Thursday, October 25th, 2007...10:45
Erro esclarecido
Se esses 31 milhões fossem mesmo 87% da remuneração total, os restantes 13% seriam aproximadamente 5 milhões. Para um universo de cerca de 10 mil trabalhadores, isso daria uma remuneração média por (restante) trabalhador de 500 euros ao ano. Mais do que inverosímel, obviamente impossível.
A minha hipótese é a de que o primeiro número que apareceu em público foi depois usado e repetido por outros outros órgãos de comunicação - alimentando o erro inicial -, sendo que esse número pode até ter tido origem no próprio banco. Ter-se-á trocado, com grande probabilidade, 87% por 13%. De certo modo, “apenas” uma troca, mas uma troca grave. Se os 31 milhões de euros recebidos pela administração fossem 13% do total, nesse caso cada um dos restantes 10 mil trabalhadores teria recebido em média 21 mil euros num ano, um número que faz sentido e que deixaria tranquilo quem o usasse.
O facto de o Rui Tavares ter conhecido ambos os números (percentagem e valor absoluto) permitia fazer este rápido ‘cross-check’ mental, mas isso não me parece exigível a um colunista quando a fonte parece credível (e menos exigível ainda para alguém de Humanidades). Terá havido alguma insensibilidade para com os números e para o tipo de exercício proposto, mas não descuido.
A explicação está dada e é aceitável.

23 Comments
October 25th, 2007 at 11:07
Eu sugiro outra hipotese- se calhar esses 87% são as remunerações do “pessoal de administração”, que, num banco, deve ser o pessoal quase todo.
Já agora, não me parece que o fact-checking desses valores fosse assim muito fácil - eu estive no site do BCP a ver os relatórios e não vi lá nada que discriminasse os rendimentos dos “membros dos orgãos de gestão” dos outros (na DRL aparece tudo junto).
October 25th, 2007 at 11:09
“A explicação está dada e é aceitável.”
Pareces o provedor dos leitores nos jornais.
“(e menos exigível ainda para alguém de Humanidades). ”
Não concordo com este paternalismo.
October 25th, 2007 at 11:11
Miguel,
Não falei de “fact-checking” mas de “cross-check mental”… não falo de obter o “número exacto” mas de fazer um exercício relativamente simples que permita indentificar e excluir números que a nossa intuição nos diga que não podem estar correctos. Não é a “busca da verdade”, é apenas a atitude prudente de não usar coisas erradas e que poderíamos facilmente ter percebido estarem erradas.
October 25th, 2007 at 11:18
LA-C,
Não vejo qualquer paternalismo nessa referência às Humanidades (mas desconfiava que fosse aparecer… enfim, corri o risco conscientemente). Consideraria sempre mais grave que alguém de Economia ou de Gestão, comparado com alguém de Humanidades, escrevesse algo como o que está em causa. Mal estaríamos nós se alguém com formação em Economia ou Gestão não tivesse maior intuição para este tipo de números. Tal como consideraria menos grave um erro sobre a nossa história num economista do que num historiador, ou uma interpretação errada do Princípio da Incerteza por parte de um físico comparado com um sociólogo. Acho que exageras aí, mas ok.
“Pareces o provedor dos leitores nos jornais.”
Falou-se de um erro, falou-se de jornalismo de referência, de descuido, etc, o comentário crítico a este tipo de coisas é necessariamente um comentário “à la Provedor”. Nem eu sou infalível, nem um provedor é infalível. O comentário final é propositado, e serve sobretudo para realçar que está em causa a avaliação típica que um provedor faz, que não tem a ver com o carácter ou com o conhecimento que o jornalista ou colunista tem, mas sim com a “forma” como se procedeu - ou não - à verificação de certos factos e se isso - e algo mais - era expectável e exigível ou não.
If you take it too seriously, it’s you being too serious… digo eu.
October 25th, 2007 at 11:25
“If you take it too seriously, it’s you being too serious… digo eu.”
Tás louco? Então eu faço dois comentários a brincar com o teu texto, tu respondes-me a sério, e dizes que eu é que estou a levar a coisa muito a sério?
Agora falando sério, quanto às tuas considerações no primeiro parágrafo (da resposta ao meu comentário). Não estou nada de acordo contigo. mas não tenho tempo para elaborar… sorry
Abraço para ti e para o Miguel Madeira.
October 25th, 2007 at 11:25
Ou achas, LA-C, que o mesmo comentário sobre isto feito por (1) um administrador do BCP, (2) outro trabalhador do BCP, (3) um editor de economia, (4) um colunista da área das Humanidades merece sempre o mesmo tipo de juízo à priori? Parece-me a mim que quanto menor a familiaridade com um tema, menos grave se torna uma afirmação pouco razoável sobre ele. Só isso. Não há nada de pedantismo académico aqui e muito menos de paternalismo, antes pelo contrário.
October 25th, 2007 at 11:27
LA-C,
Que “pareci o provedor dos jornais” é um facto. Quanto ao comentário do paternalismo, pareceu-me crítico e não irónico. Isto junto fez com que tomasse o teu comentário globalmente como crítico. Erro meu, má fortuna..
Abraço,
October 25th, 2007 at 11:42
“Ou achas, LA-C, que o mesmo comentário sobre isto feito por (1) um administrador do BCP, (2) outro trabalhador do BCP, (3) um editor de economia, (4) um colunista da área das Humanidades merece sempre o mesmo tipo de juízo à priori? ”
Altero a pergunta:
“”Ou achas, LA-C, que o mesmo comentário sobre isto feito por um COLUNISTA DOS JORNAIS que é (1) um administrador do BCP, (2) outro trabalhador do BCP, (3) um editor de economia, (4) da área das Humanidades merece sempre o mesmo tipo de juízo à priori? ”
Amigo, não me faças estas perguntas, porque responder “sim” ou “não” quer dizer pouco, e não não tenho tempo para elaborar as justificações do meu “sim” à pergunta reformulada por mim (quanto à original a resposta seria “não”).
Vá, agora tenho de ir. Abraço para ti, para todos os colunistas e colunáveis deste blogue.
October 25th, 2007 at 11:48
Eu sou de humanidades, e acho insultuoso que se ache contemporize um erro destes, que implica uma conta de merceeiro.
Vendo qualquer balanço, há uma rúbrica de custos com o pessoal, e outra de encargos com os órgãos sociais.
Qualquer jornalista estagiário, em meia hora, pode fazer o levantamento dos valores.
O problema é que a esquerda foge dos números, e apenas os cita para provar uma tese. Nem que para isso use uns números quaisquer.
Não dizia ontem o DO num comentário ao meu post que “os factos” desmentem que nos países em via de desenvolvimento/pobres, indexar os salários à produtividade ajudam à consolidação das classes médias, quando os números o contrariam à saciedade?
October 25th, 2007 at 11:50
Percebo a tua pergunta e a tua resposta, não daria um “sim” total, mas idenfico-me com os princípios que subjazem à tua resposta. Abraço,
October 25th, 2007 at 11:59
Não fico contente. Em primeiro lugar, porque se há erro da imprensa, nomeadamente da Agência Financeira, é muito irritante que não o tenham corrigido – até porque eles deveriam ter dado por isso. O pessoal não corrige as notícias na internet, é impressionante, e elas ficam meses ou anos a dar informação errada. No outro dia o Expresso noticiou a suspensão do José Rodrigues dos Santos, a RTP negou, o JRS está a apresentar telejornais, eu decidi corrigir a minha crónica onde tinha falado no assunto, mas no Expresso a última vez que vi a notícia de que o JRS foi suspenso continua lá.
Ainda assim, e admitindo a hipótese de estar errado, como admiti desde o início, não estou inteiramente satisfeito. No ano seguinte, o Wall Street Journal noticiou que os administradores do BCP iriam receber 90 milhões. O Paulo Teixeira Pinto resmungou e reclamou, disse que era ultrajante e ofensivo, mas não apresentou dados nenhuns, não procedeu judicialmente, e o WSJ manteve a notícia. O PTP limitou-se a reenviar para o Relatório e Contas, sem explicações.
October 25th, 2007 at 11:59
RAF,
Suponho que as críticas que fazes se dirigem ao jornalista ou quem quer que tenha publicado esse número inicialmente. Se assim é, concordo. A conta de merceeiro aqui relevante é a de quem publica o número.
As contas que eu proponho, embora simples, não são categorizáveis como “contas de merceeiro”, porque, em meu entender, é aceitável que um colunista aceite um número de uma fonte credível e que ele não lhe pareça “muito suspeito”.
Não sei se a esquerda foge dos números… estou a falar de um caso concreto, acho sempre de evitar (às vezes incorro nesse mal - “mea culpa”) generalizações desse tipo, em que deixamos de falar do indivíduo para falarmos de um membro de um qualquer grupo (esquerda, jacobinos, liberalóides, etc).
(Daí que não comente o que dizes sobre o DO, também porque nem segui esse debate, diga-se de passagem).
Só acrescento uma coisa, e apenas porque é pública (http://www.atlantico-online.net/blogue/autores/): és de humanidades mas tens um MBA e trabalhas há vários anos no sector bancário. Acho essa informação relevante para enquadrar o teu comentário inicial, sem fazer qualquer juízo de intenção.
Um abraço,
PS: falava, no comentário acima, da pergunta do LA-C, naturalmente.
October 25th, 2007 at 12:10
Rui,
Mesmo que a administração tivesse recebido 90 milhões, se isso fosse 87% da remuneração total - simplifiquemos para 90% -, os restantes trabalhadores teriam recebido 10 milhões de euros, o que a dividir por 10 mil trabalhadores dá 1.000 euros por ano por trabalhador, o que é impossível.
O problema está em que a “carga” do artigo se baseou numa percentagem - 87% - e não num número absoluto. Este é o ponto principal na minha crítica: essa percentagem não pode, de forma alguma, ser verdade, por muito que os administradores recebam. Melhor seria, então, ter referido números absolutos - e por cabeça, já agora, para se perceber quanto ganha em média cada administrador.
A insistência em referir outros números, como o de 90 milhões, não abona a favor do Rui se tivermos em conta que o essencial é a ênfase dada à percentagem - 87%. É um número brutal, que transmite uma ideia muito forte, dado que toda a gente sabe que há pouco mais de uma dezena de administradores mas milhares de trabalhadores.
Nada disso tem que ver com a concordância quanto à má qualidade de muitas notícias no nosso país aqui referidas.
Resumindo: a percentagem deveria parecer absurda a qualquer pessoa com alguma intuição para estas coisas; o colunista não teve essa intuição; o número veio de uma fonte credível; é aceitável que o colunista tenha usado esse número sem recorrer a um ‘cross-check’ rápido; não abona a seu favor a insistência no (já mais que explicado) erro dos jornalistas, quando o que está em causa é saber se seria expectável/exigível ao colunista passar um filtro pessoal sobre esse número. Em meu entender não era, mas solidarizo-me com o tipo de exigência que (creio) subjaz aos comentários do LA-C.
October 25th, 2007 at 12:23
Tiago,
O que eu digo é que qualquer pessoa que não seja iletrada percebe que os números em questão não fazem sentido. E que facilmente podems er cruzados analisando um relatório e contas, o que é fácil (basta descarregar o pdf, ir ao “find”, e colocar “pessoal” ” órgãos”; descobrem os números em cinco minutos).
E qualquer pessoa formada em humanidades - sem MBA e experiência no sector bancário - descobre isto sem dificuldade.
Só que isso dá tralhado, e ainda por cima “lixa” as conclusões…
October 25th, 2007 at 12:26
Caro Tiago:
A exigência é perfeitamente justificável.
Vou escrever para a Agência Financeira e tentar chegar ao fundo disto. Depois dou notícias.
Diga-me uma coisa: o seu número de 10000 empregados do BCP é real ou conjectural?
October 25th, 2007 at 12:36
Caro Rui,
Uma conjectura, inicialmente, uma pesquisa no Google aqui é fácil:
http://www.jornaldenegocios.pt/default.asp?Session=&SqlPage=Content_Empresas&CpContentId=296956
Mesmo que fossem apenas 5.000 trabalhadores a coisa mantinha-se.
Acho que a resposta provável é que eram 13% e não 87% e que o erro poderá vir de um colaborador do BCP, porventura numa típica entrevista com alguém que se conhece e troca as percentagens.
Caro Rodrigo,
Acho que a percentagem é elevada de mais para não gerar alguma surpresa, não acho que aquilo que propões seja expectável. Já um cálculo back-of-the-envelope seria um pouco mais expectável. A minha crítica só se mantem porque o número aparece à cabeça do artigo. Insisto que a mensagem não se altera muito porque os vencimentos são factualmente grandes. Mas o erro merece investigação - até às suas origens, como o Rui se propõe fazer.
Abraços,
October 25th, 2007 at 12:37
A pesquisa no Google:
http://www.google.co.uk/search?hl=en&q=numero+de+trabalhadores+BCP+2007&meta=
October 25th, 2007 at 12:42
“Vendo qualquer balanço, há uma rúbrica de custos com o pessoal, e outra de encargos com os órgãos sociais.”
em primeiro lugar, é na demonstração de resultados, não no balanço
em segundo lugar, no relatório do BCP
http://www.millenniumbcp.pt/multimedia/archive/00392/Resultados_2006__PT_392628a.pdf
vou à demonstração de resultados (pag. 64) e só vejo lá, como já disse, “custos com pessoal”
Em terceiro lugar, acabei de fazer um “procurar” por “orgãos” nesse documento e deu “Total de ocorrências localizadas: 0″
October 25th, 2007 at 13:08
Miguel, esse link não é o relatório e contas, é apenas um powerpoint de apresentação do R&C, que contém um resumo do que está no relatório.
O R&C de 2006 está aqui:
http://www.millenniumbcp.pt/multimedia/archive/00396/rc2006pt_396287a.zip
mas não convém abrir. São 9,5MB.
October 25th, 2007 at 13:11
Rui Tavares escreveu:
“Ainda assim, e admitindo a hipótese de estar errado, como admiti desde o início, não estou inteiramente satisfeito. No ano seguinte, o Wall Street Journal noticiou que os administradores do BCP iriam receber 90 milhões. O Paulo Teixeira Pinto resmungou e reclamou, disse que era ultrajante e ofensivo, mas não apresentou dados nenhuns, não procedeu judicialmente, e o WSJ manteve a notícia. O PTP limitou-se a reenviar para o Relatório e Contas, sem explicações.”
E acho que foi a atitude certa. O R&C, devidamente auditado, é o instrumento certo de divulgação da performance financeira do banco e onde se publicam todos os custos públicos relevantes.
Se fossem processar um jornal por cada erro escrito não fariam outra coisa.
October 25th, 2007 at 18:32
Honestamente não me parece muito complicado descobrir os números. Os Relatórios estão no site, no link indicado pelo RAF.
Em 2005 temos 1.187 milhões de euros de custos com o pessoal, a que correspondem 665 milhões de remunerações (o remanescente são contribuições para a SS) dos quais 31 milhões pagos a elementos do conselho de administração.
Em 2006 foram 1.035 milhões de euros de custos com o pessoal, a que corresponderam 637 milhões de remunerações e dos quais 27 milhões pagos a elementos do conselho de administração.
A falta de sensibilidade quer com a percentagem quer com o valor em absoluto é, para mim, criticável. Quanto à boa ou má fé a única pessoa que pode ter a certeza absoluta é o próprio Rui Tavares. Infelizmente a iliteracia económica, como bem referiu o AAA, não é incomum nos media portugueses, mesmo nos especializados.
October 25th, 2007 at 20:41
Hoje foi um mau dia para saber a origem daquela percentagem nas redacções de economia. Estava tudo doido com a possível fusão BPI/BCP e eu também não tive minutos livres. Aparentemente, a fonte inicial pode ser (pode ser, não sei ainda se é) a própria secção de economia do Público. Amanhã ao fim do dia darei mais notícias porque vou passar o dia sem net.
Acho injusto quando o comentador anterior diz que “quanto à boa ou má fé a única pessoa que pode ter a certeza absoluta é o próprio Rui Tavares”. Se a palavra operativa for “absoluta” claro que ninguém pode saber se estou de boa fé. Mas acho que está demonstrado que não inventei números, citei números de uma fonte provavelmente errónea. Isso pode ser iliteracia ou destrambelho ou o que quiserem, e tudo isso é justamente criticável, mas não é má fé, com bastante certeza.
October 26th, 2007 at 9:21
Rui Tavares,
Talvez possa não ter sido inteiramente justo. Talvez, enviesado pela minha actividade profissional, tenha pensado que não seria razoável alguém achar que as remunerações de 10 ou 15 pessoas (mesmo que as que lideram a instituição) fossem 9 vezes superiores às remunerações acumuladas dos 10.000 colaboradores do banco. Não sendo razoável uma das possíveis explicações seria a eventual falta de boa fé do autor.
Admito (e fico contente) que não seja esse o caso nesta situação.
Melhores cumprimentos
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