Thursday, October 25th, 2007...15:30

Tapar o sol com uma peneira

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Pode ser que com os rankings as classes médias finalmente percebam que os filhos dos ricos estão sempre protegidos das experiências mirabolantes do Ministério da Educação, porque podem pagar para se livrarem da sua tirania. Pagam duas vezes pelo ensino dos seus filhos, mas pelo menos acedem a uma escola de qualidade. Escolhem que tipo de ensino têm os seus filhos. Seguindo, cada uma no enquadramento que consideram mais adequado, as receitas que sempre foram a fonte do sucesso: bons conteúdos, ensino das disciplinas nucleares básicas, atenção à criança, exigência e muito esforço.

Pode ser que percebam também que o actual modelo de escola prejudica sobretudo os seus filhos. Que o problema não é económico, pois o custo de produção do ensino, por aluno, de boa parte das escolas privadas é idêntico ao das públicas.

Pode ser que as classes médias percebam que o problema é mesmo ideológico. Cabeça debaixo da terra, como a avestruz, ninguém se preocupa em assumir que o modelo da nossa escola púbica está a condenar à mediania e à mediocridade muitos dos que a frequentam, centenas de milhar de alunos, ano após ano transformados em cobaias de experiências pedagógicas com resultados negativos visíveis. O actual modelo escolar é fonte das maiores desigualdades, em prejuízo dos de sempre: das classes médias e baixas, dos que não conseguem - ou não querem - romper com a dependência daquilo que o Estado lhes oferece. Deviam ser estes os primeiros a protestar, as classes médias, as que de uma maneira mais directa beneficiam ou são prejudicadas pelas opções do regime.

Já que quem tem dinheiro, descobre com maior ou menor dificuldade uma solução para os seus problemas, não precisa de comer na malga do Estado, “orienta-se” sem ter de mudar o rumo das coisas.

12 Comments

  • Volto a notar que a diferença entre a classificação das escolas privadas e das públicas (pelas minhas contas) nem chega a 1 valor. Será assim tão relevante? Claro que se pode argumentar que 1 valor pode ser a diferença entre chumbar ou passar, ou entrar ou não em dada universidade.

  • Miguel,
    Eu não estou a falar em escolas privadas V públicas, como um bloco, mas no fundo entre o ensino de elite - do top 10, top 20 - e o resto.
    Claro que podes começar a enfiar a cabeça na areia, e ignorar o que se passa.
    Por mim, na boa.

  • Carlos Conceição
    October 25th, 2007 at 16:33

    Subscrevo inteiramente: a escola pública desresponsabiliza as «criancinhas» (debaixo do chapéu e do mito da «inclusão» a todo o custo), e fomenta a mediocridade; muitos não saberão, mas há quotas para «retenções» por turma (e por escola), porque o que manda é a estatística, não o grau de conhecimentos (completamente secundarizados pelas competências do «diktat» construtivista) ou a formação como cidadãos!

  • Bom post, Rodrigo.

  • O comentário do Miguel Madeira é válido: apenas um pequeno número de escolas privadas são (na terminologia do RAF) “de elite”, pelo que, não se pode afirmar que a privatização do ensino leve necessariamente à generalização das escolas de elite.

    De facto, a experiência portuguesa (e não só: a norte-americana também) das universidades privadas mostra que, num esquema de ensino privado, a maior parte das instituições de ensino são de fraca qualidade. As instituições de elite surgem, de facto, mas são sempre uma minoria - e geralmente ao alcance de poucos.

    O RAF disparata também quando fala das más experiências pedagógicas das escolas públicas. De facto, há más experiências pedagógicas também em escolas privadas, algumas delas de elite. Por exemplo, o meu filho, que anda numa escola primária pública, aprendeu a ler meses mais cedo do que uma prima que frequenta o muito elitista Liceu Francês do Porto - no qual se aplica um esotérico método “global” de aprendizagem da leitura, o qual é totalmente desadaptado à aprendizagem da língua portuguesa.

    De facto, aquilo que distingue as esolas públicas das privadas não são os experimentalismos pedagógicos, que existem, com bons ou maus resultados, em todo o lado. O que as distingue são, basicamente, as companhias. Enquanto que numa escola pública estão meninos de todas as classes sociais, incluindo meninos com um comportamento menos recomndável, as escolas privadas expulsam os alunos perturbadores.

    Essa é, de facto, a grande e única diferença entre escolas públicas e privadas. Numas, todos os meninos entram; nas outras, só entram aqueles que se portam bem e não chateiam.

  • Caro Lavoura,
    Boa sorte, e limpe a terra das orelhas quando tirar a cabeça do buraco.

  • RAF,

    estou a ver que o facto de ter andado numa escola de elite não lhe deu suficiente boa educação. É pena.

    Quando quiser argumentar contra o que eu disse em vez de ser malcriado, estarei aqui para o ouvir.

  • -Para começar seria bom analisar o porquê do bom desempenho de algumas escolas públicas. Serão elas um fenómeno do Entroncamento, ou um case-study? Se algo possuem que possa ser generalizado, generalize-se. Mas o ensino privado tem outra vantagem de peso, ainda aqui não referida, o cumprimento do programa, é que não andam por lá uns quantos srs da Fenprof, os professores não costumam faltar, ou fazer greve, e os programas curriculares cumprem-se. Para lá de, e muito bem, quando um aluno é mal-educado, independentemente da classe social a que pertence, ou da carteira que o pai possui, pura e simplesmente é expulso, ao contrário da escola pública, onde o professor ainda tem de pedir desculpa, quando é a vítima. Factores como a falta de equipamento, infra-estruturas deficientes, insegurança, também não ajudam a melhorar o desempenho. Por último, a constante mobilidade dos professores, a não estabilização do quadro docente nas escolas públicas, não darão mais uma mãozinha? O que as escolas privadas têm de vantagem face ás públicas é rigor e disciplina, algo que nos meus tempos de escola também existiam no público, onde por sinal sempre andei, mas que se perderam, hoje cresceu a bardinagem, a insubordinação e o desrespeito. E o estado assiste com complacência, porque o estado não é capaz de fazer funcionar nenhuma actividade, e a educação não é excepção, daí que defenda a crescente privatização do ensino, sem que tal implique excluir alguém por não poder pagar os estudos. Não é uma questão ideológica, são factos!

  • Caro Luis Lavoura,
    No sentido figurado, o que digo é que está a meter a cabeça no buraco, com a avestruz que falo no post. Acho que tem inteligência suficiente para perceber ao que me refiro, no meu comentário, e no post.
    Não há nenhum intuito agressivo no meu texto. E a resposta ao seu comentário é dada precisamente no post.

  • […] Tapar o sol com uma peneira. Por RAF. Pode ser que com os rankings as classes médias finalmente percebam que os filhos dos ricos estão sempre protegidos das experiências mirabolantes do Ministério da Educação, porque podem pagar para se livrarem da sua tirania. Pagam duas vezes pelo ensino dos seus filhos, mas pelo menos acedem a uma escola de qualidade. Escolhem que tipo de ensino têm os seus filhos. Seguindo, cada uma no enquadramento que consideram mais adequado, as receitas que sempre foram a fonte do sucesso: bons conteúdos, ensino das disciplinas nucleares básicas, atenção à criança, exigência e muito esforço. […]

  • Luis Lavoura

    A questao nao e’ saber se as escolas privadas sao melhores que as publicas ou vice-versa. A questao e’ saber se os pais, responsaveis ultimos pela educaçao dos seus flhos, tem ou nao direito a escolher aquilo que julgam ser o melhor ensino para os seus filhos. Se pensa que o ensino publico e’ o adequado para o seu filho, esta no direito de escolher o ensino publico. O problema e que so os pais com dinheiro tem o poder de escolha. A maior parte tem de se contentar com a escola publica da sua area de residencia, tenha ela qualidade ou nao.
    E para ter poder de escolha dentro do ensino publico tem de fazer batota, usando moradas de amigos, familiares, etc. E os seus filhos aprendem: “se queres algo na vida tens de fazer batota.” E’ com isto que nos conformamos em Portugal.

  • Ana Matos Pires
    October 26th, 2007 at 20:47

    O Rodrigo acredita mesmo que, como mostra o João Vasco do Esquerda Republicana, uma diferença de 0.7 é significativo? “A média de todos os exames realizados por alunos do ensino público é de 10,05. A média de todos os exames realizados por alunos do ensino privado é de 10,75…”
    http://esquerda-republicana.blogspot.com/2007/10/ensino-pblicoprivado-e-seus-rankings.html

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