Friday, November 2nd, 2007...22:23

O fetichismo dos rankings

Jump to Comments

Nos meus tempos de aluno do secundário (já lá vão uns 9 aninhos), aturei, com algum desespero, as aulas de preparação dos exames nacionais. Nem todos os professores se preocupavam em passar o ano inteiro a treinar os alunos nas respostas aos ditos, mas sempre havia aqueles - os piores- que nos avisavam dos perigos de responder às questões de acordo com o que quer que fosse a nossa opinião.

Eram-nos, pois, disponibilizadas respostas predispostas para questões como a educação inglesa de Carlos em Os Maias, as origens económicas da Revolução Industrial ou a Metempsicose no Fédon de Platão. Diga-se, desde já, que o método provou ser um sucesso: no colégio onde andei - por sinal bastante profano em matéria de valores morais - os alunos mais bem sucedidos foram invariavelmente aqueles que decoraram e transcreveram as respostas dadas pelos professores nas aulas. Alguns estudantes levaram o requinte e a preguiça mais longe e recorreram aos serviços de explicadores contratados “ad hoc” para as magnas provas. Segundo a lógica “resultadista” dos fetichistas dos “rankings”, são alunos de elite. Os números não mentem.

Por tudo isto, tem piada o discurso de consternação relativo às discrepâncias entre as notas internas e as notas externas em algumas escolas (privadas ou públicas). Dá-se de barato aquilo de que, quem se dê ao trabalho de ler os exames nacionais, duvida: isto é, que as notas internas são falsas e que verdadeiras, verdadeiras só as notas dos exames nacionais. No domínio das humanidades e das ciências humanas, e tendo em conta que as perguntas dos exames nacionais pouco variam de ano para ano, é verdadeiramente notável o zelo com que se defende a pureza imaculada das notas dos exames nacionais. Para mais, tendo em conta que, com isso, se ignora as práticas habituais, em muitas escolas, de, nos exames internos, não se fazer perguntas relativas aos livros lidos nas aulas, ao contrário do que sempre sucedeu nos exames da dita avaliação externa. Ou seja, duvida-se de um sistema que, ao menos, em parte procurou evitar que se decorassem as respostas e confia-se num que só se preocupa com isso. Mais, dá-se crédito ao sistema controlado directamente por um Ministério, cuja única preocupação é a…melhorar a estatística. Pois, isto tem muita piada.

Sem prejuízo, e estando, como está, o fetichismo dos números na moda, aconselho - qual spin doctor - a mui impopular Ministra da Educação a multiplicar os exames nacionais e a estatística correspondente. É remédio santo para desarmar maior parte dos críticos e dá aquela imagem de autoridade que os nossos fétichistas gostam. Ergo, que mil exames e rankings floresçam: com sorte, ninguém se lembrará daquela equipa que tem 60& da posse de bola, colecciona dúzias de cantos, remata 20 vezes à baliza e mesmo assim perde 0-1. Só no futebol é senso comum constituir a estatística a mais mentirosa das verdades.

José Barros, no Small Brother

Leave a Reply

eXTReMe Tracker