Wednesday, October 24th, 2007...1:39

O Homem da Margem

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Mas a vida continua

Jorge Madeira [também conhecido por maradona]

Há uma razão para eu não conseguir estar quieto e sossegado numa sala de cinema. Gosto muito de talvez duas dezenas de filmes, mas a coisa morre por aí. Só prementes razões de cariz social e comunitário me levam a comparecer em frente de uma tela ou de um ecrã em relativa paz de espírito.

Comecei a ver cinema quando entrei na faculdade. Num belíssimo e chuvoso início de tarde de 1992 (ou 1993), encontrava-me num dos antigos vagões do Metropolitano, quando caí em mim e reparei que tudo aquilo, apesar do atrito e do lixo, se dirigia com enorme consistência e comigo lá dentro para a Cidade Universitária, o meu eventual destino. Entrei em depressão, e depois em pânico.

Por alturas do Saldanha já os suores frios, provocados pela antevisão dos microscópios que me esperavam no fim da linha, ensopavam e colavam a roupa ao meu corpo gordo e musculado. Num arrojo, decidi agir: recalquei os meus deveres escolares, e no último momento saltei para fora da carruagem evitando ao milímetro as portas guilhotina. Tinha decidido ir ver um filme. Em bom rigor esse foi o meu primeiro filme. Entrei no Monumental, comprei o bilhete, e sentei-me. Uma hora e vinte minutos depois saí e fui para casa. Nascera um frustrado.

[Coluna da edição da Atlântico de Agosto]

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É verdade que contra a aula de petrografia que nesse momento decorria (apesar da minha ausência) no fim da Avenida da República qualquer desarticulado que me pusessem em frente aos olhos passaria por uma obra-prima de inefáveis dimensões e transcendência. Mas, nessa tarde de 1992 ou 1993, calhou-me em sorte o E a Vida Continua (Abbas Kiarostami), o único filme de que gosto realmente.

Também há o Some Came Running (Minnelli), os Bruces Willis todos e o À Flor do Mar (João César Monteiro), mas o E a Vida Continua, para além de uma cena hilariante sobre o Itália 90 que me tocou, tem a irremovível carga emocional de ter cimentado definitivamente a minha carreira de aluno medíocre (muito embora a mesma se tenha iniciado em 1979, na primeira classe), e, por essa via, a minha vida tal como ela infelizmente é.

A partir daí comecei a ir muito aos filmes. Sedimentologia, Cartografia, Mineralogia, e mesmo Geologia de Campo II, serviam de argumento para ir ver filmes. Filme daqui filme dali, e uma pessoa é obrigada a começar a ler umas coisas, até porque era necessário ocupar o tempo da aula de petrologia metamórfica prática (onde havia limite de faltas) com alguma coisa.

Apesar deste auspicioso começo, a minha aventura com o cinema durou ano e meio, dois anos no máximo. Lia, com avidez sempre esforçada, os nossos críticos e o João Bénard; cheguei a ir frequentemente à Cinemateca, apesar de hoje negar o facto. Mas um dia alguém me fez encalhar no Debaixo do Vulcão, do Malcolm Lowry, e imediatamente vi que a minha onda não era nada cinematográfica.

Não sei como é com as outras pessoas, mas há um lado no cinema que me distrai daquilo que me preocupa, ou seja, daquilo que me interessa. Olho para qualquer filme e não há buraco onde possa colocar a imaginação e a vontade, e por isso não páro quieto na cadeira. Tudo aquilo é aquilo e dali não se consegue sair.

Por isso, só quando acontece uma grande coincidência entre a minha vida e o cinema é que o cinema existe para mim. Um sinal evidente de que não compreendo o que se está a passar.

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