Sunday, December 2nd, 2007...17:42

A caminho que se faz tarde

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Lamento desdizer o CAA mas não há fractura nenhuma. O projecto Atlântico nunca quis ser apenas um projecto de direita liberal, é, posso dizê-lo muito mais que isso. É um espaço único na direita portuguesa em que as várias tendências da direita têm, provavelmente, pela primeira vez, voz.

Levar a cabo um projecto destes não é fácil, nada fácil. Ao contrário do que muita gente pensa o dinheiro não abunda por estes lados (por muitas razões que não vêm ao caso) e começar um projecto de raiz nestas circunstâncias obrigou a muita gente a fazer das tripas coração. Apesar de ele não precisar que o elogiem, o grande timoneiro desta nau, Paulo Mascarenhas de seu nome, conseguiu. Foi buscar gente que ele acha que tem talento e que pode trazer qualquer coisa à tarefa que é construir a direita portuguesa, algo que nunca foi feito. Para ele toda a minha admiração (a amizade ele já sabe que a tem).

Todos sabemos que as piores guerras são as que se dão dentro de casa. Ainda se torna pior quando não sabemos quantos quartos essa casa vai ter ou se cabemos todos nela. Tenho para mim que ainda é muito cedo para sabermos quantos quartos vão ser precisos ou se cabemos todos. Por enquanto, estou seguro, todos têm o seu lugar porque ainda estamos a construir a dita casa. Ainda andamos todos de martelo (sem foice, porém) na mão a ver onde as coisas encaixam.

Sinto em muito do que vejo escrito que há ali mais conversas com nós próprios do que propriamente com os outros. É normal. Cada um de nós também anda procurando o caminho. Reconheço que uns mais que outros. Uns há que pela idade, responsabilidades ou convicções profundas parecem já ter encontrado o caminho. Bem hajam os homens de certezas, não têm de passar esta via sacra que é viver sistematicamente a questionar-se.


Digam-me a casa onde as pessoas não percam as estribeiras e não se excedam e eu digo-lhes que é uma casa que não me interessa. Traçar limites à paixão é uma contradição em termos. Sei muito bem do que falo. Já fui muitas mais vezes insultado pelos meus próximos do que por pessoas que mal conheço. Já fui aqui insultado e por aqui fiquei. É o preço a pagar por querer construir algo de que não se conhece o fim… Mas, caríssimos amigos, sem paixão não se constrói nada que valha a pena.

Mais importante que tudo, é preciso respeitar acima de tudo um homem (com quem tenho discussões que acabam invariavelmente em berraria) que não merece que ninguém abandone o barco: o já citado PPM. Ele não merece isso.

Quem tem a infinita pachorra de me ler sabe que há pessoas neste espaço com quem tenho mais afinidades. Há gente, até, com quem aparentemente não tenho afinidades nenhumas. Mas nem disso tenho a certeza. Enfim, preços que se pagam por não se ter agenda nem convicções definitivas, repito.

Posto isto, “chill” e vamos todos trabalhar que temos uma casa para construir.

28 Comments

  • “Posto isto, “chill” e vamos todos trabalhar que temos uma casa para construir.”

    Liberalismo gay ou Liberalismo cristão !!?

  • boys, listen to the Captain and obey…damn it! :) (otherwise, prepare for a swim with the sharks

    Concordo com o PML mas suspeito que o que se está a passar aqui é algo de muito natural: o explicitar de uma fissura filosófica que transcende as psicologias dos warring parties, uma fissura que separa, há muito, liberais clássicos (walzer, rawls, brian barry) e neo-liberais-conservadores de direita (hayek, mises, friedman etc). As diferenças no campo dito liberal começam a cristalizar-se, a assumir forma, e isto é muito salutar, julgo eu. Quando Vos visito fico com a sensação de que, nesta casa, o Dick Cheney convive alegremente com a Hillary. Não funciona, apesar dos meus sinceros desejos de unidade.

    Eu nunca gostei daquilo que o André escreveu, por razões que são exclusivamente ideológicas. Nem sequer conheço a criatura. Já não o leio há muito. Não me suscita qualquer interesse. É morbidamente conservador e compartilha com um outro amador do luso-liberalismo, o Sr João Miranda, uma visão puramente economicista do liberalismo. Compartilham também uma contradição da qual nunca se livrarão, qual enxaqueca infernal: liberais no mercado, conservadores nos morais. Não faz qualquer sentido. É uma inconsistência fatal que perseguir-lhes-á como um felino esfomeado. Desejo o melhor ao felino e, se pudesse, afiava-lhe as garras…de graça!

    Como liberal (Milleano) confesso que estas disputas agradam-me: clarificam as coisas. O André tem pouquíssimo em comum com o Tiago, pouco mais do que a bendita educação, suponho eu.

    Os NEO-liberais portugueses tem muito em comum com os neo-liberais conservadores Americanos. Não conhecem Rawls. Não falam de Walzer. Nem de Brian Barry. E, pior, nunca evocam John Stuart Mill, o pai do liberalismo. Citam hayek, friedman e mises. São filhos de Reagan e de Thatcher, de Locke e de Adam Smith. Não tem nada que ver com Roosevelt, nem com Churchill*(qualifico, com muito gusto). São duas famílias inimigas, de facto. Uma descende de alguns filhos ilegítimos que, ressabiados, usurparam o bom nome da sua ascendência. A outra, esta antiga família liberal a que pertenço orgulhosamente é estável, funcional e, claro, majoritária. Wait for Hillary boys! She is going to rock your sorry asses!

    E a fissura assenta no seguinte. Os liberais clássicos começam com a concepção liberal do indivíduo E DA sociedade. Os neo libs conservadores começam e acabam com o homo economicus e relegam para a tradição a tarefa ingrata de organizar “espontaneamente” a ética social.

    Em suma, o Tiago pertence, a meu ver, ao liberalismo Milleano clássico. O André é um conservador. No mistery here.

    Antes de construir a casa escolhem-se os construtores…com muito cuidado!

    boa sorte

  • Pedro Marques Lopes
    December 2nd, 2007 at 19:12

    Caro Ezequiel,
    Este pobre ignorante pouco conhece e pouco leu desses, com certeza, brilhantes senhores. Restam-me meia duzia de convicções e mesmo essas …
    Um abraço

  • camon Peter

    Se não os leste então o elogio é redobrado. Chegaste às mesmas conclusões..sozinho..which makes you a brilliant man! :)

    Abraço,

    all the best mate! (its a pain in the ass, I know)

  • O liberalismo clássico é o do Roosevelt e Hillary (e de Churchill, esse feroz opositor da concessão do direito de voto às mulheres) , Adam Smith, Locke e os filhos deles foram uns usurpadores, uma cambada de neo-liberais.

  • Pedro,

    «Lamento desdizer o CAA mas não há fractura nenhuma. »

    Quando falei em ‘fractura’ não me referia a situações internas do Blogue Atlântico ou da Revista. Ou seja, nada disse em relação a questões em relação às quais não sou tido nem achado.

    A ‘fractura’ de que falei é entre duas direitas liberais que se uniram, circunstancialmente, mas que são, essencialmente, opostas: os que julgam o liberalismo como um resumo de lógicas económicas; e os que vêem o liberalismo como um todo, feito de direitos fundamentais, de valores como a tolerância e o respeito pela dignidade humana e liberdade económica. Como escrevi, há uma ‘fractura’ indisfarçável nos liberais (repito, não me refiro à Atlântico) e que com essa confusão “continuaremos a confundir liberalismo com os gestos antigos e mal reciclados dos que tudo fazem para que a liberdade não sobreviva em nenhuma das suas várias dimensões”.

    Mas, para que não subsistam más interpretações, não irei escrever mais nada sobre o assunto, nesta fase.

  • Corrijo:
    «Ou seja, nada disse sobre questões em relação às quais não sou tido nem achado.»

  • “liberais no mercado, conservadores nos morais. Não faz qualquer sentido”

    Caro Ezequiel, não só faz sentido, como tem referências de vulto.
    Aron, Tocqueville, Oakeshott, Scruton, etc.

    Claro que nem estes nem o João Miranda, nem o André, pelo que leio deles, se encaixam nesse rótulo de apenas “liberais no mercado”.
    E essa de dizer que Hayek ou Friedman não tinham valores para além da economia, é uma grande simplificação.
    Mas compreendo que dá jeito fazer caricaturas…

  • “de Churchill, esse feroz opositor da concessão do direito de voto às mulheres”

    Hummm, e que tal Salazar, esse feroz partidário do direito de voto das mulheres?

    E da 1ª República, essa feroz opositora da concessão do direito de voto às mulheres”?

    Por este caminho não chega lá, meu caro….

  • Caro José

    Já lhe respondo, com mucho gosto. Tenho q ir ao cinema. Até já.

    cumps

  • Ezequiel e José Carmo,

    E os democratas Sharon e Olmert, ferozes adversários da concessão do direito de voto aos que não tenham a sua religião, em pleno séc. XIX ?

    Além de defenderem também a conformidade à democracia de manter na prisão sem julgamento 12.500 presos políticos, fora os que são logo executados sumariamente ?

    Em que grupo de liberais é que cabem estes espécimes ?

  • de retorno de uma fantástica e merecida imersão num excelente trama hollywoodesco.

    Caro José,

    cita estes senhores.

    “Aron, Tocqueville, Oakeshott, Scruton, etc.”

    O único trabalho de referência que eu conheço do Sr Scruton é a Dictionary of Political Thought, no qual trabalhou como editor, se bem me lembro. Espero não parecer petulante mas, francamente, considerar Scruton uma referência do liberalismo é um flight of fancy. Apenas a minha opinião.

    Oakeshott, se bem me lembro, foi, acima de tudo, um conservador. Não sei que imenso talento de confabulação filosófica é que o transformou num liberal (mas digo mais a seguir acerca do conservadorismo liberal que tanta peripécia tem causado).

    Quanto a Aron, não me parece que seja uma referência no pensamento liberal, apesar de ser um pensador (anti-dogmático) de primeira ordem. Demoraria muito tempo considerar todos estes grandes senhores aqui.

    Como é sabido, o liberalismo tem várias correntes. Uma delas auto-intitula-se de liberal conservativism e assenta, julgo eu, na tentativa de reconciliar a organicidade da tradição, da vivência comunitária espontânea (nada como um pouco de espontaneidade NO contexto da TRADIÇÃO. Detectam alguma inconsistência lógica aqui?? uummm, está aqui, mesmo à frente dos nossos elegantes narizes!) com a criatividade do humano, mais precisamente com a criatividade do mercado. Tradição e espontaneidade. Não será necessário amiudar mais as coisas.

    O LC, como prática política e económica, teve o seu zénite com Reagan e Thatcher, suponho eu. Os mais oportunistas poderão dizer que um bom liberal que se preocupa com a defesa das tradições liberais será, per force da implicação lógica, um distinto conservador. Todavia, antes de nos apressarmos a congratular o recém chegado conservador liberal (ui, que isto até me dá tonturas!), talvez fosse sensato compreender o que é, EXACTAMENTE, que este conservador terá que defender?? O liberalismo é um sistema filosófico complexo, mas se tivesse que escolher a defining essential characteristic escolheria a defesa da liberdade como condição existencial??? Ora, não será necessária uma extensiva exploração do significado de liberdade para perceber que a liberdade (sem termos que qualificar ad nauseum o debate com nuances) só pode ser reconciliada com o conservadorismo através da supressão de uma contradição flagrante. Ou seja, o nosso conservador liberal teria que afirmar: sim eu defendo a liberdade criativa do humano (que pode inventar tradições) mas defendo também que a sua essência é conservadora. Preservar uma actividade criativa NÃO é ser-se conservador. É apenas e exclusivamente defender a continuação da actividade artística. O LC é, na minha não tão modesta opinião, um non sequitur. Um dead end. Cul de sac. E reparem que a contradição apresenta-se no nível mais elementar da contra-distinção liberdade-conservadorismo. Bem sei que muitos, incluindo Oakie e outros, tentaram esta reconciliação. Mas, sinceramente, não me parece defensável ou plausível. O Liberalismo Clássico é internamente consistente. O dos LibCons não é. Não podemos substituir por um (hipotético) estado absolutista e opressivo, o arqui-inimigo do liberalismo clássico (contra o qual se definiriam direitos de autonomia do indivíduo face ao estado), um conservadorismo igualmente debilitante que, além de imobilizar a criatividade imanente dos indivíduos, tresanda a bolas de naftalina. E, além disso, lamento informar V Exas, os conservadores liberais, que o conceito de comunidade orgânica (dos valores absolutos, das tradições, dos chazinhos e restantes adornments) que vos era tão caro já foi radicalmente reformulado pelo pensamento liberal “clássico” (ou seja, foi re-interpretado à luz dos princípios clássicos): uma comunidade de indivíduos que sabem deliberar e que dispõem de autonomia para o fazer o que implica necessariamente a capacidade de mandar tradições à fava se elas não forem consistentes com a mais elementar das sensibilidades liberais: a própria liberdade. (espero que não me acusem de “absolutizar” a liberdade)

    As minhas desculpas pela extensão do texto. Optei por dar a minha interpretação. Mas, se interessados houver, poderemos continuar a conversa.

    Cumprimentos a todos & Peace! eh ehe e:)

  • A meu ver, os trabalhos de ref do liberalismo contempo são:

    Rawls, Dworkin, Rorty, Scanlon, Barry, Walzer e muitos outros…

  • Caro Ezequiel, acho que o conceito que usa para classificar o “liberalismo de mercado” é uma caricatura.
    Claro que é livre de chamar “liberalismo” ou “neoliberalismo” aos demónios , às forças do mal, etc. Tal como se pode chamar “democracia” ao comunismo norte-coreano.
    Orwell chamou a isso “novilíngua”.

    Quanto a Aron, era inequivocamente um liberal e um conservador. Ele mesmo se reivindica como tal nas suas Memórias.
    Scruton foi até condecorado por Vaclav Havel. UM conservador, sim, mas um liberal na remissão ao que seu significado mais básico: a liberdade e o indivíduo.
    Esse liberalismo que se foca no indivíduo e em torno dele parte para a estrutura da sociedade.
    Os direitos negativos, aqueles que definem o nosso núcleo inviolável.
    Disse muito bem…o liberalismo (um tipo “ideal” no sentido dado por Weber) é um núcleo de ideias que se desdobram em várias “espécies” (económico, político, filosófico, etc) e graus.
    Essas ideias centrais são a rejeição do holismo reificação das entidades colectivas, e é isso que marca a sua fundamental distância totalitarismos.

    A sua fraca opinião daquilo que chama o “liberalismo de mercado”, é fácil de compreender: tal como a maioria das pessoas tem dificuldade em compreender que uma ordem espontânea, de baixo para cima, possa ser melhor que uma ordem planeada . Não é “intuitivo”, apesar dos factos (a língua, a matemática, a dinâmica da web, a prosperidade económica, etc não foram outorgadas pelo Gosplan, mas sim criadas na interacção livre.)

    A verdade é que, como disse, o liberalismo contempla uma infinidade de variantes, …Adam Smith, Hayek, Tocquevile, Bastiat, Stuart Mill, Popper, Friedman, Durkheim etc, etc
    Nozik tem uma visão restrita, Rawls uma mais lata mas, no que respeita à sociedade, que é afinal o que interessa aqui, o liberalismo resume-se a concebê-la como sendo composta por indivíduos que procuram maximizar o seu bem-estar, pelo que as regras devem ser o mais justas possível. Admite que há indivíduos que têm mais êxito que outros no mercado das aptidões e por isso aceita o princípio de que a recompensa deve ser diferente.
    Aceita as desigualdades desde que sejam funcionais e justificadas, isto é, que se fixem num nível tal que, para as esbater, se prejudicassem todos, a começar pelos mais fracos (Rawls).

    As rejeições caricaturais do liberalismo são como os negacionismos do Holocausto. Vão-se buscar os casos extremos, os outliers, as injustiças que existem em todas as sociedades, pretendendo que “isso” é que é o liberalismo.

    Na verdade, as injustiças que permanecem são exactamente o resultado da menos liberalismo, mesmo daqueles que assim se reivindicam.
    Dou um exemplo: a Europa e os EUA são altamente proteccionistas relativamente aos produtos agrícolas de África. Fazem-no à revelia das boas práticas liberais que aconselham o livre comércio. Se houvesse mais liberalismo, os produtos africanos seriam vendidos livremente no espaço europeu. Ganhariam os africanos e os consumidores europeus que teriam bens mais baratos. Perderiam alguns interesses ligados à agricultura, nomeadamente os produtores.
    A falta de liberalismo apenas beneficia alguns e prejudica milhões. É este sempre o resultados dos mercados altamente regulados.

    A caricatura que o Ezequiel faz do “liberalismo de mercado” é uma espécie de anarquismo económico, uma lei da selva.
    Ora é justamente o contrário. O que se passou na Rússia após a queda do comunismo, foi tudo menos liberalismo, porque este pressupõe uma regulação, um respeito por regras, um direito, bases indispensáveis à confiança.

    O estado liberal é um Estado de Direito. Baseia-se em direitos-de (liberdades), iguais para todos e que o próprio estado não pode violar, mas apenas regular e garantir. O Estado tem funções, não pode é crescer ao ponto de comer a carne de que é suposto ser o esqueleto.

    Porém o liberalismo não é escatológico, não tem uma visão mítica do mundo, é apenas pragmático, o que o desvaloriza aos olhos de quem necessita de uma religião, nem que seja secular.
    Não projecta criar uma sociedade perfeita, não é uma “ideologia” mobilizadora, mas isso não
    impede que seja portador de sentido, principalmente pela ideia simples que lhe está subjacente: garantir a autonomia e o bem-estar do indivíduo. E ter em conta a mão invisível.
    É só esse o programa.

  • De resto, caro Ezequiel, a “contradição” que encontra entre liberdade e conservadorismo, é descascada no nível básico do ensino de Filosofia do ensino secundário.
    No balanço entre um determinismo radical que desonera o indivíduo da acção e da responsabilidade ( o caso do marxismo), afirmando-o como mera emgrenagem de forças que o transcendem, e o libertismo, a ideia de que tudo o que fazemos é determiando pela nossa vontade.

    Ora nem uma coisa nem outra. Sou livre de decidir saltar da ponte abaixo, mas essa liberdade está condicionada ao facto de haver ponte.
    Sou livre, mas existo num tempo, num espaço e num contexto social e cultural que me condiciona naturalemente a liberdade.
    Sou livre de escrever aqui, mas tenho de usar teclas.

  • Engraçado: o senhor José do Carmo tem mais certezas do que os liberais que cita.

    Bem, ainda há dias opus-me a formulas.

    O facto de Aron se considerar um liberal is neither here nor there e a condecoração de Havel pouco me diz. Chorei de rir: é a primeira vez que uma condecoração é citada como argumento filosófico. Brilhante. E qual é o grande trabalho liberal de Havel? Enfim. Santa paciência. É engraçado que estes neo-libs tenham que procurar figuras pouco convencionais para justificar o seu lib-conervadorismo. Mas continuemos.

    O que eu estou a perguntar é se esta auto-designação (lib-con) é plausivel e defensável.

    Nem sequer é preciso perder muito tempo com esta questão. O texto do José Carmo elucida esta tensão, de forma clara. Consideremos então o texto.

    Rejeitam o holismo e a reificação das entidades colectivas. Pois muito bem. Gostaria que me explicasse como é que podemos pensar a “tradição” sem recorrer aos conceitos de holismo e de “entidade colectiva”? A tradição a ser conservada é constituída espontaneamente? De baixo para cima? (primeira grande tensão) O conservadorismo parece-me muito muito parecido com a tal reificação ideológica a que se opõe. Não compreendo como é que se pode acreditar no imenso poder causal da acção humana e ao mesmo tempo defender o conservadorismo.

    Poderá responder que as tradições surgem das acções espontâneas de indivíduos livres e que não devemos interferir nelas porque, afinal, o laissez faire, também se aplica ao domínio das tradições.*
    Reconciliação à vista? Parece-me que não.

    Se olhar com cuidado, esta estratégia de argumentação (acima*), que assenta na premissa que as tradições são constituídas e legitimadas por indivíduos livres, inverte as coisas e devolve ao indivíduo (e não à tradição) a primazia ontológica. Logo, são os indivíduos como actores livres que constituem e legitimam as tradições espontaneamente. Esta tese liberal é profundamente anti-conservadora porque reconhece que a acção dos indivíduos, o poder de transformação da vontade humana, é o factor decisivo. A tradição é, portanto, remetida para segundo plano, no que diz respeito à sua constituição e no que diz respeito à sua legitimação.

    Assim, quando se defendem direitos negativos de não interferência que garantem o exercício da liberdade e da deliberação temos que presumir que as tradições não escapam ao escrutínio critico de indivíduos livres. Quem defende direitos de liberdade tem que aprender a viver com os efeitos da liberdade. E um destes efeitos é, inquestionavelmente, o de questionar as tradições, o que implica, por sua vez, um anti-conservadorismo.

    Não tenho qualquer dificuldade em perceber as virtudes das ordens espontâneas. Também não tenho qualquer vontade de lhe insultar, por ora, apesar de perceber que a sua visão sintética do liberalismo denuncia uma certa ignorância do mesmo.

  • Mudei de ideias.

    “Sou livre de escrever aqui, mas tenho de usar teclas.”

    Argumento brilhante, meu caro. A sério. Evite as pontes.

  • o utilitarismo de Mill (the greatest happiness for the GREATEST number) não é apenas uma doutrina individualista.

    Além disso, o conceito de espaço público, e a sua importância no pensamento milleano, revela uma dimensão social que não deve ser menosprezada, a meu ver.

    talvez fosse sensato separar as águas e não misturar rawls com nozik, etc etc…

  • até na merda do wikipedia podemos encontrar o anti-conservadorismo dos liberais (clássicos)…

    “Liberalism rejected many foundational assumptions that dominated most earlier theories of government, such as the Divine Right of Kings, hereditary status, and established religion. Social progressivism, the belief that traditions DO NOT carry any inherent value and social practices ought to be continuously adjusted for the greater benefit of humanity, is a common component of liberal ideology. Liberalism is also strongly associated with the belief that human society should be organized in accordance with certain unchangeable and inviolable rights. Different schools of liberalism are based on different conceptions of human rights, but there are some rights that all liberals support to some extent, including rights to life, liberty, and property.”

  • “E qual é o grande trabalho liberal de Havel? ”

    Não sabe o que aconteceu na Checoslováquia pela mão de Vaclav Havel e Vaclav Klaus?

    Pois olhe, foi parecido com o que aconteceu na Alemanha Ocidental em 1948, pela mão de Ludwig Erhard, num fim de semana que fez história.

    Na Rep Checa triunfou o liberalismo contra o socialismo. Não acha natural que Scruton tenha sido condecorado?
    Ora pense melhor.

    Quanto às tradições, parece que somos animais de hábitos, e eu confirmo que não passo sem alguns rituais diários, como o café depois da refeição.
    Com o tempo, certos rituais comunitários, cuja origem se perde na bruma do passado, acabam por ganhar a patine da tradição.
    Sou um conservador, e por isso penso que algumas tradições, por traduzirem o direito do homem à continuidade, funcionam como uma espécie de cimento identitário, contribuindo para a coesão interna de grupos, sociedades, organizações e instituições.
    Claro que nem todas aparentam ter esta utilidade.
    Por vezes, face a algumas, ocorre-nos perguntar para que servem.
    As respostas dependem da contigência de cada um, da sua visão do mundo, da extensão dos seus conhecimentos, ou do alcance da sua curiosidade. A maioria delas será limitada e insatisfatória.
    Claro que se ninguém questionasse, não haveria mudança e uma digna equivalente da 2ª Lei da Termodinâmica começaria a fazer das suas, empurrando os sistemas para o seu estado de mínima organização.
    Por vezes é preciso “sangue novo”, ideias novas para evitar a progressiva degradação das organizações e a tendência para se consumirem a si próprias.
    Mas, sendo um animal de hábitos, o homem teme a mudança, excepto quando nada tem a perder.
    Muitas vezes trata-se de tradições úteis, daquela que funcionam como traves mestras, embora isso não seja imediatamente visível, mas outras vezes, sob essa sólida aparência, esconde-se madeira carunchosa.
    A religião, por exemplo.
    O ritual religioso é comum a todas os grupos humanos, e é daqueles que, pela sua aparente irracionalidade, apetece desancar de alto a baixo.
    Não acredito em Deus, e também já tive a minha fase de atirar pedras à vaca, numa altura da vida em que a borbulha abunda e a sensatez escasseia.
    Feliz ou infelizmente, as certezas mata-frades esvaíram-se na proporção inversa da maturidade e hoje, mantendo a mesma total descrença em Deus, criador ou moral, há coisas que não posso ignorar:
    1ª- As sociedades totalitárias que despediram Deus, foram obrigadas a criar religiões profanas, com teleologias e rituais próprios, macaqueando a “alienação” que dizia pretender combater.

    2ª- Os resultados da ausência de Deus foram trágicos, em sociedades como a chinesa e a soviética

    3ª- A base moral e ideológica da nossa civilização e do nosso regime democrático liberal assenta sobre uma herança religiosa judaico-cristã , de tal modo que Nietzche e Hegel não tinham papas na língua quando definiam o cristianismo como uma religião de escravos e a democracia como a versão secular do cristianismo.

    4ª- Na última grande turbação politico-militar do nosso país, foi a imensa força da pertença religiosa que impediu o deslizamento sem luta para o totalitarismo comunista.

    É por isso que, quando ouço e leio baboseiras contra as todas as “tradições”, não consigo deixar de pensar no tipo que vai partindo os pratos, insultando o cozinheiro e criticando o menu, enquanto se vai empazinando com a comida.

  • Ficamos com o testemunho da evolução psico-política do Sr José.

    E eu que queria falar do liberalismo com filosofia política.

    Havel e Klaus NUNCA se identificaram com o neo-liberalismo conservador.

    Eu não critiquei todas as tradições. Apenas disse que estas não desfrutam de primazia no pensamento liberal, au contraire do pensamento conservador.

  • O que acontece em Portugal é muito simples.

    Os conservadores perceberam que sem o neo-liberalismo pouco mais seriam do que uma força política anacrónica. Foi isto que levou Reagan e Thatcher a modernizarem o conservadorismo tradicional, incorporando o liberalismo económico na sua agenda conservadora. Tinham que modernizar a economia mas não poderiam ameaçar os muitos goodies que as “tradições” conferem. Resultou de um estratagema puramente oportunista, sem qualquer fundamento filosófico sólido. Isto é, os neo-lib-cons sofrem de uma malaise conhecida e explorada pela psiquiatria: Jekyll & Hyde. Podem dar piruetas, inventar partidários (havel), invocar Oakie e Burke (que grande liberal!)…mas nunca conseguirão resolver esta contradição (lib vs cons).

    E digo-lhe mais: enquanto a agenda liberal neste país for dominada por neo-lib-cons estarão condenados ao mais ignóbil falhanço. A ambivalência que resulta da coexistência difícil do lib com o cons é o Vosso calcanhar de Aquiles. Nunca serão consistentes. As mudanças (económicas) que são necessárias no nosso país passam também pela cultura política que é, de facto, hiper conservadora. Uma mão lava a outra. Até se conseguirem libertar do ónus do conservadorismo pouco mais serão do que tímidos reformadores. O liberalismo sempre foi uma doutrina eminentemente revolucionária. A história política demonstra-o. Separem as águas: conservadores para um lado e liberais para o outro.

    Tímidos fora!

  • e o que é que isto significa senão a primazia da deliberação.

    “Por vezes, face a algumas, ocorre-nos perguntar para que servem.”

    só mesmo a pachorra de um santo.

  • Caro Ezequiel, o discurso estereotipado e cheio de chavões, como o “neoliberalismo”, é uma caricatura que lhe convém para ordenar o mundo à sua medida.

    Tantas vezes se repete como anátema a palavra do “neoliberalismo ” associando-a a tudo o que de desagradável acontece no mundoe demonizando-a pela fúria da reiteração, que acaba por acreditar na própria image que cria.
    É tralha ideológica antediluviana.

    Não é liberalismo o que vigora em Portugal, país com uma anacrónica constituição socialista, mas sim um sistema patrimonialista, no qual uma classe política burocratizada e as suas clientelas e aliados (empresários protegidos e elites sindicais controladas por partidos e barricadas nas empresas do estado e na função pública) administram o país como se fosse património seu.

    Uma das mais contumazes manifestações da estupidez colectiva, é a vitalidade com que muita gente, por esse mundo fora, sai ao peido e coice para a rua, berrar contra o capitalismo e o “neoliberalismo”, que vai destruir o planeta, empobrecer as pessoas, criar “desigualdades e, quiçá, implantar uma “Nova Ordem” bushista, sionista e sabe-se lá que outras maldades.

    Alguns países europeus já perceberam (UK, Dinamarca, Irlanda, Espanha de Aznar, Rep Checa, etc), mas outros resistem na boçalidade socialista, atribuindo aos demónios “neoliberais” (da mesma forma que as mães invocam a “cuca”) os problemas com que se defrontam.
    No fundo é sempre a mesma coisa. Se alguma coisa corre mal, a culpa nunca é de quem faz asneira, mas do mafarrico de serviço: ontem chamavam-lhe “capitalismo”, e “imperialismo”.
    Agora preferem charmar-lhe “neoliberalismo”.
    É um mero chavão.
    Esta malta não aprende…..

    E eu recomendaria ao Ezequiel, no intervalo das leituras teoréticas, uma leitura do ultimo livro de Alan Greespan.
    Está lá tudo…explicado pela pessoa que esteve na locomotiva das mudanças de paradigma durante dezenas de anos .

    Agora pelo Natal, presentei-se a si próprio e leia.
    Acredito que será revelador.

  • heres my tribute to the great Vaclav and to the great Greenspan (Clinton loved the guy, yaknow)

    dear José, the neolibs i knew about were from chicago and they apparently think of themselves as boys..as a tribe with well know principles and practices, all in all, a pretty consistent bunch, some of them extraordinarilllly clever…I am certain that they would be offended by your distasteful description of them as a mere linguistic or, shall we say,a form of the most unforgivable form of linguistic protistution…not a very nice thing to say!

    They are the neolibs. They exist. They aint a fantasy. Damn, I am certain that they may have a few really nice companies!!! A good, misguided, heart, this noble man. All the best my dear.

    http://youtube.com/watch?v=khiUoVcAr04

    It is I, Renéé. ;)

    eh heh eh e heh he heh e he heh h emme, desculpem-me

  • The It is I, Renée..refers to the allo allo, a fine brit com, not to the boldy en cene in the videophonic shaker

  • All rigth Sophie, I know…a lot of people talk about aliens and UFO.
    That´s why I belive in Santa Claus.

  • Splendid, I am sure Santa Claus will appreciate your help.

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