Tuesday, September 18th, 2007...23:24
Jornalismo português, a propósito do livro de Fernanda Câncio
Nem sempre gosto do que Fernanda Câncio escreve. Ainda bem para ela. Se Henrique Raposo gostasse sempre daquilo que Fernanda Câncio escreve, isso significaria que ela seria uma perigosa conservadora-liberal e não uma das melhores vozes que a nossa esquerda tem. E eu não lhe desejo essa sorte.
Mas gosto sempre da forma como Câncio escreve: até ao osso. Numa altura que tanto se fala de furacões, podemos dizer que Câncio é uma tempestade tropical nível cinco. Isto é ainda mais importante quando o nosso jornalismo está entregue a tipos que não conseguem levantar nem uma brisa. Em Até Não Perceber, percebemos que uma boa reportagem só pode ser feita por um implacável Dirty Harry. E, hoje, parece que os donos dos jornais preferem redacções cheias de pachorrentos Duartes (& Companhia).
Outra coisa. Tal como esse grande reaccionário que é Nelson Rodrigues, a nossa progressista critica os “idiotas da objectividade”, aqueles que acham que o jornalismo é uma «espécie de fotocópia da realidade, um relato objectivo e imparcial dos factos» (p. 12). Esse relato imparcial não existe. E não existirá enquanto os jornalistas forem homens e mulheres e não derivados do ADN de Comte. O que há são perspectivas. Aqueles que, à direita, se queixam do esquerdismo de Câncio deviam parar com as lamúrias e criar as condições para a existência de Câncios de direita. Câncio coloca uma perspectiva de esquerda nos seus textos. Nada de mais. A maior dos jornalistas é de esquerda. Câncio enerva mais do que os outros porque é boa.
Pergunto: “mas não há reportagem porquê?” Respondem-me: “é muito caro”. Porra. Há aqui qualquer coisa de idiota: os directores cortam na reportagem porque é cara. Os jornais perdem qualidade e, por arrastamento, leitores. Depois, para reconquistar os leitores, os directores gastam dinheiro em DVDs e demais bugigangas; o dinheiro que poderia ser usado em reportagens de qualidade in the first place.
Mas estas reportagens de Câncio têm sempre o mesmo sabor, digamos assim. Uma espécie de neorealismo cool, um relato dos problemas da urbanidade: violência policial, racismo, subúrbios, etc. Câncio, sendo de esquerda, tem obviamente um olhar social. É mesmo assim. Só que, para o leitor, este registo acaba por ser repetitivo. O que o estilo de Câncio anda a pedir são reportagens políticas. Câncio ganhava em equilibrar a sua sensibilidade social com uma preocupação institucional. Não estamos a falar de escândalos à Independente, mas de investigações e reportagens à Bob Woodworth. Denunciar o racismo policial é relevante. Mas é ainda mais relevante saber se é legítimo que um governo concentre todas as forças policiais nas mãos de uma única pessoa que, depois, irá despachar directamente com o governo. Por que razão ninguém investiga o caso Somague – PSD? Os jornalistas políticos em Portugal não questionam o regime; são, aliás, instrumentalizados pelo regime. Os jornalistas descreveram a saída de Rui Pereira do Tribunal Constitucional para o governo, quando deveriam ter questionado a própria legitimidade dessa movimentação. Os jornalistas descrevem o espanto dos ingleses perante a figura de “arguido”, mas nunca se questionam: será que o “arguido” faz sentido? A quem interessa a figura de “arguido”, ao que parece uma especificidade portuguesa? Que tal uma reportagem que compare a anormal relação entre poder político e tribunais em Portugal com aquilo que se passa nas democracias normais? Até porque isto anda mesmo a precisar de Watergate como de pão para a boca.
Portugal precisa de um jornalismo liberal à americana. Um jornalismo que deixe a sarjeta do social e que suba aos corredores do poder. O jornalismo que Clooney filmou naquele filme “boa noite, boa sorte”. O jornalismo político português é manso; esta mansidão é, aliás, uma das marcas da nossa fraca qualidade democrática. Dêem-me um país com eleições e um país com várias Câncios a fazer reportagem política e sem eleições, e eu escolha a segundo.


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