Thursday, October 11th, 2007...2:08

História Viva

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Rui Ramos

Aproveitaram o 5 de Outubro? Foram à praia ou ao centro comercial? Ficaram em casa? Ainda bem. Porque o repouso no primeiro feriado de Outono vai chegar ao fim. Ou pelo menos, parece. Este ano, a rotina manteve-se: o Presidente rogou a ritual praga cívica contra a corrupção, e os jornais fizeram um eco aprovador. Daqui para a frente, porém, o 5 de Outubro ameaça mexer-se. Em 2010, a efeméride bate no centenário, e as autoridades já andam a fazer as encomendas necessárias para nos impor um feriado sem descanso.

A inspiração para o que aí vem parece derivar daquilo que se chama “história viva”. Sabem o que é? É uma adaptação escolar das velhas brincadeiras de “índios e cowboys”, em que se faz a criançada, fardada à época, reencenar um processo ou acontecimento. Não dispensa, claro, a devida aula explicativa. É que só o hábito não faz o monge, e as crianças nunca perceberiam o que foi um monge caso ficassem pelo passeio de burel num velho claustro. Não era apenas a roupa que era diferente: era o mundo e a maneira de o ver. Por isso, a história assenta no esforço, necessariamente erudito, para compreender a mudança, e evitar identificações anacrónicas. Nada disto, porém, parece ter comovido os reis da festa nas comemorações do centenário da república. Como se vê pelo relatório da comissão de projectos, disponível no Portal do Governo, quer-se “história viva” acima de tudo e contra tudo. Só que em vez de índios e cowboys, iremos brincar aos laicistas e aos clericais.

[Edição do autor para o blogue da Atlântico
de artigo do Público de ontem] 

Entre algumas coisas sensatas (como incentivos à investigação), a comissão propõe uma grande coisa insensata: pedir às autoridades e aos cidadãos que, durante uns tempos, façam de conta que estão a continuar a obra “inacabada” dos Republicanos de 1910. Para conceber este disparate, a comissão precisou de transformar esses nossos distantes avós de pêra e chapéu de coco naquilo que eles nunca foram. Atribuiu-lhes, por exemplo, a invenção da actual cidadania democrática, quando o que eles fizeram foi restringir o direito de voto que a monarquia alargara. Escondeu-lhes, por outro lado, a crença colonial, suficientemente acesa para Afonso Costa proclamar, perante o genocídio das populações do sul de Angola em 1915, que “não nos deixemos mover por idealismos”.

Ao lembrar isto, longe de mim pretender criticar a I República, como (segundo a comissão) só fazem os fascistas. Quero apenas sugerir que esse regime, tirando o pormenor de também já não ter um rei, se distancia do de hoje em coisas demasiado fundamentais para podermos admitir qualquer continuidade. Em relação à República de 1910, estamos como emigrantes que se deslocaram para outro continente há várias gerações: já nem a língua da terra de origem conseguimos falar. Devemos estudar esse outro país, porque algo do que somos veio dali, mas sem pretensões de lá voltar como credíveis filhos da terra.

Foi no entanto esta possibilidade de simularmos em conjunto uma viagem no tempo que entusiasmou a comissão.  Para isso, pôs projectos de hoje sob a égide do passado (como a recuperação da baixa de Lisboa), e mal resistiu a dar cobertura a um velho espírito de vigilância laicista, que lhe terá parecido o mais seguro bilhete de regresso ao antigamente.

Haverá gente ansiosa por reviver o passado? Ao contrário da república actual, a de 1910 era um regime onde um partido era dono do Estado, e os outros, quando muito, tolerados desde que em submissão. O partido-dono – o Partido Republicano Português – distinguia-se então pelo laicismo. Talvez por isso, sobeja hoje rapaziada para fazer de laicistas. Falta, porém, gente para fazer de clericais – indispensáveis para justificar a soberania dos primeiros. É o velho problema, se bem me lembro, dos índios e cowboys: ninguém queria fazer de índio. Daí o afã de vários batedores para obrigar os clericais a sair do mato. Assim se festejou o último referendo como o fim do catolicismo, ou se aplaudiram as dificuldades à assistência religiosa nos hospitais. Sem grande resultado. Há duas semanas, o bispo do Porto, aliás um excelente historiador, preveniu os católicos para não se deixarem “arrastar para uma querela ideológica” à boleia do centenário de 2010. Definitivamente, os clericais são uns desmancha-prazeres. Por isso, a comissão propõe uma pega de cernelha: comemorar 1910 com alterações ao código civil. Em Espanha, teve algum efeito.

Dirão que isto não importa. Mas importa evitar apropriações do actual regime através da manipulação da história. A comissão enfeitou-se com uma citação de Goethe: “o melhor que a história nos dá é suscitar o nosso entusiasmo”. Às vezes, é outra coisa: é compreender a insensatez de certos entusiasmos.

7 Comments

  • 1. Não é verdade que o direito de voto tenha sido restringido pela I República face ao que anteriormente se passava.

    2. É absoluta verdade que estamos a milhas do que era o regime da República positivista. E ainda bem.

  • Excelente. Há quem precise de lições de História em Portugal. Parabéns.

  • Os mitos baseados em mentiras acabam sempre por cair, só varia o tempo que decorre até que tal aconteça.

    Se compararmos o Portugal de 1910 com o de 1926 não encontramos nenhum indicador em que se tenha melhorado. E a questão não está em Portugal ter sido nesse período uma República. A questão é que aqueles que dominaram o país nesses 15 anos não tinham qualidade humana ou política para governar nada que não fosse um manicómio. E Portugal transformou-se num pa
    is manicómio.

  • Sim, a I República restringiu o direito de voto. O universo eleitoral era em 1890 de 900 mil eleitores numa população de 5,5 milhões. Em 1911, era de 400 mil em 6 milhões. A República retirou o direito de voto aos analfabetos, que podiam votar na monarquia se fossem chefes de família e preenchessem os critérios censitários. Numa primeira fase, retirou também o direito de voto aos militares (para o voltar a conceder depois, subindo o número de eleitores para 450 mil). E nunca concedeu o voto às mulheres. Há coisas das quais só se devia falar com algum conhecimento da matéria.

  • […] História Viva. Por Rui Ramos. Haverá gente ansiosa por reviver o passado? Ao contrário da república actual, a de 1910 era um regime onde um partido era dono do Estado, e os outros, quando muito, tolerados desde que em submissão. O partido-dono – o Partido Republicano Português – distinguia-se então pelo laicismo. Talvez por isso, sobeja hoje rapaziada para fazer de laicistas. Falta, porém, gente para fazer de clericais – indispensáveis para justificar a soberania dos primeiros. É o velho problema, se bem me lembro, dos índios e cowboys: ninguém queria fazer de índio. Daí o afã de vários batedores para obrigar os clericais a sair do mato. Assim se festejou o último referendo como o fim do catolicismo, ou se aplaudiram as dificuldades à assistência religiosa nos hospitais. Sem grande resultado. Há duas semanas, o bispo do Porto, aliás um excelente historiador, preveniu os católicos para não se deixarem “arrastar para uma querela ideológica” à boleia do centenário de 2010. Definitivamente, os clericais são uns desmancha-prazeres. Por isso, a comissão propõe uma pega de cernelha: comemorar 1910 com alterações ao código civil. Em Espanha, teve algum efeito. […]

  • Paulo Pinto Mascarenhas
    October 12th, 2007 at 19:22

    Mais uma vez o Euroliberal tem um comentário apagado por ser insultuoso e ordinário. Escusava.

  • Nuno A. G. Bandeira
    October 12th, 2007 at 20:16

    Uma pequena correcção. O Partido Republicano fraccionou-se em 1912 para formar vários partidos republicanos de diversas correntes: O Partido Evolucionista (António José de Almeida), partido democrático (Afonso Costa) e União Republicana (Brito Camacho). Logo não houve propriamente partido único como se leva a compreender.
    Eram, no entanto, obrigatoriamente republicanos.

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