Friday, January 18th, 2008...0:26

Adenda ao post das bastardices semânticas

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Além do mais, esta ausência de política estruturada para os recém-licenciadas é estúpida, de qualquer ponto de vista, seja político, seja económico.

Entrei para a Universidade a pagar 63 contos de propinas. O ordenado mínimo da altura. Saí a pagar 900 euros. De toda a maneira, dificilmente cobria a despesa que o Estado teve com a minha formação. Que sentido faz em investir nos jovens, se depois os encaminha para um futuro de apresentação quinzenal em Centros de (Des)Emprego?

Eu voto. E como eu, toda a minha geração. Somos raros a ter contratos de emprego, a muitos de nós nem deixam pagar impostos. Somos a primeira geração em muito tempo a saber, com todas as certezas, que vai viver pior do que os pais. Sair de casa representa necessariamente um downsizing no estilo de vida. E, no entanto, ainda acreditamos o suficiente nisto para não dar o salto em massa, como os nossos pais e tios nos anos 60. Show some respect.

19 Comments

  • If you are waiting for respect from the Portuguese government , you are going to rust waiting in vain.

  • Gorgeous. De aplaudir e pedir por mais.

  • Ou seja. Eu voto, logo quero emprego?

  • Se você é assim tão pessimista o que é que está a fazer no mundo ?

  • Mentiras, porque se foi até à faculdade e pagava 63 contos, é porque tinha os desgraçados dos tutores a financiar a sua rambóia de 5 anos.
    Queixa de quê? de não ter o emprego vitalício a ganhar 3000€ e parque gratuíto?
    “Sair de casa representa necessariamente um downsizing no estilo de vida.”
    Claro, claro, claro.
    É a geração que mama na teta do Estado e ainda se queixa!

  • Margarida Pereira
    January 18th, 2008 at 9:56

    Entende-se a frustração, porque as ilusões são sempre muitas à partida. Mas o tempo de ‘alguma segurança’ gorou-se há uma vintena de anos. E, para se melhorar, (quase) sempre foi preciso sair daqui. Recordo a menção aos ‘professores estrangeirados’ numa certa tese de doutoramento do IST, no final dos anos oitenta.
    Sair, do casulo, da cidade, do país, sempre se revelou um acto de coragem ou de desespero. Ou ambos. Há quem tenha ’sorte’ e consiga agarrar-se a uma rocha. Mas mesmo esta, com o tempo, esboroar-se-á…
    A vida é instável. A vida é sacrifício e aventura. Nascemos para partir, Pena que não nos eduquem sob esse mote. Tanto proteccionismo é sufocante e castrador e acaba no sofá do analista. Ou nos comentários dos blogues. Mas o que há a fazer não é tanto acidular o chiste, mas incentivar a audácia: porque não partir, nem que seja pela experiência temporária? Coragem, cautela e caldos de galinha… Boa sorte (a todos!).

  • «acreditamos suficientemente nisto»… apesar de toda a evidência em sentido contrário.

    Pelo que não haverá grandes razões para lamentações: são escolhas que se fazem.

  • Se fosse uma pessoa de esquerda a dizer isto, seria acusada de “xuxalismo” e de estatismo.

    Em todo o caso, Ana, deixe-me só dizer que compreendo o que sente porque pertenço à mesmíssima geração e passo por exactamente por algo semelhante - embora ficar desempregado não seja algo que me passe agora pela cabeça, porque garanto que jovens licenciados que não tenham pejo em meter mãos à obra não têm problemas em encontrar trabalho.
    Em todo o caso, e precisamente pelo que acabei de dizer, creio que esse discurso não tem muito cabimento. Não o tem por vários motivos, mas em última análise não vale a pena chorar sobre leite derramado.
    Se quer reais soluções e não tem cunha para ir para uma empresa (sim, porque no Estado as cunhas praticamente deixaram de funcionar - e não é porque se seja melhor nos tempos que correm, é porque já está tudo cheio e a rebentar pelas costuras) então o quem tem a fazer será o que já muitos fizeram e eu mais dia menos dia farei: emigrar.

  • Margarida Pereira está no mesmo saco, e ao estar a reconhecer o grito “doloroso” desta gente que teve a oportunidade de estudar e licenciar-se é aquiescer no seu grito “doloroso” para todo o sempre.

    Eles que dêm o exemplo, para que as hostes mais baixas se desagreguem do Estado.
    Se a nossa actual Burguesia somente escreve nos blogs a lamentar a sua situação… estamos mal.

  • Igor Caldeira - “(sim, porque no Estado as cunhas praticamente deixaram de funcionar - e não é porque se seja melhor nos tempos que correm, é porque já está tudo cheio e a rebentar pelas costuras) ”

    É pior Igor, porque os da geração que têm 30 e mais anos, ou se afiliaram, ou agora vivem com uma péssima cultura laboral onde a afiliação e a própria cultura do trabalho privado está minado do deixa andar.
    Já ninguém cumpre funções, todos mostram “trabalho” e ficam até depois das horas.
    Assertividade laboral é o que falta!
    Eles que não se queixem, que verguem a mola, porque podem miar! (e devem!).

  • Há uma outra coisa que me incomoda no seu discurso, embora não tenha que ver consigo.

    Aqui há uns dias tive a oportunidade de me aperceber da tremenda imbecilidade da Juventude Popular: ao mesmo tempo que defendiam o fim do salário mínimo, agitavam a bandeira com o inexaurível sofrimento a que a geração “Mil euros” está votada.

    Parece-me a mim que o Estado servir de baby-sitter para jovens licenciados e largar os trabalhadores mais pobres à sua desfortuna é uma tremenda inversão de valores. Um Estado justo, que conheça os seus limites, não deve tratar dos máximos, deve tratar dos mínimos.
    (Não é uma crítica à Ana que estou a fazer, até porque não sei se é ou não contra o SMN.)

  • “Que sentido faz em investir nos jovens, se depois os encaminha para um futuro de apresentação quinzenal em Centros de (Des)Emprego?”

    Então talvez o Estado devesse deixar de investir nos jovens. Aparentemente, de facto, o investimento que o país fez na Ana Margarida foi um mau investimento.

    Ana Margarida, anime-se: há muitas ofertas de emprego disponíveis. Eu, vivendo em Lisboa, vejo ofertas de emprego em montes de lojas e restaurantes. O salário oferecido é baixo? Pois será - mas será melhor do que estar no desemprego.

  • Margarida Pereira
    January 18th, 2008 at 12:25

    Independentemente das sofisticadas teses sociológicas e filosóficas, uma pessoa não representa forçosamente ‘a nossa (actual) Burguesia’. É ‘uma pessoa’. com rosto e sentimentos e uma ideia sobre a vida, agora e nestas circunstâncias. A sanha colérica não ajuda. Às vezes uma palavra generosa tem mais efeito do que o sarcasmo militante. Isto é só um ponto de vista, não é necessário retorquir mais, que já estamos todos elucidados sobre a origem do mal…

  • […] dilema da Ana é um dos conundrum (não perco a oportunidade de usar a palavra…) mais […]

  • As últimas duas frases inspiram todos os individualistas que lêem este blogue… belo “xuxismo”, como se escreve lá em cima.

  • Margarida Pereira, não lhe vou passar atestados.
    Penso que tenha em mente que nos Estados Unidos, quando um xerife não cumpria as suas funções PÚBLICAS, era demitido pelo gentio que TRABALHAVA.
    Penso que isso criava uma noção de afastamento do Estado, tal como o “serviço público”, responsabilização, mobilidade cívica e por aí fora.
    Quando diz: “A sanha colérica não ajuda” só me pode vir à mente que vive do bem e do melhor, porque se sentisse na pele que existia para o serviço público (e não o contrário), aí já justificava cada invectiva colérica.
    Deixe que lhe diga que não sou adepto “revolucionário”, mas com a minha experiência em empresas de organização AMERICANA, só posso dizer que padecemos gravemente de um mal interno, que todos sabem qual é, mas só alguns é que “blogam”.
    Acho que isso é fulcral para a noção de peão civil, seja onde seja, aqui na Europa da ralé que temos raízes imperialistas católicas ou na Europa “protestante”.

    “Burguesia’. É ‘uma pessoa’. com rosto e sentimentos e uma ideia sobre a vida, agora e nestas circunstâncias. A sanha colérica não ajuda.”

  • Margarida Pereira
    January 18th, 2008 at 13:34

    “Vicissitude”, obrigada.
    Até porque receber ‘atestados’ de um ‘anónimo’ não seria lá muito simpático.
    Gosto de ‘rostos’. E de corações.
    Atrás disso vem um mundo inteiro. Que pode ser menos amargo. Ou duro. Mesmo não ignorando nada do que afirma. Apenas tendo complacência.
    E não, não vivo do ‘bem e do melhor’. Over and out.

  • “Somos a primeira geração em muito tempo a saber, com todas as certezas, que vai viver pior do que os pais.”

    Cara Margarida, isso é manifestamente falso, concerteza que não sabe as dificuldades que a geração dos nossos pais passou, especialmente até por volta dos 40 anos quando, sim, deram um salto em termos de qualidade de vida.

    “Sair de casa representa necessariamente um downsizing no estilo de vida. E, no entanto, ainda acreditamos o suficiente nisto para não dar o salto em massa, como os nossos pais e tios nos anos 60. Show some respect.”

    Eu acho que a questão é menos “respect” e mais comodismo.

    Por outro lado, para reforçar a minha ideia inicial, a geração dos nossos pais nem opção tinha, quem emigrou foi mesmo obrigado a isso pela força das circunstâncias.

    Como diz alguém em cima: tem tudo a ver com escolhas. E enquanto houver escolhas não nos podemos queixar muito…

  • Ana,
    Os meus pais, ambos licenciados e bons trabalhadores começaram a trabalhar ainda adolescentes e nunca tiveram um emprego estável, emigraram e ainda continuam a trabalhar já nos setentas recusando-se a pedir a mísera reforma a que têm direito. Eu e os meus irmãos todos licenciados há quase 20 anos e com pós-graduações posteriores gozámos a nossa adolescência e um nível de vida superior ao dos nossos pais, nunca tivemos empregos estáveis, trabalhámos fora deste país e devido à crise mundial no mercado de trabalho (sim, não é só em Portugal) regressamos a casa para aceitar empregos instáveis de salário mínimo para os quais temos teóricamente demasiadas qualificações. Isto de passar fome longe da nossa família não dá. O meu único problema é o de não poder formar e criar uma família, mas não se pode ter tudo. Enquanto viver vou procurar aprender e conhecer sempre mais e trabalhar, trabalhar, trabalhar. Se fôr necessário e possível voltar a sair de Portugal eu não hesitarei.
    Trabalha e mexe-te e não te preocupes com a minha reforma pois não vai ter que sustentá-la pois quem tem menos de 40 anos não vai ter reforma do estado. Quem ainda não viu isso anda a dormir.

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