Sunday, December 9th, 2007...17:40
UE & África

Parte-se de uma premissa muito clara: a União Europeia tem a obrigação de “ajudar” África. Para uns terá; para outros, África é um problema dos africanos. Eu confesso que estou a meio caminho entre uma coisa e outra.
Tenho dúvidas quanto às “ambições globais” da UE. No sentido em que que há passos maiores que a perna e problemas mais prementes para os europeus. Por exemplo, as reformas internas em cada Estado, a estabilização dos Balcãs, o nuclear iraniano. Não estou a menosprezar a gravidade dos problemas africanos. Apenas digo que a responsabilidade maior do que se passa há décadas é dos seus governos. Dir-me-ão: mas estes governos foram perpetuados pelas “ajudas” externas, nomeadamente europeias. Certo. Mas a independência dos Estados e a soberania sobre os seus assuntos internos acarreta responsabilidades que não podem constantemente ser apontadas aos antigos colonizadores.
Isto para dizer que não partilho da rezinguice indígena que parece não sair da cepa torta: se não se faz cimeira é porque não se quer saber de África; se se faz, não vai servir para nada, por isto, aquilo e mais não sei quê.
Esta cimeira para resultar não tinha que excluir ninguém. Se era para sentar à mesa apenas democracias de parte a parte, corríamos o risco de ficar a falar uns para os outros com falta de interlocutores. Se os europeus não querem perder a “corrida a África” actual (um realismo que saúdo), então tem que se sentar com quem continua a ter peso no continente africano. E todos sabemos quem são. Segundo, a declaração conjunta, ao mesmo tempo que contém a retórica habitual destas coisas, tem uma agenda mais pragmática do que é hábito. Neste sentido, também reconheço uma viragem nesta matéria: pragmatismo é coisa que vem faltando aos europeus.
Por último, se a UE não quer protagonizar mais um dos seus momentos pomposos-que-não-dão-em-nada, talvez fosse interessante fazer depender a cooperação futura com África de um conjunto de critérios com que faz depender a adesão de países europeus. Tornar-se numa senhora fácil só tem dado em tragédia. Só dificultando a prática do namoro - ou do concubinato - pode ter os resultados que as suas ambições acarretam.

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