Sunday, December 23rd, 2007...16:00

2007 em revista

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[Revista Atlântico de Março de 2007 . Nº 24]

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A noite do referendo do aborto

por CARLA HILÁRIO QUEVEDO E CARLOS QUEVEDO

Na noite do dia 11 de Fevereiro de 2007, os Quevedo sentaram-se em frente à televisão com duas mãos no computador e as outras duas no comando. A agradabilíssima soirée familiar foi acompanhada de Syrah argentino e Coca-Cola light. O resultado está à vista

O referendo ao aborto faz lembrar aqueles jantares esperados e combinados há muito tempo e que acabam por ser um fiasco. No dia 11 de Fevereiro estava a chover. Mas não podemos falar de uma bátega de água, de nenhum temporal. Caiu uma chuvinha molha-tolos, que parece ter sido suficiente para intimidar o brio democrático. O que nos leva ao Verão de 1998 e ao bom tempo que desviou os eleitores das urnas e os conduziu para as águas frias da Costa da Caparica. Ou, então, como disse António Vitorino, o povo não está habituado a referendos. Ou seja, se o dia tivesse sido de sol, não valeria de nada. Mas se tivéssemos um referendo de dois em dois meses, o povo habituava-se, ai não, que não se habituava!

Às 20h10, apesar de as projecções darem a vitória ao Sim – embora não vinculativo, porque a porcaria dos votos não chegava, ou lá o que é, duh –, na sede do Não as pessoas aplaudem, riem e festejam. O quê, não se percebe muito bem. Nestes dez minutos iniciais, o argumento atira-o-embrião-para-os-olhos-dos-espectadores é o seguinte: apesar de ninguém ter ido votar, ainda foi muita gente. E a alegria do debate, não conta? Ribeiro e Castro discursa como se o resultado fosse indiferente e tem razão, pois a única coisa que tem a fazer o verdadeiro anti-abortista é abster-se. Nem o Sim nem o Não são aceitáveis para um anti-abortista convicto e que se preze. Entretanto, o Sim festeja. O quê, também não percebemos dado que o resultado não é vinculativo, porque a porcaria dos votos não chegava, ou lá o que é, duh.


Miguel Sousa Tavares (Carla: giro) explicou muito bem (Carla: e inteligente) que os comentadores televisivos não devem tomar uma posição pública em campanha. O rapaz esteve particularmente exuberante no domingo (Carla: e alto). Às 20h20, o Gato Fedorento é pela primeira vez mencionado (Carla: por Miguel Sousa Tavares) como o responsável pela denúncia do argumento confuso de Marcelo Rebelo de Sousa.

Carla: Olha o Louçã!
Carlos: A extraordinária vitória…
Carla: … e do País vinculativo e dos católicos que votaram pelo sim, my God. Falando de sapos, aqui está um dos que tive de engolir. Mas ainda tenho a eutanásia, a adopção de crianças por homossexuais, a pena de morte, o 11 de Setembro… para não alinhar com este homem.
Carlos: Olha a TVI a ignorar olimpicamente o Louçã!
Carla: ‘Tá bem.

Às 20h34, na SIC, entra a brigada da pesada da Quadratura do Círculo. Até o Jorge Coelho tem um computador à frente. E o Lobo Xavier também! O Pacheco Pereira provavelmente fez valer os seus argumentos, pois agora todos têm os seus portáteis…

Carlos: Olha o Jorge Coelho a escrever com um dedo!

… embora não se sinta que a tecnologia tenha afectado o discurso de Jorge Coelho.

Carlos: Quadratura interrompida por Marques Mendes!
Carla: ‘Tá mal.

Salomonicamente, Marques Mendes cumprimenta o Sim, o Não, o Mais ou Menos, o Talvez, o Agora Não, o Já Se Fazia Tarde e o Estava a Chover. Tal como Ribeiro e Castro, Marques Mendes oferece o um em dois; ou seja, o mesmo discurso independentemente do resultado. Marques Mendes e Ribeiro e Castro serão amigos? E depois yada, yada, yada, o debate foi muito giro e tantos movimentos que apareceram e o exemplo de cidadania e isto foi tudo tão maravilhoso e a liberdade é a melhor coisa do mundo… Derrota pessoal? Era só o que faltava! O PSD deu a liberdade de voto aos seus militantes. Marques Mendes é danado para a discussão. Só não dá é para conversar. Corta para Jerónimo Martins. O PCP não baixa a guarda. Já fala do complô da malta do non…

Carla: Olhó Rui!
Carlos: Está a dar um beijinho na mão da Leonor Xavier.
Carla: Este homem é um senhor!

Às 20h44, José Alberto Carvalho diz que o escrutínio está a andar muito depressa. E a nós que nos faltam sete mil caracteres! Corta para a TVI. Constança Cunha e Sá pergunta se esta foi uma derrota para a Igreja. Paulo Portas responde – muito bem! – que a sociedade está hoje mais laicizada. Corta para a SIC. Pacheco Pereira afirma o que Paulo Portas acaba de dizer na TVI! STOP THE PRESS! Ambos concordam! Louçã quis dividir a Direita, mas não conseguiu! Às 20h50, RTP e SIC vão para intervalo. A TVI, graças a Deus, continua a trabalhar e mostra uma jornalista na sede do PS.

Carlos: O Rui estava no PS?
Carla: Será que não era a Leonor Xavier?

Miguel Sousa Tavares (Carla: giro, inteligente, alto e, graças ao Equador, rico) dá uma sova na Edite Estrela. Mais um bocadinho e está a fumar no estúdio. Entretanto, nos outros dois canais, anúncios, anúncios, e mais anúncios. Edite Estrela radiante mostra gráficos incompreensíveis. Em Évora e em Beja ganha o Sim, completamente à vontade, em Bragança ganha o Não. O que é que isto quererá dizer? (Carlos: o Alentejo é do PCP e o Norte é democrático)

Às 21h02, Sócrates entra em cena. Agora é que isto vai aquecer! Felicita os portugueses que votaram, yada, yada, yada, e saúda os que fizeram campanha de um lado e do outro, yada, yada, yada e o debate que foi óptimo e tantas coisas que disseram e que politicamente é vinculativo. Olha, duh!

Carlos: Ouvi agora que o resultado acaba com o amor clandestino.
Carla: Mas a pergunta não era essa!

O debate na TVI é de longe, o mais interessante de todos. Até o Fernando Rosas teve graça. Às 21h26, nada se passa na Quadratura do Círculo. Ter-se-ão ido embora? Seja como for, há sinais de vida: Pacheco Pereira continua a actualizar o Abrupto. Estará o maradona a fazer o mesmo? Nã… Às 21h27, fala João Paulo Malta, médico iraniano que militou pelo Não.

Carlos: Parece o Louçã do Não.
Carla: Por aqui se compreende o triunfo do Sim.

Na TVI, o nível da discussão aumentou. Fala-se do futuro do referendo. Paulo Portas põe os pontos nos is: a) a abstenção não invalida o resultado; b) o resultado de um referendo sempre deve ser politicamente vinculativo; e c) 50% é uma fasquia demasiado alta exigida pela Constituição para que qualquer resultado de referendo seja vinculativo. E eis que acontece um verdadeiro milagre: Miguel Sousa Tavares concorda nos três pontos com Paulo Portas! (Carla: querem ver que o Miguel Sousa Tavares é perfeito?) A TVI dá por terminado o debate. Começa a telenovela cujo nome desconhecemos ou não nos queremos lembrar.

Às 21h50, Marcelo Rebelo de Sousa dá notas: ninguém o ouve. Decididamente, já não há pachorra para a escola. Na RTP1, ouvimos Luís Nobre Guedes, partidário do Não, a fechar com sensatez: confia que com o triunfo do Sim, se possa apurar a lei para evitar abusos e exigir acompanhamento e assistência. Entretanto, na SIC, é reactivada a Quadratura do Círculo. Lobo Xavier diz mais ou menos o mesmo do que Nobre Guedes. A direita inteligente, felizmente, não se cala.

Jorge Coelho, infelizmente, também não: «Adoro a vida! Ninguém gosta mais da vida do que eu!» C’um camandro!, dizemos nós.

A RTP dá tudo por terminado as 22h16. A SIC continua. De repente, lembraram-se que tinham convidados que ainda não tinham falado. O padre Feitor Pinto, por exemplo. Pena que não tenha falado antes. Antes do referendo. Disse o seguinte: «…no pior dos casos a Igreja sempre tem uma última alternativa, que é o perdão». Muito bem! Os católicos têm sorte em ter homens assim, que lembram o que significa ser católico. Curiosamente, Joana Amaral Dias, que fala a seguir ao padre, parece contagiada pela sua calma. Quantos terão tentado, sem sorte, fazer o mesmo! Mais um momento inesperado. A seguir, fala Odete Santos. Essa mulher é imune a qualquer influência. Tem a sua graça mas, tal como acontece com Marcelo, também já não há paciência. Às 22h25 acaba o referendo na SIC. Já não era sem tempo.

Das eleições de que temos memória, devem ter sido as mais curtas, televisivamente falando, e também as mais civilizadas, embora os festejos do Sim tenham sido, para o nosso gosto, um bocado exagerados. A escolha pelo Sim, foi na maior parte dos seus apoiantes, apenas uma escolha de um mal menor, de respeito pela liberdade individual ou apenas por tolerância. O voto pelo Sim, para a maioria das pessoas de bom senso, não tem nada de extraordinário. Não há lugar para deitar foguetes. Do que vimos, ficou-nos na memória o depoimento de uma mulher simples, com cerca de cinquenta anos, que chorava no meio dos festejos pelo triunfo do Sim, e que, inesperadamente, explicando à jornalista o motivo das suas lágrimas, disse: “A minha mãe morreu depois de ter feito um aborto”. Se isto não é the real thing vamos ali e voltamos. Desenganem-se aqueles que pensam que esta vitória pertence à esquerda. Contra uma péssima lei, ganhou uma má lei. Pouco a pouco, vamos fazendo o possível para que a vida seja um bocadinho mais respeitável. Há tantos problemas irresolúveis. Este é só mais um.

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