Wednesday, October 17th, 2007...18:16

Hoje no Diário Económico

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Os encantos de Che“, texto arquivado aqui.

COSTUMO apreciar e bastantes vezes até concordar com o que escreve Ricardo Costa neste jornal. Qual não foi o meu espanto quando na sexta-feira passada o vejo testemunhar que tem e veste orgulhosamente uma camisola de Che Guevara. Diz o director da SIC Notícias que Che foi um “bandido e criminoso”, mas teve “a rebeldia e o romantismo como poucos têm”. Isso e outros ingredientes – “a época, o pioneirismo, a juventude” – “fazem dele um ícone único e fantástico”, e isso faz Ricardo Costa ter uma camisola do Che. Procurando apoiar a sua paixão com uma referência autorizada, o jornalista menciona o cartaz do Financial Times em que Branson é retratado por cima da cara de Che, oferecendo uma interpretação que, com o devido respeito, não tem qualquer sentido.

Não estamos perante um branqueamento. Antes estivéssemos. Quando ouvimos Fidel ou Chávez ou Jerónimo a tecer loas a Che, não ligamos demasiado. Sabemos que a cegueira da religião do comunismo ainda sobrevive. Contudo, quando alguém que vemos como um espírito liberal opta por estes relativismos, instala-se um certo desespero. Não pela pessoa em si, entenda-se, mas pelo que isso sugere sobre o que será o pensamento do português mediano.

Quem negará que o 11/9 foi um acto “espectacular”, obra de uma “mente brilhante”, que fez de Bin Laden um “ícone” para muitas pessoas? Quem questionará que Hitler tinha uma grande “rebeldia” e um enorme “pioneirismo”? O que importa isso senão para reforçar a luta contra os seus seguidores?

Hitler e Che não são equiparáveis. Hitler aniquilou, de forma planeada, todos os que a sua “solução final” exigia aniquilar. Che abateu, de forma ‘ad-hoc’, todos os que se foram tornando um obstáculo à sua romântica utopia. O que fizeram tem graus obviamente incomparáveis. Mas eles partilham – e é essencial acentuar isso – o desprezo pela vida humana e a disponibilidade para recorrer a qualquer meio para fazer vingar o mundo totalitário com que sonhavam.

A ideia de que os mortos do comunismo não são um corolário desse ideal mas um resultado da “impureza” dos homens é inaceitável em 2007. As consequências das acções de assassinos políticos têm de importar mais do que a sua estética e as suas intenções. De sedutores e de boas intenções está o inferno cheio.

8 Comments

  • “pelo que isso sugere sobre o que será o pensamento do português mediano”

    O português mediano não pensa absolutamente nada sobre “Che” Guevara. Aliás, nem sabe quem ele foi.

  • “O português mediano não pensa absolutamente nada sobre “Che” Guevara.”

    Nao seja tao literal, Luis. Nao me importa o que pensa o portugues exactamente mediano, ou sequer se todos ou muitos portugueses tem uma opiniao muito concreta sobre Che. Importa-me a “popularidade” concreta que Che tem em Portugal e a popularidade concreta que ideias proximas das de Che tem.

  • Tiago,
    Li o teu texto hoje de manhã, e gostei muito.
    Parabéns,
    Ab.
    RAF

  • Equiparar em maldade e mundos ditatoriais , Che Guevara a Hitler é um atentado à inteligência de qualquer um.

    Hoje faz falta um Che Guevara.

  • Caro Jose’,

    Mas percebeu que eu “nao” fiz essa equiparacao, certo? Nem acho que ninguem a tenha feito, veja la’ essa concepcao.

    Rodrigo, muito obrigado e um abraco,

  • As incongruências de RC! Enfim, como é que se pode granjear desta forma, a credibilidade desejada, (que lhe deveria ser inerente, pelo cargo que ocupa), sendo a pessoa em questão, uma figura pública. Gostei do texto de TM… Muito. Quanto aos encantos do Che, ficariam - quanto a mim - pela sua fotogenia, porém, quem vê caras não vê corações. Muito para além das ideologias e causas, existe o conceito de humanismo que nos deveria nortear, pois os meios nunca justificam os fins - na minha humilde opinião, assim como, na minha escala de valores.

  • Vejam este documentário legendado em Português sobre Che Guevara:

    http://veja.abril.uol.com.br/videos/che/parte1.shtml?CtrlMidia=15&CodMid=23932&SeqMid=3

    Abraços

  • Boa indicação, caro Pedro Machado. O documentário é muito ilucidativo.

    Sobre o senhor Ricardo Costa, penso que esta não é a sua única contradição. Nesta matéria, é useiro e vezeiro.

    Contudo, a contradição não seria relevante caso se trata-se de um simples português, e não do director de informação de um dos principais orgãos de comunicação do país.

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