Wednesday, November 21st, 2007...19:30
Marxismo-Liberalismo Social
Code orange: detectado um marxista-liberal no Movimento Liberal-Social.
O Luís Lavoura, que, já sabíamos, é um defensor assumido da liberdade de expressão absoluta, sem qualquer limitação, explica-nos neste post que um hotel que despede um cozinheiro com HIV não o pode fazer invocando “justa causa”. (Note-se que falo no caso em abstracto - ou seja, de qualquer caso que satisfaça as condições descritas - e não num caso em concreto). Isto porque, caso exista contágio, é (praticamente) impossível a quem sofra um contágio por essa via fazer prova de culpa do cozinheiro do hotel nesse contágio. (Uma impossibilidade que referi aqui, antes de ter ido ler o post do Luís Lavoura).
A ideia marxista-liberal aqui presente é a de que “se não existir qualquer possibilidade de a empresa sofrer um custo directo proveniente de uma acção ou escolha X, a empresa só pode ser totalmente indiferente a X.”
(Em que X pode ser, por ex., “manter um cozinheiro com HIV em funções”).
Implicitamente, os donos de um hotel (repito que falo de um caso abstracto) não podem nunca despedir alguém com base em ideias destas, que remontem ao que quer que seja de “ético” (horror dos horrores). Como o Luís Lavoura nem sequer se preocupa com o facto de (1) a probabilidade de contaminação ser mais ou menos elevada ou (2) o cozinheiro poder agir com dolo (mais uma vez, relembro que me abstraio do caso), mas apenas com a ideia, incontornável, de que é impossível provar que um determinado cliente foi contaminado por aquela via, deduz-se que o hotel deveria ser também indiferente a uma situação em que (1) a probabilidade de contaminação é de (por exemplo) 2%, mesmo não havendo dolo ou (2) existe dolo e a probabilidade é ainda mais elevada.
Se se tratasse de um chef famosíssimo, que por hipótese (e para levar a ideia de LL ao extremo) tivesse prazer em contaminar pessoas e o comunicasse aos seus superiores, estes não só aceitariam essa “pancada”, como lembrariam que isso - uma vez que é impossível fazer prova de um contágio - é irrelevante face às perspectivas negras que seriam perder esse famosíssimo chef.
Quem estiver a ver mal as coisas e achar que:
(i) é relevante, para este argumento, o facto de uma contaminação com dolo levar, provavelmente, a um “padrão” eventualmente reconhecível de “novos infectados”, imagine que todos os clientes desse restaurante têm múltiplos parceiros sexuais, com os quais praticam sexo desprotegido;
(ii) é relevante, para este argumento, o facto de uma contaminação “generalizada” levar, pelo menos a longo prazo, a que o número de clientes habituais desça, assuma que se trata de um hotel/restaurante que recebe sobretudo turistas ou, de qualquer modo, clientes necessariamente ocasionais. Se preciso for, assuma que existe uma cláusula que impossibilita a qualquer cliente voltar duas vezes a esse restaurante.
(iii) a hipótese de contaminação com dolo é “inverosímel”, não entendeu a natureza de um exercício abstracto em causa e talvez possa - mas isso é desnecessário para rebater o ponto - considerar uma revisão de algumas ideias feitas sobre a natureza humana;
(iv) o Luís Lavoura poderá ter razão no caso concreto - ao achar que a invocação do HIV do cozinheiro foi um mero pretexto para poder despedi-lo, nada tendo que ver com qualquer preocupação ética - também não entendeu a natureza do exercício proposto.

1 Comment
November 21st, 2007 at 20:22
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