Saturday, November 24th, 2007...8:00
As nossas guerras
Rui Ramos
[Público 21.11.07]
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A prioridade televisiva de que goza o futebol impediu-nos ontem de continuar a seguir o documentário de Joaquim Furtado “A Guerra”. Não vou comentar a série, que nem chegou a meio, mas apenas tomar a deixa dos que a festejaram como tendo quebrado um “tabu” e preenchido um “vazio” na nossa “memória colectiva”. É curioso. Nas livrarias, prolifera a literatura sobre a guerra de África. E se fosse preciso provar o interesse geral, bastariam as audiências da série, que até justificou um “Prós e Contras”. No entanto, é verdade que a “guerra” não tem em Portugal o lugar público que, por exemplo, a guerra do Vietname tem na América. A sua memória é sobretudo privada e corporativa. O que falta para a sentirmos como “nossa”?
A guerra de África afectou-nos muito mais, enquanto população, do que o Vietname afectou os americanos. As campanhas em Angola, Moçambique e Guiné entre 1961 e 1974 representaram o maior esforço militar de um país ocidental desde 1945. 800 mil portugueses fizeram serviço militar em África. Não foi, porém, o único esforço feito por Portugal no século XX, e também não foi o único esquecido. Há uma semana, passou mais um 11 de Novembro. Em Portugal, lembra castanhas assadas. Noutros países, o armistício de 1918. Na Grã-Bretanha, é o “Remembrance Day”, a razão pela qual vemos os políticos, jornalistas e apresentadores de televisão britânicos com papoilas na lapela. Em Portugal, não é nada. E no entanto, cerca de 100 000 soldados portugueses combateram em Europa e na África entre 1914 e 1918. Morreram mais portugueses em combate na Flandres num ano, entre 1917 e 1918, do que durante 13 anos de guerra em Angola entre 1961 e 1974 (1380 contra 1098).
Há uma primeira explicação para a escassez de memória pública. Estas foram guerras numa sociedade politicamente polarizada e comprimida. A intervenção na I Guerra Mundial foi a guerra de Afonso Costa, da esquerda republicana e da sua “ditadura da rua”; as campanhas de África, a guerra de Salazar, da direita nacionalista e da ditadura da PIDE. Foram guerras de partido, que não acabaram bem e arruinaram os seus promotores. Foram também guerras feitas à custa de uma população rural e analfabeta, deficientemente integrada no Estado: disponível para servir, pouco preparada para se entusiasmar com patriotismos oficiais, e pronta para esquecer. As guerras – e sobretudo os decorrentes desaires — ficaram a ser “deles”, dos governantes da ocasião, e não do país onde “eles” arrebanharam gente para as fazer.
Mas ao culpar Costa e Salazar, esquecemos muita coisa. Em 1917, Costa pôs os portugueses na Flandres a fim de arranjar legitimidade internacional para o seu regime revolucionário? Sim, mas também para aceder aos créditos aliados e assegurar a participação portuguesa numa futura conferência de paz. Teriam sido objectivos de qualquer regime português. Não por acaso, o rei D. Manuel, no exílio, apoiou aqui o governo republicano. E em 1961, Salazar não era o único que, apesar da gravitação do país em direcção à Europa (através da NATO, da EFTA e da emigração), acreditava num outro Portugal, ultramarino, ou que duvidava trespassar as populações africanas aos independentistas armados (que fizeram, depois de 1974, o que estava previsto). O mesmo pensavam muitos republicanos anti-salazaristas, que nesta época passaram a colaborar com o regime em nome do Ultramar. A França republicana e democrática, dirigida pela esquerda, fez a guerra da Argélia entre 1954 e 1961. Muito provavelmente, um Portugal republicano e democrático também teria lutado, em 1961, pela Angola de Norton de Matos.
Esquecemo-nos também de que, se acabaram em desastre, estas guerras começaram com êxitos inesperados. Em 1917, ninguém acreditava que Portugal conseguisse colocar uma divisão na Flandres. Conseguiu. Em 1961, ninguém (a começar pelos americanos) acreditava que resistisse a um empurrão sangrento dos independentistas. Resistiu, ao contrário dos belgas no Congo. E foram estes sucessos que tornaram as guerras possíveis.
Portugal foi um dos poucos países europeus (com a Suécia e a Suíça) a escapar, no século XX, a campanhas militares prolongadas no seu território. As nossas guerras envolveram muita gente, mas ao longe. Também não foram excessivamente sangrentas: a gripe de 1918 matou muito mais do que as expedições à Flandres e a África, e os acidentes rodoviários nas décadas de 1960 e 1970 também muito mais do que as novas campanhas africanas. Talvez por tudo isto, tendemos a esquecê-las. No entanto, sem essas empresas militares a história de Portugal é incompreensível. Foi a I Guerra Mundial que criou o exército enorme, cheio de milicianos, que fez o 28 de Maio. E foram as campanhas de África que geraram um outro exército enorme, também cheio de milicianos, que fez o 25 de Abril. 48 anos de ditadura, e 33 anos de democracia: para além dos mortos e dos traumas, eis o que, até ver, devemos às nossas guerras.















6 Comments
November 24th, 2007 at 15:16
É muito raro ler um artigo do Rui Ramos sem que aprenda alguma coisa — falo por mim, naturalmente.
November 24th, 2007 at 16:02
Uma comparação muito interessante. Na 1ª guerra mundial morreram 1400 portugueses. Em toda a guerra de Angola, morreram 1100. E em 1976, morreram em acidentes rodoviários 2500 portugueses. Tantos como nas duas guerras juntas. Com a peculiaridade de que esses 2500 mortos se repetiram em 1977, e em 1978, e em 1979, e em muitos anos subsequentes.
November 24th, 2007 at 16:34
“A guerra de África afectou-nos muito mais, enquanto população, do que o Vietname afectou os americanos. As campanhas em Angola, Moçambique e Guiné entre 1961 e 1974 representaram o maior esforço militar de um país ocidental desde 1945. 800 mil portugueses fizeram serviço militar em África.”
A grande maioria das famílias portuguesas, sofreu com a guerra.
Eu só conheci o meu pai com quatro anos. Um primo meu, morreu quando pisou uma mina.
Apesar de concordar com Rui Ramos, não vamos relativizar o impacto da guerra, nos últimos 40 anos da nossa história.
November 24th, 2007 at 16:59
” Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer-
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro…
É a hora!
O ” Nevoeiro “, de Fernando Pessoa
November 24th, 2007 at 17:30
“Apesar de concordar com Rui Ramos, não vamos relativizar o impacto da guerra, nos últimos 40 anos da nossa história.”- Luis Fonseca
pois, pois, mas o impacto da nossa participação na 1ª Grande Guerra, já podemos!!??
November 25th, 2007 at 13:08
O artigo do Rui Ramos é um artigo exemplar, como sempre, mas permitam-me o desacordo quanto às marcas que as guerras deixaram, a guerra de África marcou os portugueses muito mais do que parece, as feridas ainda estão longe de cicratizar e ainda é cedo para que se possam fazer comparações com a guerra de 1914/18, embora existam analogias, e muitas! Ambas as guerras foram escritas com tinta do engano e da traição aqueles que se encontravam, de facto, na frente da luta. Os rapazes que ficaram em La Lys não tinham munições porque foram esquecidos, os ventos em Portugal mudaram, os germanófilos passaram a mandar na tropa e o melhor da nossa juventude pagou com a vida essa mudança. A matança foi de tal maneira que até as metralhadoras alemãs tiveram pena… E a guerra de Àfrica? A traição aos heróis nem sequer foi assim tão diferente, lembram-se daquelas três companhias de militares pretos de etnia fula? Portugueses autênticos, foram abandonados porque também os ventos mudaram em Lisboa, desta vez passaram a mandar os pensadores vindos das capitais europeias e os desertores vindos de Argel. Mas desta vez a vergonha ainda foi maior porque Portugal deixou fuzilar os seus heróis à queima roupa. O país está à espera que aqueles que combateram em África morram, morram todos de velhice, de doença e de abandono, só depois a história poderá ser toda contada. Um país que não se lembra dos que caíram, não tem memória, não existe, e se existe tem certamente a consciência pesada.
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