Monday, October 8th, 2007...0:18

As ideias de Luís Filipe Menezes

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RUI RAMOS

Escutemos Mário Soares. No sábado passado, pediu-nos para não nos rirmos. E é preciso que a política portuguesa tenha chegado a um ponto baixo para que o riso seja a reacção mais previsível à eleição de Luís Filipe Menezes para presidente do PSD, no fim de um processo eleitoral que a sua candidatura sempre denunciou como fraudulento – até ao momento em que lhe deu a vitória. Muita gente, entretanto, já analisou o “estilo” de Menezes (a que o analiticamente correcto manda que se chame “populista”). Falta tratar das suas ideias – sim, das ideias.

É costume reduzir o PSD à dialéctica comezinha dos “notáveis”, sempre egoístas, e das “bases”, sempre espontâneas. Mas há nesta história mais do que isso. Depois de Cavaco Silva, os líderes do PSD viram-se perante dois caminhos possíveis: o caminho da autonomia da sociedade civil, em contraste com a esquerda; ou o caminho do paternalismo de Estado, em confusão com a esquerda. Nunca optaram, deixando o partido dividido, a marinar numa guerra civil, umas vezes exacerbada por zangas pessoais, outras vezes temperada pela comunhão de interesses privados. Ao eleger Menezes, o PSD escolheu finalmente um dos caminhos.

Menezes deixou claro por onde quer andar. Como explicou a 12 de Julho no seu blogue, atribuiu-se a si próprio a missão de “salvar” este Estado Social, exterminando em Portugal a heresia do “capitalismo selvagem”. Uns dias antes, fez-se fotografar à mesa com vários profissionais do antifascismo, em digestão colectiva desse santo propósito. Não há aqui novidade. Há mais de dez anos que Menezes recenseou os seus inimigos: “sulistas, elitistas e liberais”. Parece que fica agora bem dizer, com condescendência, que é uma frase antiga, de outra época. Mas encaixa nas últimas confissões programáticas de Menezes, e permite perceber uma admirável coerência. O caminho de Menezes é este: a confusão ideológica com a esquerda.

[Edição para o blogue da Atlântico
do artigo do “Público” de 04.10.07]

Menezes traz no bolso, por aviar, uma receita singela e indolor para todos os males da pátria. Mostrou-a no debate televisivo com Mendes. Consiste num grande programa de obras públicas acordado com uns quantos construtores civis. Menezes acredita no Estado como motor principal da economia, e único amparo da população. Perante um governo que pretende salvar Portugal distribuindo computadores, a sua contraproposta é expandir o betão. Para ele, o país é uma autarquia um pouco maior. Vê-se, no governo, como o presidente da Câmara Municipal de Portugal. Mais uma vez, o caminho é claro: o paternalismo de Estado em versão municipal.

A vitória de Menezes afunilou os horizontes ideológicos dos partidos portugueses: tirando o CDS, que optou por tudo sem optar por nada, todos perfilham agora o estatismo nas suas diversas variantes. O Estado Social tornou-se objecto de um monoteísmo que une neste momento Menezes, Louçã, Sousa e Sócrates – todos na mesma luta. Bem sei que estes últimos três apóstolos ressentirão a companhia do primeiro. Será uma injustiça. Porque Menezes tem todo o direito a ser aceite na igreja. O seu panegírico no YouTube exalta-o como “o construtor do futuro dos nossos filhos”. Eis a prova de uma mentalidade apropriada ao clero do Estado Social: a de alguém incapaz de imaginar que possa haver quem prefira que o futuro dos filhos seja obra dos próprios filhos, e não de um qualquer auto-proclamado “construtor”. Menezes vai funcionar assim, nos próximos tempos, como um indicador do ânimo nacional: um sucesso seu só poderia significar que os portugueses desistiram de qualquer esforço sério para prosperar através do trabalho competitivo numa economia mundial, conformando-se com o caldo das repartições e obras públicas.

Em suma, a eleição de Menezes marca o fim de quaisquer expectativas de que o PSD pudesse gerar e conduzir uma alternativa à dominação da esquerda e a este modelo social. Com estas ideias, Menezes não poderá fazer do PSD mais do que o livro de reclamações do Estado Social. Onde chegará, por tais caminho? É cedo para dizer. Mas pode bem acontecer que apenas sirva para deixar Sócrates, por contraste, parecer esclarecido e respeitável. E se por acaso o governo fechar menos maternidades, Menezes arrisca-se a ficar sem assunto – a não ser o da guerra interna do partido, que não lhe deverá faltar.

De resto, a eleição de Menezes teve esta vantagem: marcou os limites de uma certa maneira de fazer política. Marques Mendes perdeu quando a sua inocência ideológica o impediu de desmascarar o projecto de Menezes, deixando este surgir simplesmente como o candidato da insatisfação. Com Mendes, perderam todos aqueles que, no PSD, não apareceram e não deixaram que outros aparecessem. Segundo esses especialistas do “ciclo político”, exímios na gestão das ausências e meias tintas, “era cedo”. Afinal, era tarde. Mas lembremo-nos do conselho de Mário Soares: é melhor não nos rirmos.

[Rui Ramos]

5 Comments

  • O investimento publico e coisa que continua a ser o motor de todas as economias em rapido crescimento, com excepcao dos Estados Unidos. A diferencas entre este ultimo e Portugal sao tao abissais, tao extremas que eu nao recomendaria o modelo americano para Portugal. Rui Ramos devia estudar mais economia, comecando pela teoria do “Estado de desenvolvimento.”.

  • Uma vez que ele desconhece certamente a literatura, sugiro que comece pelo livro de Chalmers sobre o MITI japones.

  • Paula Nascimento
    October 8th, 2007 at 1:16

    O bw é ignorante, há pois é. O bw não sabe do que fala, ah, pois não.

  • O bw, refutado com argumento tao demolidor, retira-se envergonhado. Vamos la ter uma discussao economica seria sobre o que esta certo e errado neste texto do Rui Ramos, sff.

  • E isso inclui falar de geografia, de Krugman, de economias externas de escala, de Stigler e da economia da informacao. Agora dizer que o investimento publico nao promove o crescimento economico porque nao promoveu na velha Uniao Sovietica ou pirque se leu qualquer coisa de Hayek, que nao os escritos economicos, e que nao pode ser.

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