Monday, October 8th, 2007...19:39
Estupidez, não há outra palavra
No Público:
O Governo quer alargar de 1400 para dois mil o número de vagas em Medicina, anunciou hoje o ministro da Saúde, António Correia de Campos, sem avançar um prazo para atingir o objectivo.
O motivo é sempre o apocalíptico “há falta de médicos”, mas agora com a nuance que “o país não pode deixar fugir os seus melhores intelectos, os estudantes que frequentam o curso de Medicina em Espanha, muitos aqui ao lado na Galiza, ou algumas centenas na República Checa”.
A solução é mais do mesmo, a velha tradição política portuguesa. Nada de reformulação ou redistribuição. Não. A palavra-chave é criação. Inundar as faculdades com licenciados, esperando que o problema se resolva milagrosamente. Que as actuais faculdades estejam no limite parece ser um problema menor, dado que a tutela não se encarrega de tais trivialidades.
E depois há coisas fantásticas. Elogia-se a qualidade de um curso que educa no limite das suas capacidades, para anunciar o aumento de mais 600 vagas. E aposto que o sr. ministro deseja que a qualidade se mantenha. São demasiados milagres sr. ministro, mesmo para um país tão católico como nosso.

11 Comments
October 8th, 2007 at 20:16
O motivo é sempre o apocalíptico “não há falta de médicos”
Não haverá aí um “não” ou um “falta de” a mais?
October 8th, 2007 at 20:21
Miguel, obviamente tem toda a razão… Já estava a tentar alterar as mentalidades.
October 8th, 2007 at 21:23
Tem toda a razão: o Estado tem que finalmente assumir a sua função vital do século XXI, a função planificadora.
Quantas vagas se abrem anualmente nas universidades públicas para estudantes de Direito? Quantos licenciados estão desempregados?
O mesmo se aplica a praticamente todos os cursos de humanidades (só ponho as mãos no fogo nesta área, que conheço por dentro, calculando que noutras áreas o panorama será semelhante).
O sistema de numerus clausus vigente é completamente desajustado às necessidades prementes do País, quiçá porque reduzir números de vagas em cursos tão “populares”, como Direito, Comunicação Social, Sociologia, Filosofia, Línguas Modernas, etc. etc., não seja propriamente a medida mais “popular”… Isto não é um ataque ao governo de Sócrates, mas sim uma crítica a todos os governos que até agora tiveram medo de atacar o problema pela sua raiz.
October 9th, 2007 at 0:03
É assim: eu trabalho num hospital e parece ser difícil arranjar médicos (e, por isso, temos montes de médicos espanhóis e até um palestiniano). E quando se fala em tomar alguma medida que possa incomodar os médicos, a opinião geral é que “não se pode fazer, porque senão o hospital fica sem médicos”. Tudo isto parece indicar que há falta de médicos (ou, pelo menos, que há falta de médicos em Portimão).
October 9th, 2007 at 0:38
Também em Faro há falta de médicos.
Daí vermos tantos médicos (e anestesistas) espanhóis (e a maioria deles bastante antipáticos, arghhhh).
October 9th, 2007 at 2:02
A medida, face aos bloqueios existentes, é positiva mas o ideal seria deixar abrir novas faculdades de medicina e acabar com as fortíssimas barreiras à entrada no sector.
October 9th, 2007 at 2:47
Mais uma vez o efeito fole, ou concertina, caro Bruno. Alarga-se, ou encolhe-se, a boca do funil no aqui e no agora, sem planeamento a longo prazo.
Parece que Correia de Campos referiu, especificamente, o ano de 1986. De facto, desde o início dos anos 80 as vagas começaram a diminuir progressivamente, até ser atingido o mínimo nesse ano. Faço notar que estamos a falar da actual geração de médicos entre os 35 e os 45 anos, os estudantes de há 15/20 anos. Qualquer medida agora tomada, para além de apoiada numa quase ambliopia em termos de organização de serviços e de avaliação das necessidades – do SNS, entenda-se – não terá efeitos imediatos, já que está em causa uma licenciatura demorada e internatos da especialidade igualmente longos. Enfim, mais do mesmo.
October 9th, 2007 at 11:55
Miguel Madeira e Filipe Abrantes, não percebo os Vossos comentários. Vocês dizem que “há falta de médicos” mas depois dizem que há muitos médicos espanhóis. Ora, se há muitos médicos espanhóis, então, é evidente que não faltam médicos. Faltariam médicos se não houvesse excesso deles em Espanha, mas, como há excesso de médicos em Espanha, em Portugal eles também não faltam, nem faltarão.
Logo, o que Vital Moreira diz é um disparate. A solução para o problema não é abrir mais vagas em medicina. A solução é abrir as fronteiras, permitir a todos os espanhóis, palestinianos, ucranianos, e diabo-a-quatro, que exrçam livremente medicina em Portugal.
E isto é uma solução que funciona imediatamente, quase de uma ano para o outro - ao contrário da “solução” defendida por Vital Moreira, a qual, como a Ana bem lembra, só “funciona” no prazo de 10 ou 20 anos.
October 9th, 2007 at 14:58
[…] Relativamente ao aumento do número de vagas em Medicina, discordo do Bruno. […]
October 9th, 2007 at 15:56
O curso de medicina não pode ser diferente dos restantes curso de ensino superior. Não se pode refugiar nem rácio de médico/ utente para justificar um excesso de vagas para este tipo de curso. O número pode ser suficiente, eu duvido, mas este facto não pode condicionar o acesso das pessoas ao curso. Em caso de excesso o mercado funciona por si, filtrando os melhores, ficado os que tem menos competências sujeitos a outro tipo de funções ao mesmo desemprego, como na generalidade das profissões.
Para mim, é claro como água, que a medicina deveria ser liberalizada, podendo ser leccionada até por privados mediante requisitos de qualidade, permitindo pessoas com vocação (com notas mais baixas) aceder a esta licenciatura (na maioria com notas exageradas com pouquíssima vocação para este tipo de trabalho), melhorando os serviços prestados, ficando os utentes (clientes) a ganhar com esta selecção natural do mercado, retirando os maus prestadores de serviços (que são muitos !!!).
October 9th, 2007 at 18:17
Vejam uma coisa: se em 1998 entravam pouco mais de 500 e em 2007 entraram cerca de 1400, a diferença é brutal! Considerando que os que entraram em 1998 ainda são uns maçaricos no SNS (internos nos primeiros anos da especialidade, entenda-se), é óbvio que qualquer alteração só terá efeitos a médio e longo prazo. Sendo assim, o Luís Lavoura tem toda a razão.
Para além disso, a selecção pós-graduada em medicina consiste actualmente num exame da treta. Não há aqui mercado a funcionar nem nada remotamente semelhante. Imaginando que o funil será colocado aqui num futuro próximo devido às (in)capacidades de formação do SNS, eu diria que não será por aí que a qualidade dos clínicos melhora.
Há ainda a questão dos cursos: aumentar vagas e/ou criar novos cursos. Por experiência própria, a vasta maioria dos hospitais de referência deste país estão no limite da formação - a rebentar pelas costuras. Sinceramente não sei aonde é que o ministro tenciona que esses 2000 alunos aprendam clínica, porque em Portugal não deve ser de certeza. Antes que me ataquem de corporativista, a nível da minha carreira tanto me faz que entrem 500 ou 4000, mas interessa-me que o serviço de saúde seja bom e isso só é possível com médicos (e restantes membros das equipas) bem treinados.
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