Wednesday, December 5th, 2007...1:09
O que é preciso para ser persona grata em Lisboa
Em português antigo, costumava dizer-se que ou há moralidade, ou comem todos. E imagino Robert Mugabe a perguntar-se porque é que em Lisboa só há moralidade para ele. Chegou Hugo Chávez, e Sócrates estendeu-lhe uma passadeira sorridente, Mário Soares foi admirá-lo, e houve até manif. de boas vindas. Mugabe, nas vésperas da cimeira União Europeia-África, leva na cara com o voto de Luís Amado de que, apesar do convite oficial, era melhor não vir. E Soares, sempre pronto a abraçar o próximo anti-imperialista, não protesta; e a esquerda portuguesa, sempre tão vigilante contra discriminações, não se manifesta. O que tem Chávez que Mugabe não tem? O que é preciso para ser persona grata em Lisboa?

Em Lisboa ninguém gosta de Mugabe. Porquê? Porque bate na oposição e alterou as leis necessárias para se conservar indefinidamente no poder? Mas Chávez, na Venezuela, faz e tenta fazer o quê? Chávez e Mugabe pertencem à mesma espécie: revolucionários eleitos, mas decididos a usar o poder do Estado, da forma mais violenta, para que nenhuma eleição possa levar a uma alternância no governo. Um em África e outro na América, ambos apresentam a sua governação revolucionária como uma etapa da “luta de libertação nacional” que para um começou há cinquenta anos e para o outro há duzentos. Dentro do seus países, manipulam o rancor étnico e social contra antigas oligarquias. Ao nível dos respectivos continentes, exploram o hábito das elites dominantes para procurarem legitimidade em ofensivas quixotescas contra os moinhos do “imperialismo”. Então, porquê festejar um e desprezar o outro? E não estou a falar apenas do governo, mas também dos que, entre nós, estão sempre prontos para simpatizar com os libertadores socialistas do Terceiro Mundo.

A primeira razão tem a ver com o inimigo preferido de cada um deles. O de Mugabe é a Inglaterra. É, muito obviamente, o inimigo errado. O imperialismo de Sua Majestade já não comove ninguém pelo menos desde a guerra do Suez. Chávez, apesar da recente distracção espanhola, tem o inimigo certo: os EUA. O anti-americanismo é hoje, no Ocidente, o principal ingrediente da identidade de esquerda. Uma parte da esquerda já não é anti-capitalista. Outra parte já não é revolucionária, contentando-se com o Estado social — aquele mesmo que, há trinta anos, ainda era o mais perverso anestesiante infligido pela burguesia à classe operária. Resta o anti-americanismo. E hoje é também esse o último elo de ligação da esquerda ocidental com as revoluções do resto do mundo. No Ocidente, a esquerda é secularista, relativista e ecologista. Mas fora do Ocidente, já não há revolucionários assim. Chávez benze-se em público, Daniel Ortega proibiu o aborto, e os teocratas iranianos entusiasmam-se com o nuclear. Só o anti-americanismo os justifica aos olhos da esquerda ocidental. Mugabe devia ter atacado mais Bush e menos Blair.
A segunda razão para Chávez, ao contrário de Mugabe, ser persona grata em Lisboa está no petróleo. Já muitos citaram essa matéria escura para explicar a hospitalidade governamental – mas serve também para perceber porque é que Chávez e o seu “socialismo do século XXI” accionam na nossa esquerda os repuxos de compreensão e até elogio que se mantêm secos para Mugabe. No Ocidente ninguém tem estômago para privações, nem mesmo aquelas que se lêem nos jornais. O Zimbabué é um embaraço: 8 000% de inflação, 3 milhões de refugiados na África do Sul – e nem sequer tem os médicos de Cuba. O azar de Mugabe foi fazer a sua revolução num país produtor de alimentos, e escolher como alvo os agentes do sector mais eficiente da sua agricultura. Chávez teve mais sorte: coube-lhe libertar um produtor de petróleo. A renda do petróleo, com os preços a subir, permite tudo. Os príncipes sauditas podem manter uma monarquia absoluta do tempo das mil e uma noites. Putin, na Rússia, imita os czares do século XIX. E Chávez, na Venezuela, faz uma revolução, certo de que nunca lhe faltará popularidade enquanto os lucros petrolíferos lhe deixarem pagar a sua versão “socialista” da política de pão e circo da Roma imperial. Os revolucionários acreditaram durante muito tempo que as revoluções se faziam com ideologia. Chávez provou que se fazem melhor com dinheiro. Na Venezuela, o petróleo substituiu o marxismo.
Quer Mugabe a passadeira de Sócrates, um abraço de Soares, e uma manif.? Não precisa de bater menos na oposição. Precisa sim de se concentrar nos EUA, e sobretudo de arranjar petróleo. Uns milhares de imigrantes portugueses também ajudam, mas não são absolutamente necessários.
[Rui Ramos]
PS. Entretanto, Chávez descobriu a “imaturidade” da sociedade venezuelana. Que continue a educá-la, enquanto há petróleo.
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[Texto da crónica de quarta-feira no “Público“, editada pelo autor]




11 Comments
December 5th, 2007 at 11:38
Oops, este comentário “evaporou-se”, mas aqui está de novo. Gostaria que o tentasse rebater com argumentos credíveis. O meu amigo aceita o desafio, ou vai achar que a barra está pesada de mais ? Vá lá, não seja modesto em demasia. Você tem arcabouço suficiente para debater comigo…Bora !
Oiça lá, e não terá uma certa importância nessa desigualdade de tratamento o facto de Chavez ser eleito democraticamente por larga maioria em eleições limpas, não ter presos políticos (só israel, aquele little shitty country que sonha com um Armageddon apocalíptico, tem 12.500, sem julgamento, centenas de crianças incluidas, fora as execuções sumárias de opositores ao regime de apartheid, às centenas por ano…), nem torturas, nem execuções, e de ter um crescimento ao ano de 13%… enquanto que o ditador Mugabe não gosta de eleições, prende, tortura e executa adversários políticos (embora sem aí chegar aos calcanhares do “povo eleito”), e destruiu completamente a economia ?
Não acha que são razões de peso óbvias para os tratarem de forma diferente ? Em todo o caso razões que deviam ser enunciadas por um historiador minimamente objectivo ? E para se deixar de paranóias neoconeiras (shame on you…) com pseudo-justificações para o que já está bem justificado ?
Chavez não gosta do diabo Bush ? So what ? Mas além dos ridiculos caniches neoconeiros, há alguém no mundo que goste desse macacóide, verdadeiro gibier de potence foragido à justiça do TPI ? E quem lhe disse que só a esquerda é que não gosta desse Anti-Cristo burro, genocida e bêbado ? Acha que 70% dos americanos são de esquerda ? A direita verdadeira, a que não é colaboracionista, enforcá-lo-ia com muito gosto depois de um fair trial…
December 5th, 2007 at 12:09
O Rui Ramos ainda tem muito que aprender para debater contigo, caro Euroliberal. Dá-lhe tempo.
December 5th, 2007 at 12:17
Excelente post.
December 5th, 2007 at 13:17
Sim, sim, abelha. E Salazar era igualzinho a Hitler. Pois, pois.
December 5th, 2007 at 13:18
É preciso ter petróleo e ter portugueses a viver no país onde “manda”.
December 5th, 2007 at 15:51
Mas que grande mistificação que para aí vai. Decerto estava falho de ideias (ninguém é omnipotente)… Se fosse muito anti-americano já era bem recebido? Sério? É que o MNE com aquele ar sugere-me exactamente o contrário…
December 5th, 2007 at 15:57
Rui, seu maroto, sempre a fugir com o rabo à seringa, não é ? Não me diga que ainda se está a preparar… está demorado…Mas se não quiser não faz mal, eu já estou habituado…a neoconeiragem é mesmo assim, mente e desinforma sem problemas, aprenderam a lição do mestre Strauss…
pronto, não se atormente mais, eu só queria que toda a gente compreendesse que você, em matéria de política internacional é um “his master’s voice” e não sabe justificar os disparates que diz… e isso já todos comprenderam. Obrigado pela sua não-colaboração.
December 5th, 2007 at 17:22
É tudo uma questão de ouro…negro, é claro
December 5th, 2007 at 19:14
Que ridículo… comparar Chavez a Mugabe é como comparar Salazar a Hitler. Chavez não é um genocida, ponto final. Escreva lá o que quiser acerca do petróleo, dos defeitos e dos autoritarismos de Chavez, mas tenha lá tino quando compara duas coisas completamente distantes. Detesto Chavez, mas quer dizer… haja alguma coerência.
December 5th, 2007 at 19:19
E, já agora, o que eu não vi, e não sei porquê, foi estes indignados todos contra Chavez indignarem-se com a visita de Putin. Pelo que li por aí, só por aí, lá na Rússia a mando do Sr. Putin fizeram-se algumas coisas muito, muito condenáveis. Ou, Senhores Atlântistas, será que não?
December 5th, 2007 at 19:20
errata: Atlantistas
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