Wednesday, November 7th, 2007...16:03

Sol na eira e chuva no nabal

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Será por ignorância ou por outra coisa qualquer, não percebo esta história do conservadorismo-liberal. Para ser franco, a contradição em termos e valores parece-me mais que clara. Soa-me assim a uma espécie de sol na eira e chuva no nabal.

É que esta história de se acreditar em determinados valores para umas coisas e não para outras é, no mínimo, confusa.

Não percebo como se pode acreditar na menor interferência possível do Estado na economia e defender a intromissão do Estado nas liberdades individuais. É-me incompreensível, por exemplo, que um cidadão que se apelide de liberal, possa ser contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, desrespeitando uma opção ou característica genética (para o caso pouco importa) de um dado indivíduo ou que o mesmo cidadão seja contra a legalização do comércio de drogas ou ainda que a capacidade de adoptar esteja condicionada à parte do corpo humano de onde se extrai maior prazer.

Não será que estamos a ir buscar conceitos, a ideologias ou convicções que pouco têm a ver com o liberalismo e que chocam em absoluto com a nossa própria autodeterminação que é a base do pensamento liberal?   

11 Comments

  • O problema pode estar na definição de conservador. Ou melhor, na esfera, em que o conceito conservador se aplica. Eu posso ser conservador no tipo de valores que adopto para regular a minha vida mas tolerar que outros assumam outros valores, mesmo que opostos aos meus. Estou a ser liberal e conservador ao mesmo tempo, certo?
    Conservador não quer dizer necessáriamente que se é a favor da normalização dos comportamentos, nem liberal quer dizer necessáriamente “práfrentex”.

  • A consagração legal de opções individuais não é necessariamente um imperativo liberal. É perfeitamente possível ser-se liberal, e recusar expressões de engenharia social que passam pela formalização de aspectos que apenas dizem respeito à vida privada. Aliás, curiosamente, há muitos liberais - e não são assim tão poucos - que desconfiam de tudo o que seja a “legalização” de hábitos e costumes, pois em geral não passam de tentativas de obter benefícios à custa de todos. Outra coisa é a não aceitação/penalização de opções individuais, que apontam mais para o conservadorismo do que para um espírito genuinamente liberal.

  • Pedro Marques Lopes
    November 7th, 2007 at 16:40

    Tarzan,
    Estamos, no fundo, de acordo: “tolerar que os outros assumam outros valores”

  • Pedro Marques Lopes
    November 7th, 2007 at 16:48

    Rodrigo,
    Eu como tu (perdoa-me se não for assim) suspeito das coisas a que chamas engenharia social. No entanto, é exactamente igual defender, no plano dos conceitos, a existente como outra qualquer. Depreendo, porém , do que escreves que, por exemplo, estarias disposto a defender a abolição do instituto do casamento entre pessoas de sexos diferentes. Não é através dele que obtemos vantagens sobre os outros? nomeadamente, vantagens sobre os homosexuais?
    Abraço

  • Caro Pedro,

    “Depreendo, porém , do que escreves que, por exemplo, estarias disposto a defender a abolição do instituto do casamento entre pessoas de sexos diferentes.”

    Sim. Aliás, das coisas que mais me revoltou foi para ter de casar pela igreja que professo ser obrigado a casar igualmente pelo civil.

  • Pedro Marques Lopes
    November 7th, 2007 at 17:23

    Tens solução para isso: divorcias-te. Ao que sei o vinculo para a tua Igreja mantém-se, não é (não estou a ironizar, é mesmo ignorância)?

  • Caro PML,

    Sou igualmente favorável a que o Estado não regule sequer o contrato de casamento.

    «Ao que sei o vinculo para a tua Igreja mantém-se, não é (não estou a ironizar, é mesmo ignorância)?»

    Sim, é verdade, o vínculo do casamento católico é válido independentemente da situação civil.
    Só que , infelizmente e erradamente a meu ver, a Igreja não considera o estado civil como indiferente. Graduando positivamente, do ponto de vista moral, o casamento civil à simples «mancebia« (união de facto), E atribuí também uma condenação moral pelo divórcio civil dos casados católicamente, mesmo que estes apenas o façam, por exemplo por válidas razões fiscais/patromoniais.
    Confesso que é daquelas matérias internas da ICAR que considero mais espatafúrdias e que mais dificuldades e prejuízos causa aos próprios católicos.
    Creio que uma possível evolução no bom sentido (separação dos efeitos civis e religiosos, defesa de uma única validade moral), no seio da Igreja venha a suceder com a mais do que provável evolução da regulação civil de novos tipos de casamentos. Nessa altura querer-se-á separar as águas.

  • “É-me incompreensível, por exemplo, que um cidadão que se apelide de liberal, possa ser contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo”

    Caro PML, o estado liberal existe e deve intervir quando as externalidades de determinadas acções dos indivíduos não podem ser reguladas pela livre interacção entre eles, penso eu de que.

    O estado não se mete na relação entre dois homossexuais, nem vai lá ver o que fazem na alcova e muito menos condena ou aprova o que fazem.

    A questão aqui não é essa.
    A questão é que o estado,enquanto comunidade politicamente organizada, regula certas relações entre indivíduos, numa lógica de que isso favorece o interesse do maior nº possível de indivíduos.
    O contrato de casamento é uma dessas regulações, porque o estado parece entender que a familia tradicional é uma mais valia para a sociedade , devendo por isso ser protegida.

    Podemos concordar ou não com isso, mas é assim.

    Agora, porque carga de água é que o estado há-de regular a união entre duas pessoas do mesmo sexo?

    Que é que o estado vem aqui fazer?
    Que interesse para a maioria dos cidadãos está em causa?

    Neste momento essa união é LIVRE.

    Como é possível que se inverta a lógica e se transforme num “direito”, aquilo que é uma intervenção do estado numa externalidade?

  • Faço minhas as palavras do Gabriel.

  • José Carmo,perdoa-lhes,porque eles(em especial o Lopes)não sabem o que dizem.

  • Nem mais, caro Pedro Marques Lopes.

    Este pequeno post é, na minha opinião, o melhor que se publicou aqui no Atlântico.

    Seria muito interessante se elaborasses o tema noutros posts. Prestarias um valioso serviço a todos os liberais “clássicos” deste país.

    Belo post: straight to the point!
    :)

    p.s: muito obrigado :)

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