Sunday, December 2nd, 2007...16:41

O meu ponto final no assunto

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Importa, como diria o Paulo Tunhas, citando O’Neill, “desimportantizar” algumas polémicas à volta deste post - que, de resto, embora de forma “compreensível”, fogem ao que nele se escreve. Para (poder) dar por encerrado o assunto, impõe-se alguns esclarecimentos finais.

1. Não retiro nada do que disse neste post, incluindo os comentários sobre algumas motivações do André Azevedo Alves nas suas cruzadas blogosféricas. Escrevi sobre os textos que ele publica na blogosfera, não na Revista Atlântico, que, de resto, aprecio e algumas vezes elogio. Acontece que, nesses textos, o “programa” que emana dos seus escritos blogosféricos está relativamente ausente. E eu critico esse programa. De forma contundente mas não gratuita. Podia dizer, como agora é moda para alguns, que são “disparates” ou que quem escreve assim “deve ter uma vida muito chata”. O assunto, apesar de minúsculo, é suficientemente importante para que exista clareza nas críticas.

Disse e mantenho que muitas das ideias e dos textos que o André publica na blogosfera são “asquerosas. Nojentas, execráveis, mesmo de puxar o vómito“. Compreendo que a discordância neste tom seja desagradável, mas há tipos de discursos que obrigam a que separem algumas águas de forma clara e frontal. E essas palavras reflectem integralmente aquilo que muitos liberais sentem sobre tais ideias, só que, por motivos vários, não dizem isso em público. É com cada um, não censuro ninguém. Eu falei, adulta e conscientemente. Tomo toda a responsabilidade por tudo o que escrevi.

Os qualificativos “agressivos” do meu anterior post dirigem-se às ideias do André, não à sua pessoa. Da sua pessoa disse que apenas isto: que era “previsível”, “monótono” e “muito educado”. Quem quer que o leia no blogue concordará com isto. Não duvido que os seus amigos achem que os fortes qualificativos que usei para as suas ideias encerrem “ataques pessoais”. É falso. Há muitos paninhos quentes em Portugal, e a blogosfera, um coorte all in all “upper class” e onde a sociabilidade tem (e ainda bem) uma importância grande, não foge à regra. Cada um está como quer e como pode.

2. Não vi, nas defesas do André, uma única pessoa “contra-argumentar” as ideias que expus no meu anterior post, defendendo, por exemplo: (1) que ele nunca apoiou ou simpatizou com o PNR, Mário Machado ou outros membros da extrema-direita, promotoras da violência, do racismo, do uso das armas para vingar as suas “ideias políticas” e uma forma muito peculiar de “tolerância”; (2) que ele mostra, no que escreve nos blogues, ser uma pessoa tolerante para com ideias do lado contrário e com modos de vida diverso; (3) que uma das suas (legítimas) motivações não é contribuir para o sucesso do “programa” da instituição que o inspira - fazer crescer o “reino de Deus na terra”.

Por que será que não contra-argumentaram nada de substantivo e se ficaram por uma “defesa da honra” de alguém que não ofendi na sua pessoa?

Disseram que o André é um intelectual de primeira água, um académico de prestígio e com um futuro promissor. Eu não pus isso em causa e, se me permitem a veleidade, sei isso melhor que muitos. O André é uma pessoa intelectualmente superior, cultíssima, e que sabe perfeitamente o que defende e o que deve fazer para que isso se torne influente. Por analogia (não equiparação), imaginem que alguém acusava Salazar de uma direita reaccionária e intolerante, e que alguém respondia: “mas olhe que ele era um académico muito prestigiado, um grande homem das Finanças…”. Fugir ao assunto, não?

3. Outra analogia: alguém tomaria como “ataque pessoal” a sugestão de que o facto de Paulo Teixeira Pinto pertencer ao Opus Dei não foi totalmente irrelevante na sua escolha como sucessor de (e por) Jardim Gonçalves?

Quando eu sublinho - é “público” - a pertença de Azevedo Alves ao Opus Dei, não é para atacar essa mais que legítima associação. É para frisar que, por detrás de defesa de algumas ideias que alguns incautos identificam como sendo representativas do liberalismo, e que se resumem a pedir “menos estado” em tudo o que é sítio, está a vontade de que o reino de Deus na terra tenha mais pujança; que existam menos entraves a essa grandiosa obra.

O André Azevedo Alves não é propriamente um teocrata porque, do que ele escreve, não sai claro que ele quer “impor” certas coisas à sociedade. Não sugeri tal coisa (tambem não sugeriram que eu tivesse sugerido isso, estou a “balizar” as coisas). Ele leva a água ao seu moinho através da palavra - que facilmente se transforma em espada, oleada num ódio e num fel por tudo o que ponha em causa os desígnios da instituição que o inspira que faz muita confusão a muita gente. São novamente palavras fortes? São. Sobre o que o André Azevedo Alves escreve. Na blogosfera.

Dizer isto é mover um processo de intenção? Em certo sentido, obviamente que sim. Mas alguém que leia o que o André escreve duvida das suas “intenções” e “motivações”? Só se for muito cego. Portanto, se bem a entendo, a questão resume-se, suponho, a eu ser um bocado “desbocado” e achar que, em certas situações, é tão preciso “pôr os pontos nos iis” que o facto de podermos causar desagrado a outros se torna ultrapassável - porque é justo, porque é merecido, porque se impõe que assim seja. Quanto a “educação”, não lembro muitos: lembro apenas o provocador Churchill.

4. Sobre a tolerância haveria muito a dizer, mas pergunto apenas isto: se X é intolerante face a ideias ou modos de vida de outros e Y aponta isso, sem querer calar ninguém, apenas criticando, possivelmente com adjectivos fortes, Y está a ser “intolerante” ou a ser essencialmente “discordante”, e em defesa activa da tolerância original? É defensor da tolerância aquele que fica passivo perante ataques consecutivos a uma sociedade plural e inclusiva?

5. Como aprecio a frontalidade, tendo a ver certos acontecimentos como fracturas salutares e inevitáveis e não como dramas camilianos. Feitio. A educação é importante, todos merecem ser respeitados e o meu respeito pessoal pelo André é o mesmo que tinha antes: o respeito que qualquer pessoa me merece. A minha consideração intelectual por ele é muito grande e, de resto, seria uma cobardia e uma perda de tempo dar atenção a alguém apenas mediano intelectualmente e que fosse minúsculo no debate político em Portugal, em particular nos blogues, e nos blogues de inspiração liberal e conservadora-liberal.

Que o André seja um intelectual destacado, com um lugar conquistado com mérito, é algo óbvio para mim, que o acompanho publicamente há algum tempo. Que ele faça passar certas ideias por liberalismo é algo que não me assusta apenas a mim, mas à generalidade das pessoas, sobretudo àquelas mais susceptíveis de pasmar com ideologias no seu estado puro e messiânico. Eu apenas “discordei”, de forma fracturante, de uma corrente moralmente conservadora e por predisposição reaccionária que, a meu ver, não tem muito de liberal, mesmo que se defendam uma série de liberdades neste e naquele campo. É que a “inspiração” tem muito que se lhe diga. E, numa altura particularmente crítica para o nosso país, em que a custo vão surgindo alternativas liberais ao poder socialista, assusta-me que se venda como alternativa liberal o tipo de discurso do André Azevedo Alves. Just that.

6. Quanto à questão da educação, não mandei calar ou expulsar quem quer que fosse. E a forma como ataquei as ideias do André ficam muito, mas mesmo muito atrás do que ele já escreveu sobre muitas pessoas no seu blogue. Não vou procurar links nem dedicar-me a exercícios de hermenêutica, para descascar os ataques biliosos - mas sempre, na superfície, “muito educados” - do André Azevedo Alves. Eu não lhe quero mal algum, como não quero mal a ninguém. Achei que era necessária fazer uma clara separação de águas, e é tudo.

7. Foi o momento de dizer basta. Sublinho: foi. A vida continua.

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