Wednesday, November 7th, 2007...13:57

Eliminar o óbvio

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Assim que soube que uma certa estrela blogosférica ia escrever obituários para a Atlântico, temi o pior. Não disse nada na altura, nem em público nem em privado, para não parecer que estava a agoirar ou a pôr em causa o bom senso das partes envolvidas, e também porque, no contexto de uma troca conjuntural de saudáveis mimos com a dita estrela blogosférica, corria o risco de ver esse comentário mal interpretado como um contra-ataque nessa pequena refega.

E temi porque imaginei logo o “exercício” que teria lugar: “Quem é que morreu no último mês? X e Y, dizem-me. Hmmmm, mas X  não é bom para mim… Apesar de ter sido um tipo importante, sem dúvida que apropriado para uma revista política, não conseguiria gozar minimamente com ele… E a blogosfera e os meus fãs andam em polvorosa com a minha estreia, não posso desiludi-los! Tenho de mostrar do que sou capaz… O melhor é atirar-me a Y, que tem uma penca descomunal e tantos aspectos caricatos que é facílimo gozar com o gajo”.

Também estranhei o entusiasmo de tantos bloggers. Não era evidente o perigo que se corria? A excitação era tal que, acredito que inconscientemente, se terá esquecido o essencial: que escrever um obituário requer discrição, humildade, distância e segurança da parte de quem o faz. (Vasco e Lourenço, isto também é para vocês). O pior que se pode fazer é pôr alguém que sente que tem de “provar” alguma coisa a escrever um obituário. Repito: o obituário, que pode e deve conter críticas (quando apropriadas), requer humildade, distanciamento, maturidade e experiência de vida. (Um exemplo de alguém que me parece reunir essas qualidades, e é só um exemplo ilustrativo: Joaquim Aguiar.)

Fizeram-se também comparações - disparatadas - com o Maradona, porque a estreia deste levantou ”dúvidas” em certos pontos similares, e sem dúvida que extraordinariamente importantes na blogosfera: será que ele conseguiria arrebatar os leitores sem recorrer ao “é mas é o c…”? Ou seja, a atenção foi todinha para os escribas, aquilo sobre que cada um se debruçava era marginal. Só que escrever sobre o défice ou sobre um artigo de Rui Ramos não é o mesmo que escrever sobre alguém que morreu. O que unia os dois casos - percebe-se - era a ânsia de saber se os “deuses” ”cumpriam”, se continuavam a mostrar o poder da sua escrita e a sua inegável criatividade.

episódio altamente lamentável serve, também, para uma reflexão alargada sobre a blogosfera e a forma como ela pode contribuir ou não para enriquecer certo tipo de imprensa escrita. A grande vantagem da blogosfera é ser um mercado onde as barreiras de entrada são relativamente pequenas e onde o mérito é comparativamente mais premiado do que lá fora. Exemplo disso é o Miguel Madeira, cujo estudo recente referi ontem, ou o Bruno Alves, ou o Pedro Sales, ou o Luís Pedro Coelho. A grande desvantagem é que é um mundo relativamente pequeno, muito absorvente e viciante. Daí que perder a noção do que se passa lá fora não seja difícil (e falo por mim também).

Uma revista séria pode e deve aproveitar novos talentos, mas tem de ser prudente quanto a um excesso de dependência da tal blogosfera, precisamente porque se dirige (ressalva: a não ser que desista de ser dirigir) a um público mais vasto que aqueles que lêem blogues e que, desconfio, quando vêem um excesso de publicidade a uma publicação na blogosfera, acabam por ter menos e não mais vontade de a comprar. Mas é uma conjectura pessoal apenas.

Não sei que idade tem ou o que faz a tal estrela que achou por bem gozar com uma pessoa recentemente falecida para encher o seu ego, nem realmente me importa. O ponto que quero frisar aqui é que me parece haver uma desproporção despropositada na atenção dada a fulano tal, que pode valer muito num blogue, mas que numa revista de política, vale necessariamente menos. Quem gosta de estar nos dois mundos, como eu, sabe da dificuldade constante de equilibrar estes dois mundos.

Alguém imagina a ‘Spectator’ com obituários humorísticos? E os ingleses são senhores de um humor peculiar e muito liberal, mind that. A propósito, penso que foi o João Pereira Coutinho que lembrou há tempos essa característica singular da imprensa inglesa que é o espaço dado aos obituários. São páginas muito mais que ”informativas”. Aqueles textos espelham uma certa forma de estar na vida e de viver em comunidade, e quem é anglófilo sabe do que falo. Em Portugal não temos essa tradição, por um lado, porque somos muito menos, o que, segundo alguns, faz com que tenhamos menos pessoas “notáveis”; por outro lado, talvez o mais importante, porque só os políticos, futebolistas e ‘jet set’ é que adquirem notoriedade neste país, merecendo esse destaque.

Eu percebo que os que partilham de valores conservadores/liberais tenham especial dificuldade em censurar o que outros escrevem e também em supor que pessoas por quem têm estima possam exercer a sua liberdade sem qualquer responsabilidade. Censurar é sempre perigoso, às vezes moralista e sei lá eu mais o quê. Mesmo para apagar um insulto numa caixa de comentários às vezes é preciso escrever um tratado, porque, tendo em mente o ideal louvável de uma sociedade mais livre que a que actualmente temos, exercemos toda a caução antes de restringi-la. O downside é que, muitas vezes, permitimos que os micróbios e a imundície proliferem com facilidade. 

Obituários escritos com motivações umbiguistas, onde se procura o puro exercício do estilo e o humor não têm lugar numa revista séria, muito menos tendo ela uma inspiração conservadora-liberal. 

19 Comments

  • Tiago,

    Eu até tenho uma daquelas consciências que cata responsabilidades com um larguíssimo espectro, mas no caso do convite do Tiago Galvão feito por terceiros para escrever numa revista que nunca li e sobre um tema que não conhecia, não me sinto minimamente responsável. Aplaudi na altura porque lhe reconheço talento e porque gosto dele.

    Não tenho sonhos húmidos recorrentes sobre uma Spectator à portuguesa - é fantasia para outra gente. Preocupa-me mais o futuro do Tiago, mas creio que ele encontrará a justa medida. O seu grande problema é a idade - o que se resolve de forma passiva - e a vontade de querer emular alguns dos cronistas de direita - o que se resolve falhando e recomeçando. O miúdo está à procura da sua voz e se no processo der cabo de uma revista mas sair inteiro, eu aprovo.

    Não discordo do que escreves sobre a prosa de obituários. Uma boa regra para o Galvão seguir a partir de agora seria: “vou imaginar que no dia a seguir à publicação do meu obituário sou obrigado a conviver com os familiares do falecido à saída da missa do sétimo dia; tentarei escrever tendo em conta as pessoas que posso vir a magoar e, também, as que me podem esmurrar”.

  • (foi escrito à pressa, desculpa os erros)

  • Vasco,

    Não falava de responsabilidades tuas, obviamente… Repara que o meu comentário aqui não era normativo mas positivo: apenas “estranhei” o facto de haver um apoio tão largo a alguém inequivocamente dotado, mas que teria, quanto a mim de forma previsível, dificuldades grandes em singrar neste tipo de registo - o obituário numa revista séria -, não só pela idade, mas pela natural procura do estilo e do protagonismo, que não são apropriadas ao registo esperado num obituário.

    De resto, acho que concordarás que o facto de tu te preocupares com o futuro dele concorre “positivamente” para uma preocupação adicional de alguém por quem tens muita estima de começar na imprensa escrita com um tipo de textos “apropriado” ao seu brilhantismo, e não com “qualquer” tipo de texto, só porque ele é brilhante a escrever. Daí, repito, a tal “surpresa”, que é uma constatação e não uma acusação de irresponsabilidade. Apenas esperava que quem com ele se preocupa tivesse dito “Cuidado! Puto, esse registo não é para ti, tu escreve-me outra cena!”.

    Quanto ao teu último comentário, interprestas-me mal. Não acho que de um obituário decente não possam surgir reacções desagradáveis para as pessoas próximas. Um obituário, escrevi-o repetidas vezes, não é uma elegia, pode e deve conter comentários críticos. A questão está na “intenção” com que se faz isso. Uma coisa é “descrever” a vida e os feitos da pessoa com o objectivo de informar e de certo modo honrar a vida dessa pessoa - incluindo momentos e aspectos menos bons -, outra, bem diferente, é ter como motivação de um texto o culto do ego de quem escreve.

    Se leste o meu outro texto, eu falava de “tipos de registo” e não de “conteúdos”.

    Uma coisa é, por exemplo, escrever sobre Prado Coelho apontando imensos defeitos dele, outra coisa é escrever que ele era um monte de banha, etc. Percebes obviamente onde quero chegar. Não é o comentário desagradável que eu censuro, é a predisposição de quem escreve um obituário. Tem de haver distanciamento, humildade, maturidade e experiência de vida. Foi isso que eu escrevi. Daqui não decorre que tem de haver “simpatia” ou “hipocrisia” para com o visado.

    Aceito que aches que o sucesso de uma revista pode ser um preço a pagar pelo sucesso de uma pessoa de quem gostes, tenho mais dificuldades em aceitar que esse sucesso seja feito à custa de paródias imberbes e a roçar a ignomínia.

  • Independentemente de tu gostares ou não da revista, suponho que concordes que aquele registo não é nada recomendável para o sucesso de uma revista séria, right?

  • Bem, sabes que não gosto de perder uma boa oportunidade de chatear o Mascarenhas, já é rotina.

    Concordo com tudo.

  • Vale, Vasco. Abraço,

  • Vasco,

    Só para terminar: quando, no primeiro post sobre o assunto, falo dos “familiares e pessoas próximas”, não me refiro a “comentários desagradáveis”, mas sim ao facto de terem testemunhado uma “paródia” - pueril, insensível e irresponsável. Mais uma vez, sublinho que está em causa o “tipo de registo” e a predisposição de quem escreve e não os “conteúdos”, que podem, naturalmente, aqui e ali desagradar a pessoas próximas, sem chegarem, contudo, a gerar uma revolta, que é o que acontece quando existe uma falta de respeito como a que foi demonstrada no caso em apreço.

  • O puto que se inspire nos obituários que a Laurinda Alves escrevia no Independente. E os do Rui Hortelão (que também é novo) na Sábado.

  • Paulo Pinto Mascarenhas
    November 7th, 2007 at 18:58

    Esta é uma discussão que não me interessa muito e que acho que não deveria ter lugar aqui. Não me pareceu de forma alguma que o Tiago (Galvão) fosse ofensivo para quem quer que fosse. Há em Portugal uma tendência para o elogio fúnebre muitas vezes hipócrita. Todos os inimigos do dia anterior elogiam na hora da morte. O Tiago não o faz. Ponto final.

  • Caro Tiago,

    Em abstracto concordo em absoluto com o que escreveste. Em abstracto, faço notar. O meu problema nasce ao tentar colar o que dizes com a página do Tiago Galvão. E nem preciso de dizer que concordo com o Paulo Pinto Mascarenhas, que se pronuncia sobre o conteúdo dos obituários do Galvão, para discordar da aplicação das tuas considerações ao «Coveiro». Digo «Coveiro» deliberadamente em vez de «Galvão» porque acho que é aqui que reside a chave desta questão. Não é inocente que a coluna seja assinada por uma personagem: o que ali está escrito é dito pelo Coveiro, um profissional da morte pouco dado à comoção e à ponderação, preconceituoso e avesso a vassalagens. Isto não dá, no entanto, carta branca ao autor da coluna, que aparece idenficado sem margem para dúvidas («O Coveiro», por Tiago Galvão), mas é uma boa maneira de permitir uma liberdade estilística ao texto num registo, como dizes, pouco dado a esses malabarismos literários. Na minha opinião a jogada é de mestre e pelo menos até ver resulta. Não acho que o texto sobre o Raúl Durão seja ofensivo nem que apresente uma qualquer falta de gosto. Concordo que se isso vier a acontecer, ou que viesse, pois não acredito que isso aconteça, como no exemplo que dás sobre o Eduardo Prado Coelho, nem o escudo da personagem valeria para legitimar a coisa. Mas insisto: um obituário escrito assumidamente por uma personagem fictícia - e não um pseudónimo - não vincula as «opiniões» aí expressas ao autor que o assina. A forma subjuga o conteúdo, e isso é assim em todos os grandes cronistas (por exemplo João Pereira Coutinho, repito a comparação que já fiz). Aliás, a primeira frase, logo a primeira, dá o tom e é toda um declaração de intenções: «No meu negócio, os tumores dão boas empreitadas.» A partir daqui, quem vem à procura de um elogio fúnebre, com diz o Paulo, já sabe que veio bater à porta errada.

  • P.S: Mas o que é isto de se escrever comentários imaculados, digo mais, sem mácula, seguidos de um quase patético «desculpa os erros, foi escrito à pressa»? Ah, ena, afinal isto não tem erros, «apesar» de ter sido escrito à pressa, mas que talento que eu possuo, livra. Miguel Sousa Tavares e Vasco Pulido Valente que se cuidem, há aí mais egos à solta…

  • Caro Lourenco,

    Agradeco as tuas palavras, acho que discordamos profundamente, porque eu nao vejo como, perante pessoas concretas, se possa dar esse passo “magico” do abstracto para o concreto.

    Claro que concordo que, nas cronicas, “a forma subjuga o conteúdo”. No fundo, tu aceitas que o registo tipico da cronica - tendencialmente umbiguista e cultivador do estilo e do humor, nao do conteudo e da seriedade - e’ aceitavel para fazer uma coluna sobre alguem que morreu. Eu acho que nao e’ - numa revista seria. Se aquilo aparecesse n’”O Moralista”, do Vilhena, tudo bem, ate’ esperava bem pior.

    Ninguem vem ali ‘a procura de um elogio funebre, os bons obituarios nao sao elogios funebres, sao meditacoes distanciadas, criticas mas empaticas com sobre a pessoa que morreu. Tu admites liberdades estilisticas que eu julgo inadmissiveis - repito - numa revista seria sobre aquela “materia”.

    Nao so’ todo o talento, por mais que seja, e’ mais produtivamente aproveitado se for canalizado para empreitadas apropriadas ao estilo do autor e da escrita, como nem todo e qualquer exercicio de estilo, por muito talentoso que seja o escriba, e’ admissivel.

  • Filipe Abrantes
    November 7th, 2007 at 20:19

    Claro que se for um texto ofensivo sobre pessoas como, sei lá…o Pedro Arroja, aí já não há família a preservar nem honra nem respeitabilidade (neste caso, do blogue) a manter.

  • Oh, Filipe… so’ ca’ faltava uma fuga ao assunto desse alto calibre…

  • Filipe Abrantes
    November 7th, 2007 at 20:32

    Qual fuga ao assunto.. Vocês aqui (não todos, é certo) não têm feito outra coisa senão ofender e insultar o Pedro Arroja. Não é por não concordarem com ele que o têm de fazer.

    Os (bons) motivos da censura do Tiago Mendes aos textos do Tiago Galvão aplicam-se também neste caso. Ou já não se aplicam por o Pedro Arroja ser ainda vivo…? Eu diria que se aplicam ainda mais por ainda ser vivo.

    A não ser que o EPC mereça respeito e o P.Arroja não o mereça por ser não ter a aura de divindade pública que o EPC tem..

  • Filipe Abrantes
    November 7th, 2007 at 20:33

    corrijo:

    “A não ser que o EPC mereça respeito e o P.Arroja não o mereça por não ter a aura de divindade pública que o EPC tem..”

  • Filipe, se eu bem me lembro, tudo o que tem sido escrito sobre Pedro Arroja tem por base as suas “ideias”, que ele empenhadamente partilha com os seus leitores. Se muitas delas levam a reaccoes fortes, talvez seja melhor prestar atencao a elas e nao (ca’ esta’ a fuga ao assunto) ‘a pessoa em causa. Nao leve a mal, mas fico por aqui sobre este assunto.

  • Filipe Abrantes
    November 7th, 2007 at 21:01

    «Filipe, se eu bem me lembro, tudo o que tem sido escrito sobre Pedro Arroja tem por base as suas “ideias”»

    Está a brincar com certeza. Pegue no obituário “humorístico” do T.Galvão e tente lembrar-se de tudo o que já disseram aqui sobre o P.Arroja. Claro que os insultos são a consequência da indignação/desaprovação face às ideias do Arroja, mas o mesmo se pode dizer sobre o Galvão e o EPC.

    Consegue manter que não é uma comparação justa e que também o P.Arroja merece respeito?

    E acha que faz parte do “debate” linkar textos como o “pedro enoja” da F.Câncio?

    Eu não tenho a menor simpatia por algumas das ideias professadas pelo P.Arroja nos últimos tempos, mas a indignação tem limites. Precisamente (e sobretudo, diria) aqueles que o Tiago refere sobre o obituário: protecção da família e da pessoa em si e da sua dignidade.

  • Tudo o que se disse aqui sobre “o Arroja” - como chama a Pedro Arroja - nunca feriu a sua (dele) dignidade ou da família respectiva. Se assim fosse, não me parece que o próprio assinalasse as críticas com linques directos no próprio blogue.

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