Thursday, September 20th, 2007...9:20

Lições da História

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Rui Ramos
[Público 19.09.07]

Todos julgamos que a história está cheia de lições. Talvez esteja. O problema é que não há meio de impedir que cada um tire as que mais lhe convêm. A razão é simples: mesmo entre historiadores, numa grande parte dos casos, não há consenso acerca do que realmente aconteceu. O passado, apesar de conhecermos a sequência, mantém-se por vezes tão indeterminado como o futuro. É o que sucede com a história das aventuras americanas no Vietname durante a década de 1960, muito lembradas a propósito da ocupação do Iraque. Para uns, passou-se isto: os EUA atolaram-se numa guerra que não podiam ganhar. Lição? Evitar envolvimentos militares maciços em subversões remotas. Para outros, porém, passou-se isto: os EUA estavam à beira de vencer, quando os derrotistas minaram o apoio doméstico ao esforço militar. Lição? As vitórias dependem da capacidade dos líderes para resistir ao pessimismo.

O actual governo americano distinguiu-se por não querer desaproveitar nenhuma das lições vietnamitas. Por um lado, manteve a intervenção a um nível mínimo, com uma “iraquização” precoce da guerra; por outro, exibiu teimosia. O resultado foi o impasse. E aqui, para grande espanto dos seus críticos, George Bush começou a falar do Vietname. Não havia razão para o espanto. A evacuação do Vietname, independentemente das suas razões, rebaixou os EUA como poucos outros percalços desde 1945. Ora, apesar das suas desavenças, nenhum dos grandes partidos americanos quer abdicar daquilo que o candidato Barack Obama, intoxicado pela memória de Kennedy, chama a “liderança do mundo”. Acontece que essa pretensão não é compatível com o vexame em que os jihadistas saberiam tornar a saída americana do Iraque. A partir daqui, o governo americano tem podido utilizar, como no judo, o peso dos seus críticos para os deitar ao chão. Ao profetizarem um fim caótico, como em Saigão, são estes que agora fornecem a melhor razão para continuar no Iraque. Daí o modo como os sequazes de Bush caricaturaram a saída inglesa de Basra, em Agosto, como uma debandada vergonhosa. A imprensa anti-guerra, ingenuamente, ajudou. Inicialmente citado para desencorajar a intervenção, o fantasma do Vietname serve agora para dissuadir a retirada.

A guerra não está a correr bem a ninguém: nem aos críticos, nem aos crentes.

A escalada militar em Bagdade e a aliança com os xeques sunitas de Anbar abriram, para os críticos, uma perspectiva de pesadelo. No fundo, os críticos não têm alternativa, a não ser esta: como a subversão não desiste, é melhor desistirmos nós. Mas a ideia era fazer com que fosse Bush a desistir, de modo a ficar com o ónus do desaire. Só que se o presidente conseguir inventar os “progressos” suficientes para extrair alguma tropa em boa ordem, a decisão sobejará para o presidente Democrata que os críticos esperam ajudar a eleger no fim do próximo ano. E eis a receita para uma presidência desastrosa: se continuar a guerra, o eventual presidente Democrata dividirá os seus seguidores; se abandonar, para alegria de Bin Laden, a derrota será dele.

Os crentes, no entanto, também não têm razões de celebração. A estratégia actual, em alternativa ao “consenso internacional” (eufemismo para entendimento com o Irão) recomendado pelo Iraq Study Group no ano passado, não resolve o problema maior, que no Iraque é o mesmo do Vietname: a incapacidade americana de, apesar das eleições de 2005 e do governo de unidade nacional de 2006, produzir um poder nativo suficientemente legítimo e estável para enfrentar, por si, a subversão da Al-Qaida, a intromissão do Irão e a concorrência violenta entre as milícias. A sabedoria convencional diz que só uma solução política pode criar segurança. No Iraque, neste momento, essa sabedoria está de pernas para o ar: confia-se em que os militares americanos arranjem a segurança suficiente para levar a uma solução politica, de preferência unitária e democrática.

A chave, segundo o general Petraeus explicou a semana passada, é paciência. Mas a paciência é um bem escasso nos EUA. A prioridade americana é trazer as tropas para casa. O objectivo da ocupação, desde o primeiro dia, foi o de criar condições para desocupar rapidamente e com honra. Compreensivelmente, as milícias e gangs locais estão mais interessadas em consolidar posições para a guerra civil que se seguirá à saída dos americanos do que em comprometerem-se com um simulacro de Estado democrático que só existe à sombra dos Black Hawk.

No meio disto, a história, ao ajudar toda a gente, não ajuda ninguém em particular. E um dia, no futuro, quando outros quiserem tirar as lições desta guerra do Iraque, poderemos estar certos de uma coisa: não ficarão mais sábios do que nós.

11 Comments

  • […] Lições da História. Por Rui Ramos. Todos julgamos que a história está cheia de lições. Talvez esteja. O problema é que não há meio de impedir que cada um tire as que mais lhe convêm. A razão é simples: mesmo entre historiadores, numa grande parte dos casos, não há consenso acerca do que realmente aconteceu. O passado, apesar de conhecermos a sequência, mantém-se por vezes tão indeterminado como o futuro. […]

  • Paciência. Isso é uma sabedoria Persa. Como na guerra dos gregos, com expedições desastrosas, enquanto os Persas aguardavam.

    O exemplo do vietname é infeliz. Todos os exemplo usando o Vietname o são.

    Pergunta-se, para quê a morte de pelo menos 1 a 2 M de vietnamitas. Para os salvar a eles próprios do comunismo?

    Depois de tantos anos é preciso ainda quase desejar que os EUA deviam ter empregue ainda mais força para assegurar uma vitória? Que vitória seria essa?

    No final, para “salvar a face dos EUA”? É isso que vale a vida das pessoas - a face do grande Estado Federal e dos seus estatistas?

    Afinal, a razão era a teoria do “dominó”. E por essa razão vai-se para o outro lado do mundo usar Napalm? O que percebe hoje é que o comunismo em todos os paises a descolonizar-se foi apenas um instrumento de galvanizar o sentimento nacionalista.

    E ainda tivemos o Cambodja (Principe deposto) que foi o resultado da confusão gerada pelo conflito (e os bombardeamentos secretos de Nixon)?

    E quem acaba a parar o genocídio no Cambodja acabam a ser os próprios vietnamitas comunistas.

    A história tem lições a tirar. Muitas.

    PS: Quanto ao Irão. Quem lhes deu estatuto foram todos que acreditaram (devo dizer, “acreditam”?) no “Iraque”. O Irão como vizinho tem muito mais autoridade para intervir em assuntos de uma nação instável ao seu lado, do que os EUA vindo do outro lado do mundo. Agora vão ter de o aturar, ou quem sabe, não aturar e matar mais 1 a 2M.

    Tudo pela “liberdade”. Ou pela “face”

  • As justificações nazi-sionistas dos holocaustos iraquiano e (eventualmente) iraniano são anómicas, asquerosas e imbecis. E racistas, dado que visivelmente não consideram 2 ou 3 milhões de “cabeças de pano” mortos iguais aos 3 mil do 9/11. É gente que não aprende, que reincide na estupidez assassina, fanáticos do antisemitismo e da islamofobia, gente perigosa que em 1945 teve o que merecia. Brasillach que o diga…

  • 8 lições de história da guerra do Iraque (há 30.000 destas estórias nos EUA…):

    http://www.hbo.com/aliveday/

    Porque não vai Rui Ramos dar o coirão para o Iraque ?

  • Paulo Pinto Mascarenhas
    September 21st, 2007 at 0:19

    Euroliberal, porque não vai o senhor dar esse coiro pela causa fundamentalista? É que fala e escreve tanto e com tanta coragem, ainda que não assine com o seu nome e o seu apelido, que até parece que poderia dar um guerreiro de Alá, daqueles que se atiram contra prédios ou põem bombas em comboios cheios de civis.

  • Os EUA estão à beira de um Armageddon económico ! o Dólar vai dar o berro ! A Arábia saudita acaba de suspender a ligação da sua moeda ao dólar e não acompanha a baixa das taxas de juro…

    Obrigado Bush ! Até 2009 ainda vais ter tempo de acabar de destruir os EUA, cumprindo os desígnios de Bin Laden… E não saias do Iraque, a factura já vai num trilião… Força Bush !

    http:// http://www.informationclearingho…rticle18428.htm

  • As “wars for iSSrael” (and for oil) estão a dar cabo dos EUA, militar e economicamnete. É o que acontece quando um país de 300 milhões de habitantes é feito refém por 2% da sua população, o lóbi nazi-sionista… e passa a prosseguir não os seus interesses nacionais, mas o de uma potência estrangeira..

    E depois com “amigos” como Rui Ramos, que gritam “avante” quando a camonada está á beira do abismo, os EUA já nem precisam de Bin Ladens…

    Enfim, a neo-coneiragem é tão inteligente como o seu maître à penser, o Macacão da Casa Branca… eles vão mesmo conseguir… Força !

  • Aqui acima um excelente e sábio comentário do CN, como é hábito, aliás. Um libertário à Ron Paul, que não é uma “maria-vai-com-as-outras” como os pseudo-liberais do putedo neo-coneiro…

  • Oops: o link correcto aqui (sobre o berro anunciado do dólar, coitado…) :

    http://www.informationclearinghouse.info/article18428.htm

  • chamada de atenção aos insurgentes: o comentador euroliberal não existe. Trata-se de um sistema automático de pesquisa do blogger, programado para disparar frases aleatórias insultuosas cada vez que aparecem palavras como “iraque”, “bush”, “americanos”, “israel”. A única solução para esta infecção será a eliminação de comentários com esta origem.

  • JPRibeiro é um troll. Nada diz nem sabe argumentar. Tem uma cassettte única: apela à censura de todos os que tém neurónios e que lhe desencadeiam insuportáveis dor de cotovelo… déem-lhe um desconto…

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