Friday, August 10th, 2007...13:16
Pudores injustificados
Não percebo o Vasco Barreto. Não há necessariamente petulância no tratamento por “Agustina”. A economia ajuda a compreender a coisa, sob três vectores: economia de palavras; diferenciação e escassez; variedade. A eficiência de economizar nas palavras dita que quando nos referimos a alguém nem sempre o façamos através do seu nome completo. A possibilidade de diferenciação significa que não tem de haver regras fixas. Umas vezes optamos por referir apenas o nome próprio (”Marcelo”), outras o apelido (”Júdice”). A opção tem muito que ver com a escassez relativa dos nomes.
Ninguém identificaria, com segurança, um “José”, um “António” ou uma “Maria” no mundo dos livros. Falamos de “Saramago”, “Lobo Antunes” e “Gabriela Llansol” porque esses apelidos são relativamente mais escassos e, por isso mesmo, mais facilmente identificáveis. Assim como falamos de “Sophia”, de “Mia” ou de “Agustina”. E, repito, fazê-mo-lo de forma abreviada para poupar palavras e não cansar o leitor/ouvinte com o nome todo. Não é necessário haver “familiaridade” para nos referirmos a alguém pelo nome próprio. Há outros factores por detrás destas escolhas, mas (o) essencial é que a comunicação cumpra um dos seus papéis principais: entendermo-nos de forma eficiente. O gosto pela variedade implica que, apesar destas “linhas gerais”, não existam regras fixas. Cada contexto/círculo tem o seu código. Por exemplo, uma referência ao “Zé” num texto político será uma referência ao português comum, enquanto que num contexto literário/boémio, e havendo - aqui necessariamente - familiaridade, se referirá provavelmente a Cardoso Pires.
[O que nos levaria a um ponto colateral ao post: a forma como o intertextualidade importa para a constituição de grupos/comunidades, com os seus códigos, hábitos, linguagens e (cá está) identidades partilhadas.]

7 Comments
August 10th, 2007 at 13:28
Não há dúvida de que a formação em Economia nos dá uma forma própria de olhar para o mundo. Muitas vezes fico com a sensação de que somos uns básicos do caraças, mas de outras vezes exaspero-me a explicar o que para mim devia ser óbvio.
August 10th, 2007 at 14:11
Este Tiago Mendes é um chato de arrepio. Vá para férias, homem, e deixa-se de paneleirices.
August 10th, 2007 at 16:47
Que curioso, LA-C, então não é que me acontece exactamente o mesmo inúmeras vezes? Não há dúvida que a formação em Medicina dá uma forma própria de olhar o mundo.
August 10th, 2007 at 19:17
Pois a minha duvida, neste tipo de analises, e’ sempre a mesma. Sera’ que ficamos com a mente formatada por causa dos cursos que tiramos, ou foi o contrario, por termos um determinada forma de raciocinio sentimo-nos mais atraidos pelas areas em que acabamos por nos especializar.
August 11th, 2007 at 0:06
Permitam-me meter na conversa.
A formação académica ajuda, mas a nossa formação pessoal anterior conta bastante. Claro que cada “especialidade” nos dá uma visão particular das coisas, mas essa não deveria ser substancial. Porque hão-de um economista, uma médica e um professor ter visões distintas das coisas?
Quanto ao post, está (visto daqui) muito acertado. Acontece, por vezes, que certas regras que não teriam a haver com a linguagem em particular (como a etiqueta dentro de um grupo), podem perturbar a compreensão da mensagem. Ou então servem só para embirrar…
August 11th, 2007 at 16:37
Tens razão, Tiago, excepto no exemplo “Mia”, pelas razões que a seguir adiantas, pois “mia” também pode ser um verbo, capaz até de criar equívocos curiosos.
A juntar à tua explicação continuo a não excluir o factor familiaridade/ empatia, que pode ser real ou um embuste. Conheci um segurança que também é escritor e idolatra o Lobo Antunes ao ponto de se referir a ele como o “Lobo”, coisa que mais ninguém faz, quanto julgo saber. No caso dele, achava muita piada, noutros acho menos. Mas admito que “Agustina” não seja o melhor dos exemplos, só escrevi aquilo para “efeitos de estilo”.
August 11th, 2007 at 20:59
Interessante, o caso do segurança que contas, Vasco. Quanto ao Mia, diria que “mia” seria certamente um verbo, tal como “Mia” seria certamente um nome próprio, de resto identificável como o escritor num determinado contexto. O ponto da familiaridade é crucial, e percebi que era uma questão de estilo. Foi só um apontamento económico-linguístico, as paixões são assim, nem sempre se controlam.
Leave a Reply