Saturday, August 11th, 2007...16:44
Liberdade e Preconceito
Lê-se e ouve-se com frequência que a globalização acarreta consigo uma maior assimetria entre ricos e pobres. Pelo contrário, os factos demonstram que o fortalecimento das economias emergentes tem ajudado a amadurecer e a expandir o que se designa por classes médias, não apenas nos países desenvolvidos, mas também em boa parte do planeta onde os benefícios da riqueza tardavam em aparecer. Hoje, mais do que nunca na história da humanidade, estão a diluir-se as barreiras ditas de classe, por mero funcionamento dos mercados.
Curiosamente, há quem insista em manter, de uma forma artificial, o sectarismo classista, estratificado, praticando um discurso moral dos privilégios dos ricos contra a opressão dos pobres. Como se o esforço e os valores do trabalho fossem virtudes exclusivas das classes operárias. E cada um de nós pudesse ser rotulado à nascença, com uma marca indelével, que nos deveria perseguir até à morte. Ironicamente, a maior parte dos que se arrogam da herança proletária nunca na vida trabalharam na indústria ou na agricultura, vivendo no tédio de trabalhos administrativos ou medianamente intelectuais, no sector público ou na prestação de serviços. Um dos maiores dramas da esquerda, hoje, está precisamente no esbatimento das fronteiras sociais, na emergência de uma crescente classe média, urbana, que valoriza os frutos das sociedades de mercado, dificultando o discurso da luta de classes, tornando-o imperceptível, face ao que começa a ser a afirmação prática das ideias de cooperação, mérito e concorrência. Esta mentalidade está já bem consolidada até em Portugal, em boa parte da geração com menos de trinta anos, que encara com naturalidade a busca das melhores oportunidades no mercado global na hora, v.g., de escolher o seus empregos (estes jovens não se sentem emigrantes, mas parte de um movimento que é natural, de alargamento do seu raio de acção).
Regista-se também, que num momento em que o catolicismo não tem grande expressão no modus vivendi das classes médias, ainda haja quem de uma forma tão deslocada e arreigada pratique um discurso desproporcionadamente ofensivo contra uma minoria que se mantém, de facto, católica. Ironicamente, os papa-frades-e-barrigas-de-freira adoram assumir-se como paladinos do pluralismo e da liberdade, bandeiras que agitam com enorme ruído para poder, com ar grave e divertidamente clerical (ao bom estilo dos antigos abades das aldeias), dizer as suas habituais boçalidades , num registo tão previsível como os das famosas cassetes-carvalhas.
O comunismo e o anti-clericalismo passaram à história nos países mais desenvolvidos, mas há quem goste de viver agarrado às soluções do passado, ainda que se achem rodeados de uma aúrea iluminada e progressista.

5 Comments
August 11th, 2007 at 17:50
Um texto tão velho como a história: à nascença somos todos iguais e temos as mesmas oportunidades, os ricos trabalham tanto ou mais que a classe operária, não há classes sociais, o mercado resolve tudo.
Um texto a ser aproveitado pelo PSD/CDS.
A vida não é assim.
August 11th, 2007 at 17:55
-E as classes médias são mais prejudicadas nos países desenvolvidos, por via duma excessiva carga fiscal, que utopicamente visa assegurar uma coesão social, mas que na práctica se limita a subsidiar a subsistência duma mais ou menos parasita adminisitração pública, questão em que Portugal é aliás um excelente exemplo, com IVA a 21%, mais 11% para segurança social, IRS’s IRC’s, e afins, um estado despesista, que só nos sorve dinheiro sem nos prestar em troca qualquer serviço com um mínimo de qualidade, o que progressivamente nos vai deixando orgulhosamente agarrados ao modelo social europeu, e cada vez mais ultrapassados pelas economias emergentes.
August 11th, 2007 at 19:54
[…] Liberdade e Preconceito. Por RAF. Regista-se também, que num momento em que o catolicismo não tem grande expressão no modus vivendi das classes médias, ainda haja quem de uma forma tão deslocada e arreigada pratique um discurso desproporcionadamente ofensivo contra uma minoria que se mantém, de facto, católica. Ironicamente, os papa-frades-e-barrigas-de-freira adoram assumir-se como paladinos do pluralismo e da liberdade, bandeiras que agitam com enorme ruído para poder, com ar grave e divertidamente clerical (ao bom estilo dos antigos abades das aldeias), dizer as suas habituais boçalidades , num registo tão previsível como os das famosas cassetes-carvalhas. […]
August 11th, 2007 at 20:32
“Ironicamente, a maior parte dos que se arrogam da herança proletária nunca na vida trabalharam na indústria ou na agricultura, vivendo no tédio de trabalhos administrativos ou medianamente intelectuais, no sector público ou na prestação de serviços.”
E…?
Um proletário é um trabalhador não-proprietário dos “meios do produção” (há que restrinja a definição aos não-proprietários não-autónomos e sem funções de gestão ou de supervisão) - o que é que trabalhar nos serviços em vez de na agricultura ou na indústria tem a ver com isso? [embora, se adoptarmos a definição mais restrita, realmente os “trabalhos medianamente intelectuais” fiquem de fora]
August 11th, 2007 at 23:58
Caro Miguel,
A resposta á tua questão está no Negri e na tentativa de reinventar o marxismo, para acomodar precisamente a angústia do «novo proletário» nunca ter trabalho nem na indústria nem na agricultura.
Caro António Almeida,
O que dizes está certo, uma vez que é sobre a classe média que incide o grosso do esforço fiscal.
Caro José Manuel Faria,
Nada do que dizes consta do meu post. Nada.
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