Wednesday, October 24th, 2007...14:28

Reconhecer um erro grave

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Há quem seja obcecado por vírgulas mal colocadas e há quem seja obcecado pela razoabilidade de um número atirado para o ar. No último grupo incluem-se os tipos do “power point” que suscitam desprezo e inveja por aí. Como é um destes mafiosos engravatados sugeriria, assim de repente, uma estimativa para a percentagem da remuneração da administração do maior banco português? Não andaria longe do seguinte exercício “back of the envelope”, com números redondos: 10 mil trabalhadores a receber em média (bónus incluídos) 20 mil euros por ano; 10 administradores a receber (bónus incluídos) 1 milhão de euros por ano; ou seja, 10 milhões num total de 210 milhões: uma percentagem de cerca de 5%, portanto. Como cenarização - e tendo em conta que é natural que os administradores se apropriem mais do que proporcionalmente das rendas económicas geradas pelo banco, a percentagem poderia subir facilmente para 10% (ou até 15%, dificilmente mais do que isso), sendo uma percentagem inferior a 5% pouco provável neste tipo de negócio.

Se pensarmos no caso do BCP, e sem conhecer (como eu não  conheço) exactamente os seus números, na pior das hipóteses (para o lado dos trabalhadores) teríamos 5  mil deles a receber em média 10 mil euros por ano, perfazendo um total de 50 milhões de euros. Para que a remuneração dos administradores fosse 90% do total, estes teriam de receber conjuntamente 450 milhões de euros. Se existissem 30 administradores - uma brutalidade -, cada um teria de receber em média 15 milhões de euro por ano, o que seria uma estimativa absurda, tendo em conta que é uma média para um grupo de trinta altos dirigentes de uma empresa. (Se fosse para um - o CEO - seria uma estimativa aceitável. Note-se que não há aqui qualquer juízo normativo).

Ou seja: Rui Tavares foi, no mínimo, bastante descuidado ao publicar um número que levaria qualquer um a pensar duas vezes (mesmo sabendo-se, como se sabe, que os administradores do BCP são muito bem pagos). Leia-se este post de André Azevedo Alves. O essencial da mensagem do artigo de Rui Tavares não sai - apesar da disparidade dos números - muito afectado. Mas o número ficou na cabeça dos leitores e se o erro, por si só, justificava um reparo, a ênfase nele colocada torna essa rectificação ainda mais obrigatória.

Não subscrevo o André relativamente aos comentários de teor ideológico e menos ainda quanto ao jornal em causa. O erro é exclusivamente imputável ao colunista (um dos melhores da nossa praça, o que, para o caso, importa apenas por acrescenter gravidade ao erro cometido, seja por falta de cuidado ou por insensibilidade para com os números). O Público tem pouco que ver com isso. Se o erro constasse de um texto escrito por um jornalista da casa, aí sim, seria grave para um jornal (incontornavelmente) de referência do nosso país.

11 Comments

  • O que quer dizer conornável? É o que eu estou a pensar? Tiago és um badalhoco!
    Quanto ao resto, de acordo. O Rui Tavares é uma dos nossos melhores colunistas, parece regressado à forma de há uns meses e cometeu um erro que não é imperdoável, mas que merece ser corrigido num próximo artigo.

  • Incontornavel, meu caro! Acho que estava “inconornavel” - o contrario do que tu disseste, e que me parece, assim de repente, um tanto ou quanto menos coiso e tal (essas palavras feias nao cabem aqui, pa’).

  • Vocês lêem o que escreve o Rui Tavares? Andam com muito tempo livre…

  • RAF,
    Não perco. É, definitivamente, um dos nossos melhores colunistas. Perdeu um pouco quando passou a escrever naquele Ping-Pong com a Helena Matos, mas melhorou depois de Agosto.
    Muito bom, mesmo. Se não o lês devias começar a ler. Também tem tido debates muito bons com o joão Miranda no blasfémias.

  • Rui Tavares e Tiago Mendes são actualmente os dois melhores colunistas portugueses.
    MST e VPV também já o foram.

    Os facciosos tipo RAF jamais poderão perceber estas coisas.

  • RAF,

    Surpreende-me o teu comentario. O Rui Tavares, com quem muitas vezes discordo, e’ um dos melhores pensadores e colunistas da nossa praca. (So’ o leio, nao o vejo no dueto semanal com o Pedro Lombra). O pingue/pongue nao era para ele, voltou a melhorar desde o Verao.

    Jazzanova,

    Agradeco a nota simpatica, mas o exagero e’ grande… sei bem onde nao estou.

  • Na série logo o Rui Tavares, de quem eu gosto tanto….

    Para números destes, o cronista devia ter verificado o número exacto. É uma conta simples, baseada em informação pública. Para isso é que serve o google.

    (Se fosse num jornal a sério, um fact-checker teria apanhado isto e dado um puxão de orelhas ao Rui Tavares).

  • Não sei se os leitores fazem a total distinção entre os factos publicados no jornal e os “factos” citados pelos colunistas. O NY Times teve problemas com isto…

  • Caríssimos:

    Agradeço, sinceramente, a preocupação. Como imaginam, não inventei os dados. Aqui fica a fonte utilizada, tal como deixei em comentário ao André Azevedo Alves. Não vi correcção a este dado na altura, nem desmentido.

    Obrigado pelos elogios, por alguma razão são mais saborosos quando vêm de gente que não concorda connosco. Como se diz nos restaurantes, farei por merecer a confiança.
    ===
    BCP
    A fonte principal é este editorial da Agência Financeira de 16 de Fevereiro de 2006:
    http://www.agenciafinanceira.iol.pt/noticia.php?id=647673&div_id=1729
    “Os administradores do BCP são dos mais bem pagos de Portugal. Actualmente, a soma dos seus salários, juntamente com os «prémios» variáveis, atribuídos em função do desempenho, podem chegar a 10% dos lucros que, em 2005, foram de 753 milhões de euros. No ano anterior, a administração absorveu quase 87% do total pago pelo BCP em remunerações a todos os seus trabalhadores. ”
    Segundo o Público, também citado neste texto, o montante total das remunerações de administradores do BCP em 2004 foi de 31 milhões de euros. Também o Expresso Economia publicou à época dados semelhantes. Tanto quanto sei, não foram desmentidos. O BCP também não me enviou nenhuma nota sobre incorrecções no meu texto (ao contrário do habitual nestes casos).

  • […] Se esses 31 milhões fossem mesmo 87%, os restantes 13% seriam 5 milhões. Para um universo de 10 mil trabalhadores, isso dava uma remuneração média por  trabalhador de 500 euros ao ano. Impossível. […]

  • Basta ir ao meu blog, passe a imodéstia, e confirmar os dados que foram retirados de documentos do BCP… É só pesquisar…
    http://ocastendo.blogs.sapo.pt/51071.html

    Aliás esses dados constavam, resumidamente, do meu último artigo no Público

    http://ocastendo.blogs.sapo.pt/68266.html

    Já agora, alguém pode fazer o favor de dizer ao Henrique Raposo (tem os comentários off) que quando passar por Penalva do Castelo pode procurar-me que terei todo o prazer em lhe provar que sou especialista/consultor em sistemas de comunicação e informação…

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