Saturday, September 22nd, 2007...11:21

Polimatias

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Há um entretenimento vulgar que consiste em aproveitar qualquer oportunidade para mostrar que George W. Bush – vulgo “o Bush” -  é “burro”. A coisa tem a vantagem óbvia, para quem a esse exercício se dedica, de, por distinção com o Presidente dos E.U.A., subir na consideração própria e, com um bocadito de sorte, na dos outros. O Tiago Mendes, cuja polimatia não cessa de me espantar (da ética desportiva à literatura portuguesa contemporânea, nada lhe é alheio), obviamente não resistiu à sedução do exercício, e, num post abaixo (“Bushismos”), lá meteu a colherada e ridicularizou Bush, pior que um homem de Neanderthal, por este ter supostamente dito que Mandela estava morto. É claro que se o Tiago Mendes – que, como não cessa de nos lembrar, é dado ao raro prodígio de saber inglês – tivesse visto aquilo de que falava, teria compreendido que Bush fazia uma consideração (muito pertinente, aliás) sobre a possibilidade da paz no Iraque. Mas, é claro, há atenções ao detalhe que são incompatíveis com a polimatia.

11 Comments

  • Paulo: que pena ter gasto esse seu cartucho com uma coisa tão inapropriada ao tema. Não percebeu que o meu comentário foi meramente anti-Bushista primário? Nunca perca essa capacidade de se espantar, sobretudo com o que não conhece.

  • Tiago,

    Vou conhecendo, mas confesso que fico espantado com o Tiago reconhecer candidamente que não lhe interessa se aquilo que diz corresponde aos factos ou não.

    Paulo Tunhas

  • Paulo,

    Not so fast. Na hermenêutica, por definição, não há “factos”. Leia o post que eu escrevi agora sobre o assunto.

    De qualquer modo, digo-lhe ainda que ser anti-Bushista primário - or, for that matter, ser primário no que quer que seja - não implica necessariamente um “desinteresse” pelos factos, apenas uma “inclinação” a certas interpretações sobre o que está em causa. Um bias, portanto. E, em certo sentido, não há nada de extraordinário em ter alguns bias.

    No fundo, qualquer conversa tem de ter por base certos “preconceitos” e isso, em certa medida, enviesa o pensamento da pessoa em causa - relativamente a um supostamente possível ponto “neutral” (que é impossível de ter na prática, mas não impossível de conceber, pelo menos para mim.)

    Isto não é o mesmo que defender primarismos, contra os quais me rebelo em geral (como o Paulo sabe). É, também aqui, contextualizá-los.

    Diz o Paulo que “vai conhecendo”. Suponho que sim. Não sei se haverá algum bias na sua opinião sobre que assuntos um (típico) economista fala ou deve falar.Se há, tenho a dizer-lheque é manifestamente justificado. Como apriorismo. Acredite, que certamente conheço mais economistas que o Paulo. Quanto ao resto, são as suas opiniões, muito estimáveis, nem sempre muito relevantes, como tantas outras.

  • Tiago,

    Essa de “na hermenêutica” não haver “factos” é daquelas que servem para tudo e mais alguma coisa. Há imensos factos, que o Tiago, de manhã à noite, interpreta como indubitáveis: ao atravessar a rua, por exemplo. A partezinha de verdade na tese está sujeita a múltiplas qualificações. Porque é que o Tiago não reconhece, pura e simplesmente, em vez dessa fuga para a frente, que aceitou sem mais uma informação em segunda mão, sem ter tido o cuidado de a verificar, porque ela lhe convinha, por uma razão ou outra? É mais simples, e evitam-se “teorias” - “estimáveis, nem sempre muito relevantes”, para falar como o Tiago - como as que sugere.

    Ah, mais um ponto. Não falo no blog sobre o Iraque? Não, é claro que não. O que há para dizer sobre a matéria, tirando uma ou outra banalidade da raxe, não é compatível com dez ou quinze linhas.

    Paulo Tunhas

  • sem querer bater no ceguinho tb acho que o Tiago é um bocadinho como o Nuno Rogeiro, sabe de tudo ;-) Abraços aos 2

  • ” Porque é que o Tiago não reconhece, pura e simplesmente, em vez dessa fuga para a frente, que aceitou sem mais uma informação em segunda mão, sem ter tido o cuidado de a verificar, porque ela lhe convinha, por uma razão ou outra?”

    Paulo,

    Mas não foi isso que fiz no post que escrevi há pouco?

    Isa,

    Sou opinativo por natureza. Mas não falo sobre muita coisa. Olhe, por exemplo, não me vê escrever sobre assuntos de política internacional (Sarkozy, Putin, Médio Oriente, etc). Tenho opiniões mas não as partilho. A especialização é cada vez maior e mais natural nos dias que correm, mas confesso que não faz as minhas delícias.

  • Tiago,

    Percebi mal, então. Desculpe. Um abraço para si e outro para a Isa.

  • “Essa de “na hermenêutica” não haver “factos” é daquelas que servem para tudo e mais alguma coisa.”

    No exercício hermenêutico aparecerão naturalmente factos no meio. Mas, por definição, o domínio do factual não é o domínio da hermenêutica. “2 + 2 = 4″, “eu e o Paulo estarmos aqui a conversar”, etc, não são objectos hermenêuticos no sentido próprio, exactamente por serem factuais. Era esse o sentido das minhas palavras. Onde há factos não há hermenêutica propriamente dita, mas naturalmente que onde ela há, nem tudo será subjectivo.

  • Paulo,

    Falava de um “erro compreensível (no contexto descrito), mas não desculpável”. Não sei se o seu erro é objectivamente compreensível, mas é certamente desculpável.

    Um abraço,

    (E outro à Isa)

  • Eu fiquei perplexo com a incapacidade de perceber uma simples analogia ou uma ideia complexa quando, e isto e importante, ela e apresentada de modo brusco, quando nao e preparada e introduzida como analogia. Foi um momento muito revelador nao do desprezo nutrido por Bush mas da incapacidade de pensar sem preparacao que esta, ao que parece, muito mais alastrada do que eu temia. E uma sociedade de rebanhos, disso nao pode haver duvidas.

  • […] que “prova” que “o Bush é burro”, até porque, como muito bem refere o Paulo Tunhas, a “coisa tem a vantagem óbvia, para quem a esse exercício se dedica, de, por distinção […]

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