Friday, November 9th, 2007...1:26
Para final de conversa
E só porque o Bruno Alves merece resposta, parágrafo por parágrafo.
1. É verdade que existem três textos e que falo apenas de um deles. Contudo, haver uma violação de um princípio básico é condição suficiente para o tipo de crítica feita. Não interessa muito que os outros dois textos tenham sido mais aceitáveis. Há aqui um claro ”espantalho” (aceito que não intencional). Tal como não esperaria que o primeiro-ministro da altura tivesse perguntado ao ministro Carlos Borrego se ele tinha contado mais alguma piada durante o dia em que teve aquele momento inspirado sobre os mortos hemodiálise em Évora, para “aligeirar” a coisa, também não considero relevante que existam outros textos “aceitáveis” ao pé do texto a que me referi. Basta um texto com aquele tipo de registo - no sítio onde foi escrito, se fosse numa revista do Vilhena, nada de mais se passaria (um exemplo análogo: pensar no que o Maradona se permite escrever no seu blogue e nos seus textos na revista) - para uma linha séria ser pisada de forma clara.
2. É óbvio que aquilo não é um obituário “tout court”. Mas esse é exactamente o meu ponto. Eu também gosto de ler as melhores crónicas do Coutinho ou do Mexia, que versando os mais variados temas acabam sempre por ser em grande parte sobre si próprios. Também não gosto, já agora, e como o Bruno também não gosta, de críticas de cinema sem sabor algum, como se se estivesse a analisar uma amostra de sangue. O problema está em saber que temas é legítimo usar em crónicas -eminentemente pessoais, legitimamente umbiguistas, onde o exercício de estilo e o humor têm um papel crucial, etc. Considero que não é legítimo, numa revista séria, usar como tema pessoas recentemente mortas, ainda para mais quando (socialmente) próximas e quando se faça humor sobre elas. Não considero que isso seja “matéria-prima” aceitável para esse exercício legítimo de escrita em público. E só por isso é que me espantei (juízo positivo, não normativo) com o entusiasmo do Lourenço, que estava muito (legitimamente) preocupado com o sucesso da crónica que aí vinha, sem ter (muito legitimamente) mostrado qualquer apreensão com o perigo potencial de pegar numa matéria-prima tão sensível.
3. Fala-se da “personagem” mas também da “pessoa”, Bruno. Uma revista em papel, por muitos bloggers que lá escrevam, e por muito óbvio que seja o carácter “pessoal” da coluna em causa, não é um blogue onde todos conhecem a pessoa que escreve. Há aqui uma descontextualização que não percebo. É certo que aquele texto tem um toque pessoal - e voltamos ao ponto de partida: aquilo não é um obituário, aquilo é uma crónica, sim senhor, mas os mortos merecem um pouco mais respeito do que serem as pedras de gelo ocasionais para um barman entreter os seus clientes.

1 Comment
November 9th, 2007 at 9:54
Acho que o teu principal problema é o facto de isto tudo se passar na Atlântico, como já o disseste. Tens uma visão da revista, daquilo que ela representa e pode vir a representar, que não é compatível com o exercício d’«O Coveiro». Eu, como o Bruno, por exemplo, não vejo as coisas assim e por isso divirjo. Mas divirjo também (acho piada a esta palavra, vou usá-la mais 3 vezes neste comentário) na análise ao conteúdo dos textos do Galvão, que deve estar a pensar «epá, mas eu não divirjo assim tanto do espírito da Atlântico», ao que o Paulo Pinto Mascarenhas responderá questionando-se «mas será que eu, neste momento, divirjo das minhas competências como director da Atlântico?», ao que tu gritarás «mas tenho de ser eu o único que divirjo [sim, eu sei, neste contexto o correcto seria “diverge”, mas não me dá jeito nenhum] desta histeria colectiva?» Enfim, é deixar a poeira assentar, como costuma dizer o José Pacheco Pereira.
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