Wednesday, November 14th, 2007...3:02

Conversas (sur)reais

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1. Publicar vídeos privados, como o caso dos vídeo do arquitecto referido pelo Paulo, é, indiscutivelmente, revelar pormenores da sua vida privada - até porque efectivamente ”reais” (no pun intended). Não há, no cartoon sobre os príncipes, qualquer “revelação” da vida real (idem). Os príncipes fornicam e, como sabemos, até têm obrigação implícita de o fazer. Não há volta a dar.

2. Não pûs em causa que em Espanha não reine o “império da lei”. Discordei de uma decisão judicial - e sei que o Paulo não é ingénuo para achar que uma decisão de um juiz é sempre indiscutível ou que se a pomos em causa estamos necessariamente a pôr em causa o respeito pelo primado da lei. 

3. A comparação comigo é bastante deslocada. Se, por algum acaso, alguém se interessasse por saber com quem durmo e publicasse essa(s) descoberta(s), isso constituiria uma violação da privacidade de (pelo menos) duas pessoas - pela revelação pública de algo que essas pessoas teriam direito a preservar. Quase por definição, numa monarquia os súbditos sabem com quem é que os seus monarcas se deitam (ou se deviam deitar). Não vejo nenhuma ”revelação inaceitável” na sugestão de que um desses casais reais realmente fornica.

4. Claro que a questão não é académica para mim, Paulo. Se fosse académica, tinha escrito em duas linhas um grito à Samurai do Liberalismo, como se a liberdade de expressão fosse um absoluto. Tentei explicar as razões da minha discordância: não há violação da privacidade; não há enxovalho no retrato em si (da “canzana” real); o que há de crítico - a ideia de que os príncipes ganham a vida sem trabalhar - parece-me perfeitamente aceitável e não injurioso; e essa nota não é, de forma alguma, feita gratuitamente, mas sim de modo a, com algum humor, criticar as políticas de incentivo à natalidade de Zapatero.

5. Temo que seja o Paulo quem, ao falar em casos “privados” - o “meu”, o dos “meus pais”, etc -, acaba por pôr uma questão académica, no sentido de colocar uma questão irrelevante (ou “inaplicável”) para o caso. É que aquele cartoon não tem nada de privado nem nada de sexual. É mero comentário político. Ou então sou eu que ando pouco libidinoso. Eu ou outra pessoa sem o estatuto político dos príncipes estaríamos numa situação completamente diferente. Não que não tenhamos ambos - a plebe, os reis e os outros - direito à privacidade. Temos. A questão é que tornar explícito que X e Y fornicam não tem a mesma relevância quando X e Y são dois membros da família real e quando X e Y são o T.M. e mais alguém. De qualquer modo, e colocando-me (o que é difícil) nos pés deles, quero acreditar que aceitaria o cartoon, sim senhor.

6. Não vi ninguém comparar o “estado de direito” em Espanha e na Venezuela. Alguém viu, para além do Paulo?

8 Comments

  • Paulo Pinto Mascarenhas
    November 14th, 2007 at 3:21

    Deves estar então pouco libidinoso, mas não me parece porque deste conta da “canzana” e não só. Se não viste a comparação ímplicita entre Espanha e Venezuela no poste do Daniel Oliveira sobre a decisão do tribunal “em tempo recorde”- título “Porque no te callas?” - parece-me que não é só a líbido que te está a faltar.

  • Paulo Pinto Mascarenhas
    November 14th, 2007 at 3:22

    Mais: tanto o DO como o RT não fizeram outra coisa no que escreveram.”Mas”.

  • vi comparar a legitimidades entre o Rei de Espanha e Hugo Chavez !!

    mas não sei se aplica ao Estado de Direito

    acho que a justiça presente (conceito do DO )não permite tais comparações…

  • Paulo,

    Olhar para aquele cartoon e ver (e escrever) “canzana” é como ouvir um certo nocturno de Chopin e dizer que o modo é menor. Não tem de haver libidinosidade (?) na primeira, como não tem de haver arrebatamento na segunda.

    Se eu bem li o Daniel, ele fala de “(i)legitimidade democrática” e não de “Estado de Direito”, que não são coisas idênticas.

    O problema fundamental é que o Daniel e o Rui são críticos da “autoridade” imanente ao rei e aproveitam - e muito bem - para referir o caso de censura como sendo um sinal de que essa “autoridade” tem um reverso provavelmente menos apreciável para alguns tipos de direita e/ou liberais.

    Tu depois levas a discussão para outros campos, sugerindo, por exemplo, que o Daniel “equipara” isto e aquilo, só porque ele aponta o que pode ser o reverso da medalha.

    Mas já se faz tarde, tomorrow is another day.

    Abraço,

  • Uma nota meio à parte: é possível alguém num estado não libidinoso provocar, por palavras, actos ou omissões, estados libidinosos em outros. Tal como não é preciso estar triste ou alegre para gerar alegria ou tristeza noutros, etc.

  • Caro Tiago
    Paarece-me demasiada elaboração retórica para justificar aquilo que nem é difícil de perceber:

    Os cartoonistas têm o direito de publicar cartoons?
    Sim.
    Quem se sinta ofendido por eles tem o direito de os processar?
    Sim.
    Os tribunais têm o direito de julgar e eventualmente dar razão a uma das partes?
    Sim.

    Qual é afinal a dúvida?

    P.S. Aqui mesmo, em Portugal, considera-se, por exemplo, que o Presidente da República é um Símbolo Nacional.
    Isto quer dizer que se o Tiago publicar uma tirada que o Dr Cavaco entenda ofensiva assiste-lhe o direito de o processar.
    E ao Tiago o direito de se defender.
    E ao tribunal o direito de o condenar, ou não, mesmo que o Tiago ache que o que escrever não é ofensivo.
    A outra parte acha.
    Está no seu direito.

  • Caro José Carmo,

    Talvez não tenha percebido o exercício que eu fiz. Eu não ponho em causa a autoridade e legitimidade do sistema judicial, apenas discordei desta decisão em particular, apresentando algumas justificações para isso.

  • “6. Não vi ninguém comparar o “estado de direito” em Espanha e na Venezuela. Alguém viu, para além do Paulo?”

    “Paulo Pinto Mascarenhas
    novembro 14th, 2007 at 3:22
    Mais: tanto o DO como o RT não fizeram outra coisa no que escreveram.”Mas”.”

    PPM, não leve a mal: você é um gajo esperto, mas infelizmente repetitivamente esperto só para o que lhe dá jeito. Eu escrevi que se os “juancarlistas” falarem da tv suspensa na venezuela, os “chavistas” ripostarão com a revista suspensa e multada em espanha. É uma análise, se quiser com um bocadinho de previsão. Tirar daqui que eu acho que chávez é igual a juan carlos, o regime da venezuela equivalente ao da espanha, ambos iguais ao bush, e todos iguais ao hitler, enfim, é a treta do costume. é do costume. mas é treta.

    Já sei que você tem um problema com a palavra “mas”, uma palavra importante para se poder debater com honestidade. Também já sabia que você tem um problema para distinguir entre associações e comparações, comparações e equivalências, e entre tudo isto e meras coincidências de dois nomes no mesmo parágrafo. Gostaria que você me surprendesse e aceitasse que

    “bla bla bla Chávez bla bla Juan Carlos”

    não é a mesma coisa do que

    “Chávez=Juan Carlos”

    enfim.

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