Tuesday, December 4th, 2007...16:22
8/8 Ponto final, sem dramas
“O escravo tem um amo só, o ambicioso tem tantos quantos são úteis à sua fortuna”. (Jean de la Bruyère)”Sê senhor da tua vontade e escravo da tua consciência” (Aristóteles)
Um último post, sem dramas - como se lê no título - e dizendo não mais que o estritamente necessário para, de forma própria, encerrar o caso.
Duas pessoas tinham legitimidade para me “mandar calar” neste blogue: as que me convidaram para nele participar, o Paulo Pinto Mascarenhas e o Henrique Raposo (e, se não estivesse já nesse conjunto, acrescentar-se-ia o director deste espaço, naturalmente). Há cerca de 40 horas, recebi um email do Paulo com esse teor, “aconselhando-me” a pedir desculpas publicamente ao André Azevedo Alves para poder continuar no blogue - e por este ser um dos conselheiros executivos da revista.
Isto foi dito pouco tempo depois de, publicamente, o Paulo ter defendido “a total liberdade de expressão” no blogue, que “não há nenhuma ASAE caseira” e que “os actos - todos os actos - ficam com quem os praticam”. É verdade que referiu que parte do que eu escrevere “não era (para ele) aceitável”, mas o motivo invocado para a saída do blogue não foi esse.
Surpreende-me que alguém defenda uma liberdade absoluta de expressão no que quer que seja, mais ainda num blogue colectivo, onde várias pessoas colaboram para o sucesso de um projecto e onde têm de existir regras mínimas de respeito e convivência. Mas, enfim, o Paulo escreveu-o, algum motivo - suponho - terá tido para o fazer. A contradição entre o que é dito publicamente e depois em privado não é particularmente grave, à luz do contexto. A situação era delicada, a mediação difícil, o cansaço (da viagem de fim-de-semana) não terá ajudado e nada disto certamente anima quem está à frente de um projecto com empenho. A verdade é que há limites, há sempre limites.
No texto que eu tinha originalmente escrito para este post, incluía um parágrafo em que referia isto: eu consideraria inaceitável escrever algo próximo do que escrevi sobre o André Azevedo Alves relativamente ao “deus” nesta casa - o director - ou mesmo aos seus “semi-deuses” - os membros do Conselho Executivo (Rui Ramos, Vasco Rato, João Marques de Almeida, Luciano Amaral). Se escrevesse tal coisa sobre o director, só podia bater de imediato com a porta - e o mesmo se teria de passar, provavelmente, se me referisse a um membro do Conselho Executivo. Por uma questão de identificação mínima com o projecto e - sim - porque seria inadmissível usar aquele tom para com eles. Acabei por não publicar esse parágrafo (e outros) para não aumentar a crise que se instalou. Dizia, nesse parágrafo, sucintamente, que “a César o que é de César”, que não se pusesse no “Olimpo” quem não lá está.
O André Azevedo Alves, neste momento, é “apenas” colaborador e membro do Conselho Editorial da revista. Suponho, pelo que o Paulo me revelou há cerca de 40 horas, que ele virá a fazer parte do Conselho Executivo a partir de 2008. Não sabia, e o Paulo sabia que eu não sabia. Digo isto para frisar que, se já tinha empatia pela decisão que o Paulo teve de tomar (embora me parecesse desnecessária a contradição entre a declaração pública e o conselho em privado), ela me parece inteiramente racional e justa - à luz do que está para vir e que eu desconhecia. Eu teria feito o mesmo “trade-off”. Apenas não teria, nunca, defendido, liberdades “absolutas”, mas isso é com cada um. Como não estamos a discutir pessoas, mas ideias e princípios, vamos ao que realmente interessa mais em toda esta história.
Como escreveu Carlos Abreu Amorim, na caixa de comentários a este post: “há os que julgam o liberalismo como um resumo de lógicas económicas; e os que vêem o liberalismo como um todo, feito de direitos fundamentais, de valores como a tolerância e o respeito pela dignidade humana e liberdade económica. Como escrevi, há uma ‘fractura’ indisfarçável nos liberais (repito, não me refiro à Atlântico) e que com essa confusão “continuaremos a confundir liberalismo com os gestos antigos e mal reciclados dos que tudo fazem para que a liberdade não sobreviva em nenhuma das suas várias dimensões”.”
Há muitos leitores - ingénuos ou simplesmente desatentos, não lhes levo a mal - que ficaram “chocados” pela minha reacção a um determinado post. É óbvio que não perceberam nada do que se passou aqui. O que o que escrevi sobre o que tem escrito o André Azevedo Alves não foi motivado por “um” post dele recente, mas sim por um acumular de escritos na blogosfera que primam pelo saudosismo, conservadorismo moral e libertarianismo económico - um estado ausente que seja um menor impedimento ao “programa moral” da instituição que inspira o André. Nem a “direita sociológica” de que fala (e que ninguém lhe desdenhe a autoridade) Jaime Nogueira Pinto será tão extremista e conservadora como esta.
Sempre associei os projectos em que vi o Paulo envolvido - O Acidental, as “Noites à Direita“, a Atlântico - como projectos onde existem três coisas essenciais: a qualidade, a pluralidade e a individualidade. Disse-o no primeiro post que publiquei neste blogue. Pareceram-me sempre - nunca fui mais que um mero observador - projectos ambiciosos, virados para o futuro, apostados em conquista jovens fartos da hegemonia de esquerda deste país, do pensamento único e que não têm nada em comum com os saudosistas mais ou menos encapotados que sempre existiram na direita portuguesa. Em suma, projectos plurais mas selectivos. Ninguém, quero crer, admitiria um membro do PNR ou da Frente Nacional num debate das “Noites à Direita”, só porque é “plural”. A pluralidade é essencial, mas aceitar tudo sem critério não é pluralidade, é indiferença.
Eu não digo que o André Azevedo Alves me dá vómitos - isso seria, obviamente, gratuito e inaceitável. Os fortes qualificativos que usei resultam de um conjunto de ideias suas que, na minha opinião, o tornam merecedor desses atributos. Posso estar a ser exagerado ou injusto, mas o facto é que não vi isso abordado, de forma explícita, em críticas que fui lendo por aí. A ambiguidade em relação ao PNR, as tiradas boçais em relação a Pinochet, Salazar ou McCarthy, a crueldade e insensibilidade perante o sofrimento alheio (os incontáveis post dele sobre os palestinianos são exemplo disto, como seria a série anti-LGBT), os links “anódinos” sobre a ciência que talvez “mostre” que os pretos são menos inteligentes, não são “meras excentricidades” ou elementos acessórios em relação a uma posição de direita respeitável, séria, educada, bem fundamentada, coerente e intelectualmente “brilhante” que o André Azevedo Alves supostamente representa.
O André Azevedo Alves não será propriamente confundível com um típico membro do PNR - desde logo porque é bastante mais inteligente (embora, convenhamos, no caso isso não seja difícil de ter lugar). A questão põe-se de outra forma: se concordamos que todos nós temos um “limite” para aceitar que determinadas pessoas tenham um certo peso em determinados projectos, como definir esse limite? Todos traçamos linhas descontínuas relativas a certas ideias (e não necessariamente pessoas, embora não existam pessoas sem ideias): quem não se lembra da “demarcação de limites” feita pelo Paulo Pinto Mascarenhas e pelo Paulo Tunhas ao Pedro Arroja neste blogue? (E estou e estive com eles nisso.)
A exclusão de pessoas com ideias “simplesmente execráveis” (alguns amantes do “chá” prefeririam o adjectivo “disparatadas”) é normalíssima na vida em sociedade. Repito: onde definir o limite? Por que razão nunca vi ninguém insurgir-se contra a “exclusão” de Pedro Arroja de albuma blogosfera apelando à ideia de que “cada um tem a liberdade de o contradizer, mas é necessária uma pressuposição de simpatia, sem a qual não há qualquer compreensão”?
Aquilo que eu escrevi foi motivado por uma coisa muito simples: considero que as ideias expressas pelo André Azevedo Alves são demasiado toleradas à direita - no sentido de não serem “criticadas” suficientemente, e não no sentido de não haver ninguém que as “elimine”. E acho que isso é uma vergonha para a direita que não é reverente a Salazar e que não quer impor morais particulares a ninguém, e que se vende dessa forma - no fundo, com alguma hipocrisia ou, talvez pior, falta de auto-conhecimento, de espírito crítico ou simplesmente de visão. Sendo essa vergonha o essencial, também acho que esse “silêncio” à direita, perante as cruzadas blogosféricas do André Azevedo Alves, prejudica o seu futuro.
Pergunto, então: por que há, à direita, tão poucas críticas ao que escreve o André Azevedo Alves? Será por “medo”? De quê? Porque ele está na revista, e em crescendo na revista? Porque tem as costas quentes? Por preguiça? Porque muitos dos possíveis críticos estão de outro modo comprometidos, temendo perder lugares ou favores? Porque a direita que se diz “moderna” se revê naquele conjunto de ideias e na forma obsessiva, mal educada (sim, a “educação” era ironia, claro que se trata de um mal-criado), propagandista e moralista? Porquê, pergunto? Pergunto mesmo. É que há silêncios que denotam cumplicidade e há cumplicidades que causam estranheza, sobretudo, repito, quando se pensa num projecto com futuro na área da não-esquerda em Portugal.
Não basta defender-se “menos estado” e “mais liberdades económicas” para se ser liberal (”adjectivo”), menos ainda quando as motivações para essa defesa são, em parte, oriundas de um grandioso projecto religioso. Que direita europeia respeitável é que, hoje em dia, olha para as mudanças que vão ocorrendo na economia e na sociedade daquela forma, dogmática, tão pouco compassiva e inclusiva? E não, as diferenças não se reduzem aos ditos “temas fracturantes” - apesar disso facilitar muito o contra-ataque de alguns cérebros muito pouco potentes, que, nos seus patrulhamentos, cheios de processos de intenção, quando não má criação, vêem “politicamente correcto” em tudo o que é sítio. Tratam-se de escolas liberais muito diferentes, com fundações muito distintas. São as diferenças nas raízes que importam, não podemos olhar apenas para os ramos e para as flores.
Para quem não tenha percebido o primeiro post desta série última, é simples: depois de ter tomado a decisão de sair deste blogue - após ler o email do Paulo -, seria no mínimo estúpido não deixar passar algum tempo, para ver tanta gente alegremente a sair da toca e, mais do que isso, para deixar que algum debate acontecesse. Não o fiz essencialmente por mim, apesar do confortável umbiguismo. Fi-lo porque algumas coisas devem ser debatidas - mesmo que, e o Henrique aqui tem toda a razão, a revista deva “falar para fora e não para dentro”. É que, se formos a ver, falar disto é exactamente falar para fora. Há assuntos que não podem ser ignorados. A Europa, a Venezuela, o défice e o Estado social, tudo isso são coisas importantes. É bom não esuecer que falamos de um projecto de direita em Portugal, no Portugal de hoje (expressão horrível, mas às vezes é inevitável), com um determinado passado, e não num “vazio”.
Não vejo como se pode falar de “intolerância” a propósito de algumas críticas minhas. Ser passivo perante intolerantes é incompatível com a defesa da tolerência. Antes da segunda vem sempre a primeira. Eu quero discutir ideias.
Não vou comentar as reacções, em posts e em comentários a posts, que se seguiram ao meu último texto. Da maioria delas, honestamente, só me pude rir. Se a estupidez humana não tem limites, a mesquinhez não andará longe. De tudo o que se viu, destacam-se alguns comentários que descontextualizaram totalmente as minhas críticas, pondo a tónica na questão pessoal. Meus caros: sim, foram ataques fortes, forte e desagradáveis para o visado e para os que lhe serão próximos, mas ataques às ideias de uma pessoa e, repito, não há ideias sem pessoas. É natural que certos ataques sejam contextualmente lidos como ataques pessoais, mas isso resulta da “força” com que se atacam certas ideias e não da “natureza” ou “motivação” do ataque em si - pelo que não são, em propriedade, ataques pessoais.
Onde acabam as ideias e começa a pessoa? É possível fazer uma separação higiénica de algumas ideias sem que essa fronteira ténue não seja tocada? As pessoas são em parte aquilo que defendem, por isso, quando alguém tenta desqualificar uma crítica porque é “ad hominem” ou insultuosa está, muitas vezes, a praticar uma forma de censura, ou a recusar-se, de forma mais ou menos subtil, a enfrentar a substância da crítica. E não vale a pena dizer que no meu primeiro post não fiz um “tratado” com essas críticas todas. O André Azevedo Alves escreve dezenas de posts por semanas há anos, toda a gente que está na blogosfera sabe do que falo. Há ainda - mas isso é praticamente irrelevante, a não ser que insistam na ideia de que o André é uma alma impoluta - o facto de que em muitas críticas que ele (e tantos outros) fazem a algumas pessoas denotam uma falta de educação e de consideração incontornável.
O que se lê, em alguma direita, sobre Pedro Arroja, sobre líderes do Islão fundamentalista ou da Frente Nacional são ataques pessoais? Repito: é melhor atender às ideias do que saltar para defesas pessoais e da honra despropositadas. Eu não posso fazer nada quanto ao facto de o André ser um jovem português que alguns conhecem pessoalmente e por quem têm estima ou amizade e não, digamos, um septuagenário da Nova Zelândia que ninguém conhece pessoalmente na blogosfera portuguesa. Eu critico algumas ideias do André, como criticaria as ideias do hipotético septuagenário. Só isso. Não tento “assassinar” ou “excluir” ninguém, apenas refiro que uma dada pessoa tem, a meu ver, ideias insuportáveis num projecto de direita virado para o futuro.
Se não decidi sair do blogue antes do email do Paulo foi por acreditar que, apesar disso ser até bem fácil - aparecer, superficialmente, como alguém “digno” e “arrependido”, que “tira as consequências” dos seus actos -, não seria o mais útil para fazer a defesa de alternativas (mais)liberais para o nosso país, uma das minhas motivações (não só) neste blogue. Disse acima que teria saído de imediato do blogue, por minha consciência, se tivesse usado aquele tom para com o Paulo ou para com algum dos membros actuais do Conselho Executivo da revista. No caso, tratou-se do André, actualmente (e era a única informação de que dispunha) um “mero” articulista e conselheiro editorial (o que já é muito, todavia, no meu entendimento, não o suficiente para que o episódio impedisse a convivência no mesmo espaço). A “crise” que se gerou foi desagradável, mas também é verdade que há águas turvas que tresandam insuportavelmente. A Lucy e outros (como o Henrique e o Bernardo) têm todo o meu apoio no que escreveram.
Participar num blogue conjunto implica regras mínimas de convivência. Quando vim para este blogue, o André já cá estava. O Henrique e o Paulo tiveram, com grande pachorra e simpatia (e também interesse: afinal, a imagem de “pluralidade” e as audiências também contam), muito insistir para que eu aceitasse o convite, porque temia que alguma ruptura viesse a ter lugar. Desde que entrei para esta casa que o “programa” do André não deixou de se intensificar. Não vale a pena recolher dezenas de posts sobre isto, deixei uma pequena amostra. Quem o lê sabe do que falo, e quem não sabe do que falo, paciência. Saltou-me a tampa, como salta a tampa quando se tapa um tacho com água ao lume com um texto sem buraco de escape. É uma questão de tempo. É provável que tivesse aguentado mais tempo - ou “sempre” - se visse mais algum contraditário, à direita, às suas ideias. Tal não aconteceu. A ruptura, que não premeditei, era, de um ponto de vista externo, inevitável.
Se ser desagradável - muito por não se conseguir escrever, num momento de impulso e em que se sente que é preciso “dizer basta” de forma clara - é o preço a pagar para se poder dizer verdades importantes, sem salamaleques, de forma clara, tendo como consequência o não poder frequentar certos salões sociais, é um preço que aceito, mesmo tendo em conta os danos causados a terceiros. Sempre me ensinaram - família e 9 anos de educação num colégio católico, desde pequenino - a valorizar a “boa formação” e a “boa educação”, mas a dar prioridade à primeira. A olhar mais para o coração do que para a roupagem.
Vim para este blogue, como qualquer mortal viria, com um misto de interesses pessoais e de contribuir para um projecto em que acreditava e que acarinhava. Excedi-me em vários momentos, reconheço-o. Critiquei demasiado, escrevi em demasia, ocupei espaço a mais. Por todos esses incómodos me penitencio. Não conhecer ou admitir alguns defeitos meus não é um deles. Também sei que fui sou “chato”, “mal educado” e “despropositado” para alguns e “persistente”, “frontal” e “corajoso” para outros. É a vida. Mantive-me nesta casa por acreditar que era um espaço privilegiado para a construção de alternativas liberais em Portugal.
Termino com três pontos.
Primeiro, sublinhando que existe muita gente à direita (que eu conheço alguma, acreditem que sim) que suporta as ideias do André Azevedo Alves tanto ou menos do que eu, só que não o diz. (Se eu revelasse alguns nomes publicamente, acreditem que a blogosfera de direita nunca mais seria a mesma).
Segundo, perguntando a quem manda no projecto Atlântico: pode um projecto de direita, virado para o futuro, ter alguém com as ideias e o “programa” de um André Azevedo Alves como um dos pilares? Refraseando: que futuro tem um projecto de direita em que um dos pilares é alguém com as ideias e o “programa” de um André Azevedo Alves?
Terceiro, agradecendo novamente ao Henrique - mas sobretudo ao Paulo - a oportunidade que me deram de estar aqui; e desejando a melhor sorte a todos os que estão no barco que agora deixo, em particular ao seu dedicado e esforçado director, que terá muitas limitações (todos temos) mas não essas duas. Ele está neste projecto de corpo e alma e, como já disse o Henrique há tempos e eu concordo, “Os outros falam, o Paulo faz”. Num país com tão pouco empreendorismo e com tão poucas publicações políticas, o destaque e o louvor são ainda maiores. Faço votos para que a revista possa florescer mais ainda, não duvido que isso possa acontecer, sobretudo por alguns talentos que por lá escrevem. Saio deste blogue sem qualquer ressentimento ou mágoa. Mesmo. Disse o que achei que não podia deixar de dizer e, posto disso, não há mais nada a dizer.

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