Wednesday, October 10th, 2007...1:46

Corporativismo (3)

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Não acontece muitas vezes, mas neste caso concordo com praticamente tudo o que o Luís Lavoura escreveu nos seus comentários a este meu post:

[A] demonstração mais cabal de que faltam médicos em Portugal está nos altíssimos preços praticados nas consultas privadas de medicina. Os preços são tão altos que chegam a ser muito superiores aos praticados numa cidade, por exemplo, suíça. Apesar de, em média, os suíços ganharem bem mais do que os portugueses.

Se houvesse suficientes médicos (e menos corporativismo médico) em Portugal, certamente que uma ida de rotina ao dentista ou ao pediatra custaria menos do que o que custa em qualquer outro país europeu. Pois que a tecnologia disponível no consultório é a mesma, os valores das rendas são frequentemente muito inferiores, e os salários dos médicos não deveriam ser superiores.

A questão não é saber quantos médicos o Serviço Nacional de Saúde (SNS) vai absorver. O objetivo do SNS é dar saúde aos portugueses, não é dar emprego aos médicos. Se os médicos não encontrarem emprego no SNS, têm diversas soluções - empregarem-se em hospitais privados, exercerem clínica em consultórios privados, ou emigrarem. Isso será lá com eles, médicos. O SNS não tem nada que dar emprego a todos os médicos que se formem.

16 Comments

  • Penso exactamente o mesmo, mas não escrevi qualquer coisa nesse sentido porque tenho uma dúvida, que ainda ninguém me conseguiu resolver: licenciado o médico, pode este ir directamente para o privado ou tem, ainda assim, de andar integrado no sns até fazer a especialidade?

  • Ana Matos Pires
    October 10th, 2007 at 11:37

    A especialidade só pode ser feita num serviço público, Adolfo.

    Um abraço,
    ana

  • E um médico tem obrigatoriamente de se especializar não é, Ana?
    Ou seja, onde eu pretendo chegar é: é possível, no actual sistema, um médico licenciar-se e, enquanto médico, iniciar uma carreira exclusivamente na privada?
    abraço :)
    a.

  • Já agora, se não me engano cabe à OM decidir quais as quotas para cada especialidade, anualmente.

  • Não vejo muito bem onde quer o Adolfo chegar.

    É evidente que a formação de um médico praticante não consiste apenas na licenciatura. Isto é sabido. A formação em medicina é muito mais longa do que a formação noutra coisa qualquer, exigindo, primeiro uma licenciatura deveras longa (5 ou 6 anos penso eu), depois um estágio hospitalar, e outras coisas creio eu (a Ana que explique).

    É também evidente que deve haver alguma autoridade, público ou investida de poderes públicos, para garantir que a formação de um médico obedece a certos critérios. Isto pode passar por as faculdades de medicina serem públicas e por os estágios serem feitos em hospitais públicos, ou pode ser feito de outra forma.

    Seja como fôr, há um certo ponto a partir do qual o médico está formado e, a partir daí, o Estado não se deve responsabilizar por ele.

    É evidente que, no decorrer de uma parte da sua formação, o médico já é um indivíduo adulto e tem que ganhar dinheiro. Está em formação mas, ao mesmo tempo, já ganha salário. Isto nada tem de especial: os cientistas, em geral, são bolseiros, isto é, ganham algum dinheiro, enquanto se doutoram. O facto de um médico ganhar já algum dinheiro, seja através de uma bolsa, seja sob outra figura qualquer, enquanto conclui a sua formação, não significa que, no fim dessa formação, ele tenha emprego garantido.

  • Ana Matos Pires
    October 10th, 2007 at 13:13

    Em teoria sim… agora pergunte-me lá se eu conheço algum médico que não tenha optado por um Internato numa das três diferentes Carreiras Médicas - Hospitalar (com as diferentes especialidades hospitalares), Clínica Geral e Saúde Pública. E pergunte-me também se, conhecendo, eu seria consultada por ele.

    Vou contar-lhe uma história, Adolfo. Na altura em que acabei o curso, em 1988, o Internato Geral (IG) tinha a duração de 18 meses, mais seis de prolongamento, era feito após o fim da licenciatura e a entrada era automática, o que implicou que no dia 1 de Janeiro de 1989 todos nós, recém licenciados em Medicina, estivéssemos a iniciar o referido IG. Uma das minhas colegas de curso, tendo começado o IG pela valência de Medicina (existiam cinco valências - Medicina, Cirurgia, Obstetrícia, Pediatria e Clínica Geral - feitas rotativamente por todos nós ao longo do IC), foi escalada para uma urgência num grande hospital deste país, logo nesse primeiro dia. De repente surge um homem com um edema agudo do pulmão, uma emergência médica, portanto, ao que a rapariga, aflita, desata aos berros e diz “Sra. enfermeira, por favor, chame um médico!”

    :-) outro para si
    ana

    Ps: O vínculo institucional perde-se no final do Internato Complementar da Especialidade. Foi uma medida tomada, e bem do meu ponto de vista, pela Leonor Beleza e eu pertenço à leva inicial de srs. doutores sem vínculo definitivo à função pública, não tenho, portanto, conflito de interesses.

  • Ana Matos Pires
    October 10th, 2007 at 13:19

    Luís Lavoura, agora não posso, estou sem tempo, sorry, mas quando puder logo tento esclarecer aquilo que me for possível e souber.

    Miguel Noronha, a coisa não é assim tão linear. Compete à Ordem, com o avalo dos Colégios da Especialidade, aferir da idoneidade formativa dos serviços, isso sim.

    Cumprimentos,
    ana

  • […] P.S. Luís Lavoura tem uma opinião semelhante […]

  • Onde eu pretendo chegar Luís não é a uma discordância com aquilo que escreves, porque concordo. Tem mais que ver com conhecer exactamente como funciona o sistema para, depois, tentar ver por onde se devia começar a reformar o mesmo.

    Se todos os médicos têm de estar integrados inicialmente no SNS a pretexto da sua especialidade, e se essa especialidade só é atribuida no âmbito do SNS temos uma realidade que não se encaixa bem no teu post na parte em que dizes que se os médicos não encontrarem emprego no SNS, têm diversas soluções - empregarem-se em hospitais privados, exercerem clínica em consultórios privados, ou emigrarem.

    Emigrarem com certeza, também escrevi isso no aAdF. Mas irem para a privada já não, porque estes precisam da especialidade e esta de facto pode estar condicionada (mal..) à capacidade hospitalar de a proporcionar.

  • Talvez seja instrutivo, para o Adolfo, verificar aquilo que se passa na carreira de investigação científica, por exemplo em física.

    Um licenciado em física não está, nem de longe, apto a fazer investigação. Precisa primeiro de um período de especialização e aprendizagem, de uns 4 ou 5 anos, chamado “doutoramento”. Nesse período o indivíduo já é um profissional, que desenvolve algum, por vezes mesmo muito, trabalho útil. Mas é geralmente mal pago, por uma bolsa, isto é, nem sequer se trata de um emprego.

    Mesmo após o doutoramento, as esperanças do indivíduo arranjar um emprego definitivo em investigação são praticamente nulas. Terá que ainda penar muitos anos (4 a 10) em empregos temporários, ora num sítio ora noutro, genericamente chamados “pós-doutoramentos”. Nessa altura o indivíduo já será, geralmente, um trabalhador empregado - só que em empregos a prazo (geralmente de 2 anos cada).

    Contas feitas, só lá para os 35 anos de idade é que o indivíduo, se se tiver exibido até aí como um bom investigador, é que pode ter esperanças de que alguém lhe ofereça um emprego estável.

    Penso que seria razoável implementar um sistema semelhante para os médicos e, de facto, para muitas outras profissões que exigem um alto nível de especialização. Eu diria que um licenciado em medicina (com uma boa nota) receberia uma bolsa estatal para ficar alguns anos a especializar-se num hospital qualquer de idoneidade comprovada. Findos esses anos, entraria no mercado de trabalho, mas só receberia empregos temporários - ora num hospital ora noutro. Esses empregos serviriam para o médico ganhar experiência - a qual em medicina é uma coisa IMPORTANTÍSSIMA, mais importante do que qualquer aprendizagem - e se exibir como bom ou mau, e ser referenciado pelos médicos mais seniores. Após esses anos em empregos temporários, o médico alcançaria talvez um emprego definitivo num hospital.

  • Ana Matos Pires
    October 10th, 2007 at 15:26

    Só de passagem para partilhar um pensamento na forma de um pequeno comentário (o mesmo que acabei de deixar no AdF, Adolfo). Há aqui uma bizarria, digo eu. Tanto quanto julgo saber, a decisão sobre número de vagas a abrir, ou não, nas diferentes licenciaturas - e portanto em Medicina também - é do… Mariano Gago, e não do Correia de Campos, verdade?

  • Mas Luís, isso não criaria a dependência das vagas aos dinheiro disponível para bolsas? Não estaria o Estado, outra vez, com a faca e queijo na mão a dizer quantas vagas devem abrir?

  • […] do Sistema Nacional de Saúde para absorver mais médicos - reproduzo o que o Luís Lavoura escreveu: A questão não é saber quantos médicos o Serviço Nacional de Saúde (SNS) vai absorver. O […]

  • Adolfo,

    enquanto toda a formação de médicos tiver necessariamente que ser feita em hospitais do Estado, este terá sempre a faca e o queijo na mão, isto é, poderá restringir artificialmente o número de médicos formados.

    As bolsas para estudos (médicos ou outros) podem sempre ser concedidas pelas próprias universidades, ou então por instituições privadas. Muitas universidades oferecem empregos que permitem aos seus estudantes de doutoramento (sobre)viver durante os seus estudos. Não há razão para que um hospital universitário não faça o mesmo. Aliás, um médico em especialização já realiza trabalho útil ao hospital, pelo que é justo e normal que este o pague.

    Não é fácil, por outro lado, ter escolas completamente privadas de medicina. Isto porque um médico, para se formar, precisa de ser exposto a muitos casos clínicos muito diversos - não pode limitar-se a tratar gripes. Isto só é possível se a faculdade de medicina estiver de alguma forma ligada a um hospital central - o hospital de último recurso para alguns milhões de pessoas. Esses hospitais são todos, em Portugal, controlados pelo Estado. Uma faculdade de medicina não pode treinar os seus estudantes num hospital de província nem numa pequena clínica privada, pois que aí só entram casos relativamente fáceis de tratar e/ou com pequena variedade. Assim, públicas ou privadas, as escolas de medicina, no nosso sistema, acabarão sempre por estar muito controladas pelo Estado em termos de número de estudantes que podem aceitar.

  • Ana Matos Pires
    October 10th, 2007 at 20:43

    Sobre o anúncio do aumento de vagas em Medicina feito por Correia de Campos…

    1) Quem deveria falar sobre vagas nas Faculdades de Medicina era Mariano Gago, e não Correia de Campos, verdade?

    2) Não me parece errado aumentar o número de vagas, parece-me é desajustado que isso se faça mantendo a técnica do fole, ou concertina, como preferirem - alarga-se, ou encolhe-se, a boca do funil no aqui e no agora, sem planeamento a longo prazo.

    Parece que Correia de Campos referiu, especificamente, o ano de 1986. De facto, desde o início dos anos 80 as vagas em Medicina começaram a diminuir progressivamente, até ser atingido o mínimo nesse ano. Faço notar que estamos a falar da actual geração de médicos entre os 35 e os 45 anos, os estudantes de há 15/20 anos. Qualquer medida agora tomada, para além de apoiada numa quase ambliopia em termos de organização de serviços e de avaliação das necessidades – do SNS, entenda-se – não terá efeitos imediatos, já que está em causa uma licenciatura demorada e internatos da especialidade igualmente longos.

    3) Sobre as necessidades…
    Em Janeiro de 2006 a Associação Portuguesa de Engenharia da Saúde (APES) e a Associação dos Médicos Gestores de Unidades de Saúde (AMGUS), organizou uma Encontro sobre “Recursos Humanos em Saúde” – Escassez ou Excesso?, cuja primeira sessão esteve a cargo do Dr. Manuel Delgado, na sua qualidade de Presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares e do Conselho de Administração do Hospital Pulido Valente. Parece-me um bom ponto de partida para a discussão. Transcrevo um pequeno excerto.

    “A finalizar, o Dr. Manuel Delgado salientou que existe uma clara falta de planeamento na formação e distribuição dos profissionais de Saúde, um excesso de médicos nos hospitais, com baixa produtividade, clara falta de incentivos e de modelos remuneratórios adequados e risco de “hiperespecialização”, um impacto contraproducente das Urgências no funcionamento dos hospitais, um excesso de concentração de horários programados nas manhãs, um uso inapropriado das horas extraordinárias como incentivo, falta de liderança e falta de organização”… continuar a ler aqui:
    http://www.omcentro.com/medicom/actualidade_dentro.asp?id=107

    4) O rácio médicos/100 000 habitantes é mais alto que a média europeia, de facto, mas chamo a atenção para o facto desta contabilidade se fazer, actualmente, à custa de anos em que o número de entradas em Medicina atingiam ordens de grandeza que nada têm a ver com as actuais. Lembro-me dos comentários de colegas com mais 10 anos que eu, do tipo “no meu ano deveríamos ser para aí uns mil, só no meu curso”… estamos a falar de meados dos anos setenta, dos médicos que actualmente têm entre 50 e 55 anos, ainda no activo, portanto.

    5) Duas questões que me parecem importantes - Correia de Campos referia-se a uma eventual carência de médicos no SNS? Que SNS?

    Fica a faltar a conversa sobre formação, dinheiros e corporativismo…

    Ps1: Explicação telegráfica dos títulos e graus…

    I. Curso de Medicina: Médico

    II. Exame nacional de acesso ao Internato Complementar (IC) numa das três áreas médicas - Hospitalar, Clínica Geral ou Saúde Pública. No final do IC, após exame final, de seu nome Exame Final do Internato Complementar e de Titulação Única pela Ordem dos Médicos, obtém-se o título de Especialista pela OM, e especialista em:
    1. especialidade X nas especialidades Hospitalares (Psiquiatria, p ex)
    2. Clínica Geral (Medicina Geral e Familiar)
    3. Saúde Pública

    O IC só pode ser realizado num hospital público
    Há Perda de vínculo contratual no final do Internato (o médico deixa de estar no SNS)
    Final do IC: Médico com título de Especialista (Médico Psiquiatra, ou Psiquiatra, p ex)

    III. O médico especialista “vai à vida dele”, sendo que uma das possibilidades é o ingresso, ou reingresso, se preferirem, no SNS, ié, o ingresso nas Carreiras Médicas - Hospitalar, Clínica Geral ou Saúde Pública. Tal ingresso faz-se por via de concurso público anunciado no DR, ao qual só podem concorrer médicos especialistas, e permite a obtenção de graus da carreira médica – Assistente Hospitalar e Chefe de Serviço no caso da Carreira Hospitalar

    O ingresso no SNS, ié, nas Carreiras Médicas Hospitalar, de Clínica Geral ou de Saúde Pública não está garantido, e bem do meu ponto de vista, a todos os especialistas.
    A progressão na carreira faz-se por via de concurso público, actualmente por prova curricular.

    IV. O título de Consultor pode ser obtido por qq especialista com especialidade terminada há, pelo menos, 5 anos e que pertença ao SNS

    Ps2: Tabuletas na Privada…
    1. Médico
    2. Médico Interno do Internato Complementar de (Psiquiatria, p. ex)
    3. Médico Especialista (Psiquiatra, p ex)
    4. Médico Especialista (Psiquiatra, p ex.) e Assistente Hospitalar (ou Chefe de Serviço) de (Psiquiatria) do Hospital X (HSM, p ex.)
    5. Qualquer dos anteriores e Mestre (se fez mestrado) ou Professor (se fez doutoramento).

  • Tanto disparate junto é dificil de encontrar!
    Só pela rama, para os aspectos mais chocantes da falta de conhecimento das coisas que se discutem, vou salientar dois pontos:
    A formação de um médico é continua, vitalicia e bidireccional.
    Ensina-se os mais novos e aprende-se com os mais velhos de forma continuada ao longo da carreira.
    Só assim é possivel a cada médico acompanhar a evolução das coisas e garantir ao doente que está a ser bem tratado hoje E que os seus filhos serão bem tratados amanhã.
    Cortem este fluxo continuo de formação e dentro de alguns anos pode haver muitos médicos, todos privados, muitos a ganhar mal, mas genericamente muito ignorantes!
    Deve dar gozo a muitos de outras formações que se corte a “mama” aos médicos ao fim de um periodo de formação razoavel — 5 anos? — mas quem vai formar como bons medicos os jovens licenciados que vão iniciar a vida hospitalar daqui a 10 anos?
    Vamos voltar aos anos 50 em que um bom cirurgião não ensinava os truques para não perder clientela… Será esta a saúde que querem para daqui a uns anitos?

    Depois a questão da Ordem e do corporativismo…
    A Ordem é para defender os doentes e não os médicos! A Ordem garante que quem está habilitado é bom e não charlatão. Só os pares podem ter esta noção e fazer esta separação.
    O mal da Ordem é estar anacrónica.
    Os procedimentos vêm do tempo em que uma vez avaliada a qualidade se podia pressupor que ela se manteria ao longo da vida activa do médico porque a ciência não mudava rapidamente.
    Hoje em dia isso é um gritante disparate… Mas tem desculpa!
    A Ordem encostou-se — e bem — ao SNS como grande escola de formação e validação contínua.
    A destruição do SNS é relativamente recente e ainda não houve tempo para se adaptar à nova realidade de médicos que estão entregues a si mesmos anos a fio enquanto a medicina muda brutalmente.
    Mas a população vai pagar esta factura com o corpito e algumas vezes com a vida…
    Esperemos que haja algum juizo remanescente e alguem trave este disparate! Depressa!

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