Sunday, September 16th, 2007...15:46
Correlação não é causalidade
People often confuse traditions rooted in local culture with religious requirements. Ethiopians in the United States stand between the Ethiopian culture of their heritage and the American culture of their environment. They cannot and should not be expected to abandon their religion. I do think, however, that the young amongst them, at least, will be willing to abandon old-world cultural practices at odds with their adopted culture when such practices are unsupported by religion.
Ponto 1. A excisão feminima é um acto bárbaro, que limita irreversivelmente a capacidade da mulher para sentir prazer sexual e que condeno veementemente.
Ponto 2. Essa limitação ocorre numa fase em que a mulher ainda não tem capacidade de sentir prazer sexual - ou, pelo menos, tem bastante menos (obrigado, Ana). Logo, é inagável que ela nunca saberá o que perdeu com essa mutilação: o prazer que tem é o seu ponto de comparação. Lembro ainda que o prazer é eminentemente subjectivo, pelo que comparações entre duas pessoas diferentes não têm grande sentido. Isto não diminui em nada o carácter bárbaro desse acto. Cegar alguém à nascença também retira à pessoa a capacidade de saber o que perdeu, e não é por isso que esse acto seria mais aceitável. Também é perigoso ajuizar da felicidade de um cego e de um não cego. O ponto é simples: a excisão feminina é uma violação de um direito humano básico e só pode ter a nossa mais forte oposição.
Ponto 3. Apesar do ponto anterior, ou seja, apesar da mulher não poder comparar o prazer que tem com o que teria se não tivesse sido excisada, podemos dizer - tomando o ponto de vista de um observador exterior - que, na prática, para uma mulher excisada o preceito que diz as mulheres podem pedir o divórcio se não tiverem prazer suficiente tem menos valor. Mesmo que ela não saiba o que perdeu, podemos dizer (desse tal ponto de vista) que o menor grau de variabilidade (ou variância) do seu prazer sexual - resultante da sua menor capacidade de o ter - aumenta o poder negocial do marido. Como sempre, importa não olhar apenas ao que diz a lei, mas ao que efectivamente resulta dela e das práticas sociais onde ela existe.
Ponto 4. A tradição da excisão é anterior ao Islão e nem todos os países onde ele é prevalecente a tiveram ou têm hoje como prática comum. Por exemplo, Arábia Saudita, Irão, Iraque, Líbia, Marrocos, Tunísia, Algéria não têm essa prática. Daqui resultam duas coisas. Primeiro, sugerir que existe causalidade entre o Islão e esta prática não é aceitável. Segundo, e uma vez que o ‘overlap’ não é nem nunca foi total, há muito menos força na (possível) tese de que a ”preocupação pelo prazer sexual que a mulher” que consta no Corão é (totalmente) hipócrita.
Ponto 5. ler o que dizem a Shyznogud e o Cenas Obscenas sobre o assunto.
PS1: quanto à clitomania - e salvaguardando, naturalmente, que nestas coisas cada um sabe de si -, ocorre-me lembrar que há mais vida para além do dito.
PS2: long live Hirsi Ali!

4 Comments
September 16th, 2007 at 16:48
Tiago,
Ao ler o teu Ps1 cravaram-se-me aqui duas perguntitas que não me largam e cuja resposta desconheço. Vou deixá-las aqui, talvez alguém me saiba elucidar. (1) Como é o prazer anal nas mulheres excisadas? (2) Ou será motivo para morte por apedrejamento, essa coisa do sexo anal no feminino, nessas “sociedades” que mantém tal prática?
(psst, Tiago, as meninas já em pequeninas têm capacidade de sentir prazer sexual, basta que lhe permitam descobrir, saudavelmente, tal)
September 16th, 2007 at 16:48
Mas pode haver um ligação indirecta: o Islão autoriza a poligamia poliandrica. Tal origina escassez de mulheres, logo aumenta o seu valor, logo aumenta a tendência para querer aprisionar as mulheres (já que se trata de um activo valioso), logo estimula hábitos como a excisão.
September 16th, 2007 at 18:13
[…] pode viver este blogue, deixem-me acreditar que este comentário económico é bem-vindo. Disse aqui que mulher excisada não tem como comparar o prazer sexual que tem relativamente ao que poder… e que o prazer é eminentemente subjectivo. Podemos testar isto (estatisticamente)? Julgo que […]
September 16th, 2007 at 23:12
[…] que encobertamente, os regimes de Castro e de Chávez, não estamos a ser moralistas? Quando o Henrique Raposo se rebela, apaixonadamente e sem grande rigor, contra a excisão feminina, o que faz ele senão […]
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