidade é uma acção. Negá-lo não passa de uma mistificação ou de uma tentativa pouco honesta de naturalizar uma determinada ordem que não o é.

O problema da identidade, tal como o João Galamba o descreve, é indisputável. Cada um constrói e afirma a sua identidade pessoal como e quando pode e lhe apetece. Que haja quem reduza a sua identidade à sua sexualidade é problema seu e de mais ninguém. Pedro Mexia escrevia, há tempos, a propósito deste tema, qualquer coisa como ”era só o que faltava se eu não me pudesse identificar como heterossexual”. Não há quem viva a sua vida como “benfiquista”? Ou “evangélico”? Ou “tripeiro”? Ou “portista”? Ou “metálico”? Ou “punk”? Cada um identifica-se como lhe apetece.

Depois há a questão da escolha. Se ninguém tem poderes para determinar os seus impulsos/desejos sexuais, não há, de facto, “escolha” relativamente a isso. Mas pode haver escolha relativamente à efectivação desses desejos/impulsos (ex.: optar pela castidade). Também há escolha na forma como se vive essa sexualidade no espaço público. É neste campo - da afirmação de direitos no espaço público - que faz todo o sentido falar em “grupos” ou “identidades”. Isso idealmente deve ser feito sem que se perca de vista a ideia de diversidade, inerente ao homem, em todas as suas dimensões - o que  é raro neste campo. Quando defendemos a causa timorense, ou lutamos contra a proposta de lei controleira do ministro Santos Silva, não ficamos propriamente a pensar que os timorenses ou os jornalistas são todos iguais. Isso acontece com sexualidades menos comuns por conservadorismo ou reaccionarismo: tudo o que é estranho e “novo”, rejeita-se e/ou finge-se que não existe.

Não há contradição nenhuma em concordar globalmente com o post do João e insistir que é pernicioso, senão mesmo errado, em termos individuais, insistir na ideia de uma “orientação sexual”, como se fosse uma “bússola”. O facto de ela não ser uma escolha significa apenas que ninguém tem o poder de, de um dia para o outro, deixar de se sentir atraído por homens/mulheres. Mas isso não quer dizer que a sexualidade seja estanque e imutável. (Daí que a ideia de aos 14 anos se ter uma “orientação sexual definida” seja ainda mais criticável). 

Por princípio, acho redutor e pernicioso reduzir a identidade de cada um a uma só variável - mas claro que cada um é livre de o fazer. Um dos problemas é a externalidade que isso impõe aos outros, prolongando a ideia de um mundo a preto e branco, muito bem arrumadinho. Mas aceito perfeitamente que, no campo político, seja natural e até necessário - quer de um ponto de vista sócio-antropológico, quer do ponto de vista de ”agregação de esforços” - recorrer à ideia de “identidade”. But we are all different, we are all unique. Aceitar a diferença, num campo tão íntimo e tão visceral como o da sexualidade, é um marco histórico para um indivíduo, para uma cultura, para um país.

Em Portugal, essa aceitação ainda vai demorar. Até lá, cabe nomeadamente aos liberais lutar pelo princípio de não haver discriminação no espaço público, até que o direito à indiferença seja um dado adquirido.

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