Wednesday, November 14th, 2007...1:40
Suspiros
Não aceito a decisão do tribunal espanhol que o Daniel Oliveira aqui publicita. Não vejo como é que se pode falar de “injúrias pessoais” ou de “atentado à privacidade” neste caso. A única “ofensa” presente naquele cartoon - humor de primeira água, diga-se - é a sugestão de que a família real não faz puto na vida e que o dinheiro que ganha não vem do trabalho (uma grande novidade, sem dúvida). O juiz menciona isso claramente, ao falar da ilustração e do texto que a acompanha. Não me parece, apesar do texto, que a “honorabilidade” dos príncipes seja posta em causa com este cartoon, que apenas faz uma paródia às medidas de incentivo à natalidade do governo de Zapatero.
Sem entrar numa linguagem excessivamente “maradonística”, não há ali nada de “chocante”. Mal se vêem as maminhas da senhora, o seu rabo é desenhado com dois traços (que nada a maltratam) e do senhor príncipe só se vêem uns pêlos e uns pneus inofensivos (e nada comparáveis aos do nosso primeiro em attire ”t-shirt molhada”). Fornicam à canzana e com uma certa alegria, e?… Não tiveram pelo menos já um filho? Suponho que não tenha sido incubado por outrem. (Se os retratados fossem assumidos celibatários - ex: padres -, a ilustração do acto em si seria, aí sim, bastante ofensiva por si só).
O ”assunto” ali não é o acto sexual. Não se apela a qualquer instinto lúbrico com aquele cartoon, nem se “invade a privacidade” de ninguém. Alguém se excita com aqueles corpos perfeitamente assépticos e brincalhões? Não estamos propriamente a falar das meninas que fazem o gosto dos padres e dos políticos do Vilhena. No cartoon não se sugere (são exemplos) que os príncipes têm um dado fetiche, que o metro e noventa do príncipe não é proporcional ao que se passa lá em baixo, que a princesa quis kitar as nádegas e ficou toda desconjuntada, que ambos se dedicam ao echangisme, que têm amantes, etc. Repito: o único insulto que se pode apontar ali é o de sugerir que os príncipes não ganham a vida a trabalhar. Mas isso é óbvio para todos os “súdbitos”. Daí que, quanto a mim, aquele cartoon até acabe por ser uma celebração - e não uma crítica - da forma como os espanhóis vivem (de bem) com a sua monarquia.
Interpreto o post do Daniel Oliveira de forma diferente da do Paulo. O Daniel, se bem o leio, não “confunde” coisa nenhuma. Ele faz um exercício legítimo e até bastante simples, ao notar que a “autoridade” presente nas palavras que Juan Carlos dirigiu a Hugo Chávez - que encantou muita gente à direita e que ele critica - é a mesmíssima autoridade que terá determinado - ou pelo menos influenciado - o desfecho deste triste caso de censura. O único paralelo é, a meu ver, esse. O Daniel Oliveira “lembra” que o reconhecimento (por via não democrática) de autoridade a alguém tem a ele associado, geralmente, a aceitação de certos benefícios. No caso, o da limitação da liberdade de criação artística. Sublinho “liberdade de criação artística” e não “liberdade de expressão”, porque só uma mente doente pode descobrir, naquele cartoon, publicado num país que vive de bem com os seus “reis”, um insulto gratuito.
Na grande discussão que vai por aí sobre o que disseram o rei de Espanha e Zapatero, aprecio mais a postura de Zapatero, mas fico contente com a reacção de Juan Carlos. Se me exigissem um “sim” ou “não” sobre isso, eu diria que estou com o rei. Mas estou (cá está o “mas”) com ele porque vejo aquele comentário mais como um desabafo, um pedido, um lamento do que uma ordem. Chamem-me ingénuo por “não ver o alcance político daquele gesto, naquele contexto”, mas, genuinamente - e vi o vídeo algumas vezes -, vi aquilo mais como um gesto de quem procura, apelando à consciência do outro, um regresso à serenidade do que um “Cala-te!”, próprio de quem se acha em posição de dar ordens a alguém. Ele não “mandou” nada, ele “suspirou” em voz alta, que não a berrar. Quanto à censura ao cartoon, é uma vergonha.

9 Comments
November 14th, 2007 at 2:12
Põe-te na posição do príncipe, ou talvez de Letizia, Tiago. Literalmente, na capa da revista. Ou põe os teus pais, desculpa o exagero, mas às vezes é preciso. É sempre a melhor forma de avaliar um caso.
November 14th, 2007 at 2:42
[…] os atlânticos Suspiros […]
November 14th, 2007 at 3:11
mas penso que a sua visão é um pouco ingenua, acerca do que se passa em Espanha ! ou talvez seja a minha
“O Presidente da República Manuel Azaña, em um de seus muitos discursos, disse que preferia ver todas as igrejas de Espanha incendiadas a ver uma só cabeça republicana ferida.”*
O fiel seguidor do Presidente “mata-padres” Manuel de Azaña,nos dias de hoje
http://www.elpais.com/articulo/e…lpepunac_18/ Tes
November 14th, 2007 at 3:35
elpais.com/articulo/espana/Zapatero/afirma/Espana/sono/Azana/aproxima/actual/elpepuesp/20071106elpepunac_18/Tes
November 14th, 2007 at 10:16
O que o Tiago quer dizer é que na realidade os principes até ficaram muito felizes com o cartoon. Tanto que o mandaram emoldurar e pendurar no salão de retratos oficiais. Acho que até vão organizar um concurso de cartoons sobre o tema: “debuja los principes e los reyes follando”
November 14th, 2007 at 10:37
Depois de ter lido o que li aqui (http://www.atlantico-online.net/blogue/2007/11/13/ler-os-outros/#comments), confesso que não esperava encontrar um “outrém” por estas bandas …
November 14th, 2007 at 10:44
A “justiça” espanhola a funcionar.
Justiça e monarquia são unas em espanha.
E é neste pais (espanha ) que um rei (não democraticamente eleito como todos osreis) manda calar a boca a um presidente democraticamente eleito.
Mais uma “grande lição” para o mundo de espanha.
Afinal eles estão bem pior do que Portugal.
Que fiquem bem e do lado de lá da fronteira.
November 14th, 2007 at 14:25
Caro Joao,
Obrigado pela correccao. E’ um erro que me persegue, com esta nota sera’ certamente mais improvavel que o volte a repetir!
Um abraco,
November 15th, 2007 at 15:27
[…] Mas para uma Espanha que se vê em mãos com uma inteligentzia esquerdista e republicana aguerrida, esta é cereja em cima do bolo. Chávez é como o menino de coro repreendido pelo mestre. Se formos até questões sócio-históricas e psicanalíticas, a Espanha colonizadora levanta de novo o braço opressor contra uma venezuela de pobres, coitados e oprimidos. […]
Leave a Reply