Thursday, January 17th, 2008...23:32
A ler
José Manuel Fernandes hoje no Público:
O papel da sapienza e da honestidade no debate intelectual
Quando se fecham a Bento XVI as portas de uma universidade, impedindo-o de falar, é sinal de que alguns praticam tudo o que no passado criticaram à Igreja. E ainda se orgulham disso…
O tempo dá por vezes razão aos que parecem não a ter mais depressa do que os próprios se atreveriam a esperar.
Há uma semana, nas páginas do PÚBLICO, Rui Tavares atacava Vasco Pulido Valente por este ter sugerido, na sua expressão, que “a Igreja é capaz de ter de viver novos tempos de clandestinidade”. O que era obviamente ridículo. E impensável.
Nem uma semana passou sobre esse texto e acabamos de assistir não à “passagem à clandestinidade”, mas a algo igualmente impensável: em Roma, na sua prestigiosa Universidade, crismada “La Sapienza” (A Sabedoria), um grupo de professores mobilizou um protesto que conseguiu levar o Papa Bento XVI a declinar o convite para falar na sessão inaugural do ano lectivo. Porquê?
Porque consideraram que o convite a um dos grandes intelectuais europeus da actualidade - uma qualidade que só por cegueira se pode negar ao antigo cardeal Ratzinger - era “incongruente” com a laicidade da universidade.
Ou seja, um cidadão de Roma e do mundo, um bispo que se distinguir como académico, viu serem-lhe barradas as portas do que devia ser um templo da ciência em nome de um princípio sectário e de um preconceito que levou um grupo de cientistas a deturparem o que tinha dito num passado já longínquo.
Na sua arrogância consideraram mesmo o homem que manteve uma polémica aberta e elevada com Habermas como sendo “intelectualmente inconsistente”.
Ernesto Galli della Loggia, editorialista do Corriere de la Sera, ele mesmo um defensor dos princípios da laicidade, escrevia ontem que o gesto dos professores, poucos mas com responsabilidades, traduzia “uma laicidade oportunista, alimentada por um cientismo patético, arrogante na sua radicalidade cega”.Uma laicidade que não hesitou em seguir o mesmo caminho dos islamitas radicais que tresleram o famoso discurso de Ratisbona, deturpando-o e descontextualizando-o, para atacarem Bento XVI.
E Giorgio Israel, um professor de História da Matemática que se distanciou dos seus colegas, explicou que estes tinham construído o seu caso a partir de “estilhaços de um discurso” realizado pelo então cardeal Ratzinger em Parma há 18 anos.
O processo foi muito semelhante ao de Ratisbona: em vez de notarem que o Papa citava outrem para a seguir marcar as suas distâncias, pegaram nas palavras do autor citado - em Parma o filósofo das ciências Paul K. Feyerabend - para, atribuindo-as a Bento XVI, considerarem que este dava razão à Igreja na sua querela com Galileu.
O sentido do discurso de Parma, prosseguia o mesmo Giorgio Israel, era exactamente o contrário da caricatura que esteve na origem do protesto: afirmar que “a fé não cresce a partir do ressentimento e da recusa da modernidade”.
Mas que universidade é esta, que cidade é esta, que Europa é esta, que fecha as portas a alguém como Bento XVI, para mais com base numa manipulação?
Não é seguramente a que celebra não apenas a tolerância, mas a divergência, a discussão em busca da verdade. E que por isso não aceitou sequer ouvir o que o bispo de Roma lhe tinha para dizer. E que já sabemos o que era, pois o Vaticano já divulgou o discurso.
Como este Papa nos tem habituado, era, é, um grande texto, uma extraordinária aula onde o teólogo e o professor, unidos num só, discorrem sobre o papel da Igreja e o da universidade, que, “na sua liberdade face a qualquer autoridade política e eclesiástica, encontra a sua vocação particular, essencial para a sociedade moderna”, a qual necessita de instituições autónomas de interesses ou lealdades particulares, antes dedicadas à “busca da verdade”.
Evoluindo entre referências modernas (John Ralls e Habermas) e clássicas (com destaque para o “pouco devoto” Sócrates, que elogia e defende), socorrendo-se de Santo Agostinho e S. Tomas de Aquino, Bento XVI escreveu um texto que, devemos admiti-lo, seria uma afronta para os seus detractores.
Por possuir a abertura e a universalidade que são o oposto do seu sectarismo anticlerical. Por defender que “o perigo do mundo ocidental é que o homem, obcecado pela grandeza do seu saber e do seu poder, esqueça o problema da verdade. E isto significa que a razão, no fim do dia, acabará por se vergar às pressões dos interesses e do utilitarismo, perdendo a capacidade de reconhecer a verdade como critério único”.
E alcançar a verdade implica questionar - mas não ignorar - as certezas de hoje. E um Papa, na universidade, não vem para “impor a fé de cima, pois esta é antes do mais um dom da liberdade”.
No tribunal de “La Sapienza” foi um Papa que quiseram colocar no lugar de Galileu, e foram cientistas que fizeram o papel do acusador de então, o cardeal Roberto Bellarmino, porventura mostrando ainda menos compaixão.
Mas nisso, infelizmente, não andam sozinhos. Já repararam como, entre nós, vai por aí um debate sobre Pacheco Pereira e Vasco Pulido Valente terem chamado “fascista” a Sócrates, o que nenhum deles chamou.
Como, de resto, nem o próprio António Barreto chamou, pois o seu raciocínio completo é: “Não sei se Sócrates é fascista. Não me parece, mas, sinceramente, não sei. De qualquer modo, o importante não está aí. O que ele não suporta é a independência dos outros, das pessoas, das organizações, das empresas ou das instituições.”
Como é mais sexy discutir o “fascismo”, ilude-se o que o próprio autor considera ser “o importante” - o que é mais depressa chicana política do que debate intelectual, perdoe-se esta franqueza, que só pode ser tomada pelo que é: um desafio a recusar o mau exemplo de “La Sapienza”.

5 Comments
January 18th, 2008 at 9:21
E quem sabe se o Papa não foi um pretexto num contexto de guerras académicas de alecrim e manjerona ?
January 19th, 2008 at 9:35
Rawls, não “Ralls”.
Corrijam, sff.
January 21st, 2008 at 22:20
Sobre este mesmo texto de José Manuel Fernandes, ler:
http://ermidas.blogspot.com/2008/01/o-conflito-das-interpretaes.html
http://ermidas.blogspot.com/2008/01/o-conflito-das-interpretaes-ii.html
http://ermidas.blogspot.com/2008/01/o-conflito-das-interpretaes-iii.html
http://ermidas.blogspot.com/2008/01/o-conflito-das-interpretaes-iv.html
January 22nd, 2008 at 0:27
O nível intelectual de JMF fica bem ao nível de “Ralls”.
Para coisas “um bocadinho melhores” e mais fundamentadas, ler http://memoria-inventada.weblog.com.pt/.
Gostava de perceber de JMF enche a boca apenas para dizer que alguém leu e que concorda porque sim com o que leu, ou se por ventura leu de facto o texto do papa. Não que isso o fizesse mudar de opinião, porque as palas não lhe permitiriam tral coisa. Provavelmente, ele também acha que Galileu é o avô da bomba nuclear.
February 12th, 2008 at 12:41
[…] O oxímoro do costume 12 Fevereiro 2008 | por Luis Rainha O “eduquês” continua a dar cabo do futuro aos nossos infantes. Aliás, nem sei bem como é que ainda há crianças em Portugal, com tanto abortista por aí. Isto para nem mencionar os que querem substituir a Família, como nos foi legada pelos patriarcas judaicos, por aberrações onde até dois homens poderiam gozar a liberdade de se casar. É verdade: a trupe fandanga da esquerda anti-americana, cúmplice de todos os relativismos, pária da cultura subsidiada e defensora da controlo do indivíduo pelo corrupto Estado, ainda vai dar cabo disto tudo. Pobres de nós: depois de assassinada Sua Presciente e Indispensável Majestade, já nem Deus nos vale, agora que estão a atirar a sua Santa Igreja para a clandestinidade. […]
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