Wednesday, November 14th, 2007...15:36
O “energúmeno”
Não há nada de pessoal quanto a X ou a Y. Deixo o artigo mencionado (obrigado pelo texto, Shyz), que saiu no “Público” de 22-Jun-03, para os leitores decidirem por si. Quanto a mim, acho que, num texto que fala da Casa da Música, o qualificativo “energúmeno” aparece de forma gratuita. “Besta”, “animal” ou “anormal” teriam, no contexto - sem mais explicações -, um efeito similar.
Daqui não de deduz que tenha de haver reprimenda judicial. Mas tudo começa com a avaliação do grau de gratuitidade do adjectivo usado. E não basta refugiarmo-nos da ideia de que todos os insultos são gratuitos. Primeiro, porque não são. (Quantos ofensas não gratuitas, antes bem explicadinhas, é que Pedro Santana Lopes recebeu nos últimos tempos?). Segundo, porque mesmo que todos fossem gratuitos, teríamos de avaliar o seu grau de gratuitidade. (É esse o trabalho dos juízes, é esse também o trabalho de todos aqueles que não se escudem em considerações gerais sobre um caso particular).
Lembro ainda que, em textos anteriores, o colunista X apresentara razões que explicavam porque é que considerava o político Y um energúmeno. Contudo, naquele texto isolado, que é o que realmente importa para o caso, isso não acontece. A liberdade de expressão tem limites, só que é tão fundamental que qualquer condenação judicial tem de ser mesmo muito bem ponderada.
OS DIAS DA CASA (I)
Augusto M. Seabra
Talvez que a Casa seja uma teoria volumétrica por entre a paisagem urbana, maior que todo o Mundo, impossível de arrumar. Podemo-lo sentir agora, quando pela primeira vez somos convidados a ouvir música na Casa a ela votada, com o Festival em Obra Aberta, no imenso estaleiro da Rotunda da Boavista, podendo descobrir admirativamente como evidência o projecto do arquitecto Rem Koolhaas.Não se desconhecerá que o rumo das acontecimentos se sobrepôs, em imenso ruído de fundo, às músicas que são a razão de ser da Casa. No momento em que o energúmeno que encabeça a maioria PSD/CDS/PCP na Câmara Municipal do Porto e seus apaniguados encetaram uma lógica repressiva de silenciamento, à cata de “delito de opinião”, ainda assim será da Casa e da Música que se falará, porque o que neste momento se nos oferece fruir e avaliar é um projecto cultural de uma envergadura e seriedade absolutamente ímpares. Falar-se-á assim da Casa ainda em construção, para testemunhar como, para além das competências específicas de disciplina arquitectónica, não se pode ficar indiferente a um pensamento teórico, numa concretização impossível de simplesmente arrumar, atentos ao modo como na sua inserção urbana se afigura maior que todo o Mundo, operando em descontextualização para com a paisagem urbana envolvente, e no entanto mantendo com essa uma relação persistente. Como quando se chega ao Grande Auditório (como nomeadamente aconteceu sexta-feira à noite, no concerto da Orquestra de Jazz de Matosinhos com Carla Bley) e se descobre a abertura para o cima do arvoredo e para o monumento da Rotunda da Boavista. Ou quando se pode ir ainda mais acima (como tem sido possível em visitas guiadas, cujo grau de participação aliás manifesta como a obra é objecto de curiosidade e adesão) e se descobre que a volumetria afinal foi pensada numa relação com a altura dessa mesmo monumento. Ou quando se descobre a circunstancial utilização do futuro parque de estacionamento como espaço de uma representação operática, de “Joás” de Benedetto Marcello. Pois, uma ópera…Sem prejuízo do que permanece de indefinido no projecto geral de programação, ainda assim é patente que o edifício não é a única obra que tem vindo a ser construída. Há futuras componentes orgânicas da Casa que têm vindo a prosseguir trabalho. Numa perspectiva de formação, o trabalho do Estúdio de Ópera tem sido dos mais interessantes de seguir. “Joás” é uma obra que pela primeira vez modernamente foi apresentada em realização cénica. Porque aqui de música se falará, há a dizer que a obra é bastante interessante, no primado do sentido da declamação (os recitativos são harmonicamente de raro nível de elaboração), na sua continuidade de modelos que à época (1727) já eram dados como caducos, como a ópera de tema sacro romana, mas também nalgumas surpreendentes ousadias (por exemplo, as entradas “a capela” no coro final). Sucedendo que realização cénica devida a Guiseppe Frigeni foi paupérrima no seu epigonismo para com Bob Wilson, maior relevo ainda era solicitada à realização musical. Eventualmente, aqui se manifestaram alguns valores individuais em formação mas também algumas das ambiguidades que tem enfrentada a concreta gestão e direcção artística da estrutura. No panorama geral da actividade operática em Portugal neste momento incube sobre o Estúdio um nível de expectativas eventualmente demasiado pesado. È um espaço de formação, mas também a única estrutura com um trabalho de equipa continuado na montagem de óperas. O historial do Estúdio mostra uma ambiguidade entre estes dois níveis, que nem sempre tem sido possível gerir do modo mais esclarecedor. Perante o interesse de “Joás”, no momento da fruição era passível lamentarmo-nos que não tivesse antes havido uma realização mais profissionalizada. Mas se considerarmos antes os níveis de expectativa, haverá a delinear que, numa perspectiva de prazo - e, claro, na hipótese da seriedade do projecto não sair agora comprometida -, a Casa da Música não pode deixar de vir a considerar chamar a si a responsabilidade de formação do primeiro conjunto instrumental barroco profissional neste país (que tão evidentemente faltou nesta realização). Suponho igualmente que nas avaliações individuais, não pode nunca deixar de se chamar a atenção para o facto de serem cantores em formação, evitando eventuais exigências excessivas mas também laudas precoces. Por isso, caberá sobretudo dizer que bem se notou quem mais empenhadamente vem trabalhando com professores como Peter Harrison e Luis Madureira, como as sopranos Alexandra Moura e, sobretudo, Magna Ferreira (uma “performer nata, para mais) ou o contratenor Ricardo Ceitil. O trabalho de formação e consolidação que tem vindo a ocorrer já ao longo de anos não nos pode deixar indiferentes ao que neste momento está em jogo, e que é - clarissimamente - a contraposição entre uma prática política feita de ressentimento e autocracia, e o mais importante projecto musical de fundo desenhado em Portugal, e que sem qualquer sombra de dúvida é corporizado por Pedro Burmester. Entre a mais rasteira e ignóbil concepção da política e a seriedade cultural, o ministro não poderá desta vez cultivar a sua habitual dúvida hamletiana. Aos fim de 14 meses Roseta vai ter finalmente de fazer uma opção - e será sempre a ele, pode estar ciente, que exigiremos responsabilidades. N.B. - ” A Casa é uma teoria volumétrica por entre a vegetação, maior do que todo o Mundo, impossível de arrumar”Mário Cláudio - “Amadeu”

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