Sunday, September 16th, 2007...18:13

Insights (orgasmos, melhor dizendo) económico-econométricos

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Como nem só de política (e desporto) pode viver este blogue, deixem-me acreditar que este comentário económico é bem-vindo. Disse aqui que uma mulher excisada não tem como comparar o prazer sexual que tem relativamente ao que poderia ter e que o prazer é eminentemente subjectivo. Mas será que podemos testar (estatisticamente) a hipótese de que a mulher excisada tem menos prazer vaginal do que poderia ter? Julgo que sim. Claro que a resposta “teórica” parece por demais óbvia, mas o ponto é mesmo sugerir uma resposta com base em dados estatísticos. (Noto ainda que não podemos dizer que o prazer total da mulher é menor se houver excisão. É um contexto diferente. Podemos apenas dizer que ela tem menos opções de escolha. E, claro, o ter menos opções de escolha é o corolário da razão pela qual nos opomos a esse acto bárbaro, que não tem a ver com argumentos hedonistas [de qualquer modo, quanto a mim difíceis de fundamentar], mas de respeito por direitos básicos).  

A excisão ocorre habitualmente em idades em que a vítima tem pouco ou nenhum prazer sexual. Isso faz com que a mulher excisada, já sexualmente desenvolvida, não tenha um ponto de comparação para aquilo que sente. O seu ponto de referência é aquilo que consegue alcançar e vivenciar. Mesmo assim, creio que podemos testar a hipótese que coloco em cima - saber se as mulheres excisadas têm, de facto, menos prazer vaginal do que teriam se não o tivessem sido. Uma forma de o fazer seria recolher amostras de grande dimensão de mulheres excisadas e de mulheres não excisadas inseridas numa mesma cultura e comparar a frequência do sexo anal em cada um desses dois grupos. Para que isto seja um bom indicador é preciso que todas as variáveis que possam influenciar essa diabólica inclinação estejam controladas

O facto de termos amostras grandes faz com que isso seja expectável, porque, uma vez que estamos numa mesma cultura, os potenciais efeitos de outras variáveis - como o rendimento - serão cancelados de parte a parte. Se, por exemplo (por hipótese), apenas as mulheres pobres forem excisadas, o teste só será duvidoso se acharmos que o rendimento, per si, influencia, dado tudo o resto, a apetência (repito que falamos de médias na população e não de inclinações individuais) para a prática do sexo anal. Ora isto é mais que duvidoso. Como sabemos, se há coisas que podemos tomar como dadas, pelo menos numa idade madura (falamos de MILFs e de mulheres na sua vizinhança, portanto), é que, na cama, o que se faz e o que não se faz é independente do nível de rendimento de cada um. Quem diz nível de rendimento diz tudo o resto (e, mais uma vez, porque estamos numa mesma cultura).

A minha hipótese - em certo sentido a minha tese (e sem tese não há teste para ninguém) - é que o sexo anal será mais frequente nas mulheres excisadas, porque estas substituirão sexo vaginal por sexo anal. Repare o leitor que para que isto aconteça não é necessário que elas conheçam ou sequer se preocupem com o prazer vaginal que teriam se não fossem excisadas. Assumindo a premissa - muito leve - de que buscamos mais prazer sexual (possivelmente com um ponto de saciedade, pelo menos com pontos de paragem para ir à box de vez em quando), segue-se que a mulher excisada tenderá, mais que as outras, a buscar prazer no sexo anal (repito que falo de médias populacionais). Para isto apenas precisamos de garantir mais uma coisa: que é possível alguma substitutabilidade entre os dois tipos de sexo, o que implica, admitindo que o sexo é feito com mútuo consentimento, que ambos os parceiros não excluam a possibilidade dessa prática. Claro que se o sexo anal não for mesmo uma escolha no menu do casal, o teste perde qualquer poder. Mesmo que os côdigos seguidos o proíbam, mesmo que existam muitas Patrícias Lanças nessas zonas, a minha inclinação é para tomar como hipótese que essa prática pode ter lugar. (I have never seen anyone whose moral power was as strong as his sexual desire, dizia Confúcio).

Suponho que haverá quem ache esta análise de mau gosto, uma forma de menosprezar o assunto principal nesta conversa, etc. Eu responderia que isso é apenas uma forma de censura intelectual. Na próxima edição da Atlântico apresento dois livros de dois famosos economistas que contém muitas provocações deste tipo. O economista é conhecido por pegar numa situação e analisar pontos que não são imediatamente óbvios e que suscitam as mais variadas - geralmente, irritadas - reacções. Quando a sede de dizer algo irreverente é muita, não raro ele apresenta conjecturas ou teorias irrelevantes ou que são absolutos disparates (geralmente porque as premissas são muito más, convenientemente - ou apenas cegamente - redutoras). Um economista é um tipo que diz coisas muitas vezes incómodas, e acreditem que  ter esta formação - tudo o resto constante, claro! - aumenta consideravalemente o custo de manutenção de amizades e conhecimentos. Not least porque os outros têm de gramar com este tipo de conversa de vez em quando.  

Dedico o post ao LA-C e termino com um insight do Miguel Madeira.

2 Comments

  • “Uma forma de o fazer seria recolher amostras de grande dimensão de mulheres excisadas e de mulheres não excisadas inseridas numa mesma cultura”

    Se umas foram excisadas e outras não, quer dizer que não estão verdadeiramente inseridas “numa mesma cultura”: umas foram educadas por educadores favoráveis à excisão e outras não (aliás, nem sei se haverá 2 seres humanos inseridos totalmente “numa mesma cultura”). E, atendendo à educação que tenham recebido dos respectivos educadores, até é perfeitamente possivel que as excisadas tenham mais preconceitos contra o sexo anal, logo o pratiquem menos.

  • Será difícil ter prazer quando se sofrem dores atrozes (há quem goste, mas seria irrelevante estatísticamente).

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