Friday, December 7th, 2007...10:15
o mundo aos 80
Tenho constatado nas últimas semanas (a distracção é minha por não ter detectado o bug anteriormente) que há na geração dos vintões alguma dificuldade em perceber o sentido mais primário de reserva de intimidade, liberdade individual, protecção em relação à utilização de dados pessoais.
Numa conversa com um jovem talentoso de 25 anos percebi que para ele é «normal» que motores de busca agreguem e tratem informação sobre acessos a sites para, posteriormente, usarem essa informação em acções de CRM. Fiquei espantado com o ar espantado com que ele retribuiu a minha indignação libertária.
Naquele momento senti-me um capitão de Abril a proclamar contra o fascismo e percebi melhor a estupefacção deles quando a minha geração coloca a Revolução de 74 na gaveta da História como algo quase tão longínquo como o 5 de Outubro ou o 1º de Dezembro.
Naquele momento, e só naquele momento - trágico - percebi que há códigos que eu já dificilmente poderei acompanhar porque, simplesmente, a aceleração é tal que os novos (como eu) ficam cada vez mais cedo velhos e morrem cada vez mais tarde. Vai ser difícil chegar aos 80 tendo consciência do meu estádio cadavérico, algures no paleolítico superior, e não sabendo (nem querendo) alinhar na «modernidade». A transgressão limitar-se-à ao fumo de cigarros verdes (não confundir com erva) e a ouvir música dos anos 80. E claro, à prática de ditar puerilidades para o blogue do Paulo Pinto Mascarenhas: a última reserva de liberdade no mundo ocidental onde ainda poderei escrever sem censura e aceitar a crítica, a maldade e a estupidez sem ressentimento - partes integrantes do único jogo que vale a pena ser jogado.

Comments are closed.