Sunday, January 20th, 2008...16:44

Confrangedor

Jump to Comments

Como só vejo televisão aproximadamente de quinze em quinze dias, os happenings deste governo de teatro contínuo costumam escapar-me. Ontem à noite, por puro acaso, assisti ao encerramento da XXIII Cimeira Ibérica. Foi só de mim, ou houve mais gente a achar aquele instante em que Sócrates diz ser o melhor amigo de Zapatero, e este se apercebe da enormidade do nosso PM e fica nitidamente embaraçado, altamente confrangedor?

O Bush dizia que lhe bastava olhar para dentro dos olhos de Putin e via uma pessoa decente, com quem se pode falar e em que se confia. Nós temos a nossa própria escala: um PM que parece aqueles miúdos irritantes da escola primária atrás dos grandes, que nem sabem se hão-de ter pena (e responder com uma mui sincera reciprocidade) ou simplesmente ignorá-los.

4 Comments

  • Margarida Pereira
    January 20th, 2008 at 22:25

    Os portugueses sempre foram muito esforçados nos seus afectos.
    É vê-los, ao longo de novecentos anos (mais coisa menos coisa) a ‘amigarem-se’ por aí…
    Depois da presidência europeia, então, é verdadeiramente intensa, esta vontade de ser ‘best buddie’ de qualquer nome estrangeiro que por cá arrime…

  • Comunicado
    Grupo dos Amigos de Olivença
    http://www.olivenca.org

    Comunicado

    Reagindo à iniciativa do Grupo dos Amigos de Olivença que, no decurso da XXIII Cimeira Luso-Espanhola, levantou publicamente a questão de Olivença, o Senhor Primeiro-ministro, em entrevista à RTP, em 19-01-2008, veio dizer que o assunto «não foi discutido» na Cimeira (1).
    Tal afirmação, que em si mesma nada traz de novo e só surpreende pela franqueza com que se admite e confessa publicamente uma prática política nada louvável, embora adoptada por sucessivos governos, deve ser sublinhada pela exuberância com que o Senhor Primeiro-ministro assume publicamente a existência do litígio, a sua relevância e a profunda perturbação que provoca no relacionamento político dos dois Estados.
    No mais, a referência - aparentemente desdenhosa - à intervenção de tantos portugueses que em elevada manifestação de cidadania têm lembrando as responsabilidades que cabem ao Governo na sustentação dos direitos de soberania sobre uma parcela do território nacional, como fazendo «parte do folclore democrático», só pode ser entendido como um momento de infelicidade, decerto resultante da tensão a que o Senhor Primeiro-ministro estivera sujeito, traduzindo também alguma desatenção ou inabilidade políticas.
    Aliás, não poderia ser de outra forma pois que, conforme afiançou recentemente o Senhor Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, em carta dirigida a esta associação em 12 de Novembro, p. p.:
    «O Estado português é rigoroso na prática de actos externos, quanto à delimitação constitucional do seu território, em observação do que estipula o artigo 5.º da Constituição: “1. Portugal abrange o território historicamente definido no Continente europeu […] 3. O Estado não aliena qualquer parte do território português ou dos direitos de soberania que sobre eles exerce […]”. A política que o Ministério dos Negócios Estrangeiros tem seguido, e as orientações que tem dado […] tem sido de que nenhum acto, acordo ou solução em torno desta questão deve implicar o reconhecimento por Portugal da soberania espanhola sobre Olivença» (2).
    O Grupo dos Amigos de Olivença faz notar que a sua actuação reproduz a posição político-constitucional portuguesa e, lamentando as palavras menos felizes e inapropriadas do Senhor Primeiro-ministro, reafirma a sua determinação em prosseguir os esforços que vem desenvolvendo pelo reencontro de Olivença com Portugal.

    OLIVENÇA É TERRA PORTUGUESA!
    VIVA OLIVENÇA PORTUGUESA!

    O Presidente da Direcção

    Lisboa, 20 de Janeiro de 2008.

    (1) Pode consultar-se em : mms://195.245.128.30/rtpfiles/videos/auto/telejornal/telej_2_19012008.wmv (aos 27 min e 48 seg do vídeo)

    (2) Pode consultar-se a Carta do MNE em:

  • O PRIMEIRO-MINISTRO PORTUGUÊS FALA DA QUESTÃO DE OLIVENÇA
    Há jornalistas que nos fazem continuar a acreditar que a liberdade de opinião teima em resistir.
    Assim sucedeu no final da XXIII Cimeira Ibérica de Braga, no dia 19 de Janeiro de 2008. Um jornalista da RTP teve a coragem de perguntar ao Primeiro Ministro José Sócrates o que pensava da presença, uma vez mais, de gente a questionar o problema de Olivença. Visivelmente surpreendido, o estadista português disse que tal presença se inseria no folclore habitual de tais eventos… esquecendo-se de referir que os “Amigos de Olivença” foram impedidos de exibir uma faixa (”Olivença é Terra Portuguesa”), salvo se a cinco (!!!) quilómetros de distância, sob ameaça de prisão. O Jornalista insistiu, referindo que talvez fosse tempo de abordar a questão em tais cimeiras. Sócrates repetiu-lhe que tal “situação” se verificava há quinze anos, e que, tal como sempre os vários primeiros-ministros o faziam, considerava tal um folclore. O profissional da Informação reformulou inteligentemente a pergunta, inquirido se, afinal, o problema de Olivença estivera ou não na agenda. O Primeiro-M
    inistro disse simplesmente que não.
    Não chegou, pois, ao extremo de dizer que o problema não existia, o que constituiria algo grave, dada a existência de documentos do Ministério dos Negócios Estrangeiros, com carca de dois meses, em que é afirmado claramente que Portugal nada fará que ponha em causa os Direitos de Portugal sobre a Região de Olivença ( 12 de Novembro de 2007:«O Estado português é rigoroso na prática de actos externos, quanto à delimitação constitucional do seu território, em observação do que estipula o artigo 5.º da Constituição: “1. Portugal abrange o território historicamente definido no Continente europeu […] 3. O Estado não aliena qualquer parte do território português ou dos direitos de soberania que sobre eles exerce […]”. A política que o Ministério dos Negócios Estrangeiros tem seguido, e as orientações que tem dado […] tem sido de que nenhum acto, acordo ou solução em torno desta questão deve implicar o reconhecimento por Portugal da soberania espanhola sobre Olivença» ).
    Talvez Sócrates se tenha lembrado, também, que as águas do Alqueva são quase exclusivamente portuguesas por causa de Portugal manter esta posição.
    Compreende-se que, em nome do politicamente correcto, se evitem abrir feridas, de parte a parte, nestas cimeiras, embora seja muito discutível a sua real utilidade partindo destes pressupostos. Compreende-se que se façam concessões… e viu-se a rapidez com que o Governo Português prometeu mudar legislação para que os médicos espanhóis não vissem os seus carros multados em Portugal. Parece que nestas cimeiras há um estado que não deixa passar “nada em claro”(e faz muito bem !)e não adia problemas. Critérios, enfim!
    É muito lamentável, todavia, a classificação de “folclore” para tais manifestações. Por um lado, faz recordar o episódio do barco português enviado a Timor com Ramalho Eanes como passageiro, que foi barrado por navios indonésios e classificado como “folclórico” por Jacarta. Sócrates, aqui, não foi feliz. Por outro lado, levanta algumas questões práticas: considerará Sócrates “folclóricas” as habituais contestações espanholas à presença britânica em Gibraltar? Ou insinuará que os “manifestantes por Olivença” deverão mostrar-se com trajes folclóricos oliventinos (alentejanos)? Talvez assim as autoridades não os impeçam de exibir uma faixa.
    Devo a José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa respeito enquanto Primeiro-Ministro do meu País. Mas não sou obrigado a concordar com ele. E lamento que, falando em nome do País, produza tão infelizes adjectivações..
    Estremoz, 19 de Janeiro de 2008
    Carlos Eduardo da Cruz Luna

  • Carlos Eduardo da Cruz Luna
    January 22nd, 2008 at 21:17

    RAZÕES PORTUGUESAS
    A QUESTÃO DE OLIVENÇA: UMA VISÃO PORTUGUESA
    por CARLOS EDUARDO DA CRUZ LUNA
    Publicado na Revista “O Pelourinho”,Badajoz, Abril 1999

    Confesso que me sinto um pouco apreensivo ao começar a escrever esta visão portuguesa sobre a tão discutida “Questão de Olivença”. Isto porque os preconceitos e, vamos lá, os disparates e medo que rodeiam esta problemática a tornam de difícil análise sem suscitar risos de troça, entusiasmos, ou gestos de raiva.
    Talvez um artigo como este, desassombrado e directo, seja o melhor caminho para se discutir esta questão com mais respeito e menos agressividade, o que não quer dizer que se acabem com os argumentos, nem com a paixão posta neles. Antes pelo contrário !!!
    Vou mesmo citar alguns dos argumentos e opiniões mais despeitados. Peço que me leiam como um Português Médio, conhecedor da Questão Oliventina segundo os Argumentos Portugueses, irritado com algumas das afirmações espanholas mais ouvidas e que mais considera erradas. A frontalidade, nestes casos, é, às vezes, uma boa forma de cura!
    Falar de Olivença é falar de algo que dói. O Português, em geral, teme a Espanha, e desconfia das intenções desta em relação a Portugal. Olivença é a expressão mais sentida desses receios.
    Os disparates não tardam. Muita gente crê que Olivença foi trocada por Campo Maior. Isso é uma falsidade histórica, alimentada pela Ditadura. Olivença e outras localidades passaram para Portugal em 1297, pelo Tratado de Alcañices. Outros povoados passaram então para Castela-Leão.
    Depois, há quem afirme que Olivença é tipicamente espanhola e os seus habitantes puros espanhóis. Evidentemente que, face às autoridades espanholas, isso assim será. Contudo, consultar uma Lista Telefónica e ler a enorme quantidade de apelido portugueses em Olivença, ou ir à Localidade e encontrar quase só Monumentos Portugueses, construídos entre os Séculos XIII e XVIII, não contribuem para convencer um Português. Pelo contrário, convence-se que algo, nessa história, não bate certo.
    Impressiona o esforço de alguns para inventar uma Olivença na História de Espanha. Ora, ela não existiu, a não ser em conflitos, na História da Maior Nação Ibérica. Toda a História de Olivença faz parte da História de Portugal, nas suas glórias e fraquezas. Olivença e o oliventino são, em Espanha, segundo uma visão portuguesa, uma presa de guerra. Claroque um oliventino não é discriminado. Mas sabe-se que já o foi e, de qualquer forma, o que é, actualmente, não o pode transformar num descendente de antigos espanhóis, porque ele é, e sempre, um descendente de Portugueses.
    Diz-se que o Português falado em Olivença é um “chaporreo”, um mau português. Só que, como essa forma de falar é comum a meio milhão de Portugueses do Alentejo, está-se a chamar errada à maneira de falar de muita gente. Em Portugal, não se fala só Português de Lisboa!
    Ouve-se que em Espanha se vive melhor, e que o oliventino não quer ir de cavalo para burro. Esse rgumento, para além de ser uma forma interesseira de patriotismo, não tem em linha de conta que as situações económicas de Portugal e Espanha têm variado ao longo dos séculos, e que ninguém sabe, dentro de vinte ou trinta anos, como estará esse equilíbrio. E não digam a um Português que a Espanha, sendo maior, tem mais desenvolvimento! A Suíça, a Holanda, a Bélgica, a Áustria, são países menores que Portugal mas mais avançados do que a Espanha. Também esta, um pouco maior que o Japão, está bem atrás deste!
    Entre outros argumentos, diz-se que, em 1815, as poucas linhas dedicadas pelas grandes potências à questão de Olivença não obrigam claramente a Espanha a devolver o Território. Só que as poucas linhas dão, inicialmente, razão a um outro documento, onde se conclui ser ilegal a ocupação espanhola. Só a leitura completa dos documentos permite compreender o alcance das tais poucas linhas. E, não esqueçamos, a Espanha assinou as resoluções de então, ainda que só em 1817 por causa de questões italianas.
    Talvez o que mais indignação cause em muitos portugueses sejam os argumentos simplistas, quase primitivos, e a dualidadede critérios, usados por alguns estudiosos e políticos espanhóis. Vejamos alguns.
    Ouve-se dizer que Olivença é espanhola porque fica na margem esquerda do Guadiana. Ora, também o ficam as localidades portuguesas de Mourão, Moura, Serpa, e Barrancos, e isso não constitui óbice a que sejam reconhecidamente portuguesas. Por outro lado, sendo este argumento simplista, é tentador fazer um pouco de humor, e lembrar que ficam na margem DIREITA do rio em questão (e, portanto, pela lógica apresentada de que a Portugal cabe só a margem DIREITA do Guadiana) muitas localidades espanholas. Mérida, por exemplo. Levar este raciocínio às últimas consequências poderá levar a conclusões absolutamente hilariantes.
    Também se diz que Olivença era um enclave português em terra espanhola, esquecendo-se que há outros territórios em igual situação. Barrancos, vila Portuguesa, ou Cedillo ou Baroncelli, vilas espanholas. Além disso, como um enclave muitas vezes subentende um enclave correspondente do lado contrário, resta provar se Olivença era um enclave Português ou se, em alternativa, eram Alconchel e Cheles um enclave espanhol entre as localidades portuguesas de Olivença e Barrancos. Será que as fronteiras entre Portugal e Espanha deveriam ser traçadas em linha recta? Ou, se os enclaves devem ser eliminados, o que vai suceder à catalã Llívia, encravada no Rossilhão francês? Como é possível, com seriedade, aceitar argumentos destes?
    Discutir problemas com alguma racionalidade é uma coisa. Outra coisaé troçar da inteligência de cada um.
    Alguns exemplos de dualidade de critérios? Também os há. Diz-se, por exemplo, que o Tempo resolveu o problema, desde 1801 até hoje (1999). Como pode um Português levar isto a sério, sabendo que a Espanha reclama Gibraltar, ocupada desde 1704? Estamos claramente diante de uma dualidade de critérios… acrecendo ainda que, considerando o Tempo como legimitador de ocupações, correremos o risco de assistir a anexações por todo esse mundo fora, bastando apenas que a anexação se prolongue no tempo para a tornar legal. Que campo favorável fica assim aberto a todos os imperialismos deste planeta!!!
    O plebiscito em Olivença é muitas vezes proposto para resolver a questão. Aparentemente democrático, não o é porque se verificaram cerca de 170 anos de colonialismo. Até à décda de 1930, Portugal propôs plebiscitos em Olivença. O Estado Espanhol nem sequer resposta dava. Entretanto, uma educação exclusivamente espanhola moldava as mentalidades. Na época franquista, ser pró-português era inviável. Em mais de cem anos, castrou-se cultural, historica, e linguisticamente um povo, ao ponto de membros deste povo se envergonharem de si mesmos e da língua ancestral. Actualmente, depois da castelhanização desenfreada de muitos e muitos anos, já se considera aceitável o plesbicito. É evidente que, sem um período de informação/formação de algumas dezenas de anos, e sem estarem claramente garantidos os níveis de vida e Assistência Social adquiridos entretanto pelas populações, um plesbicito não pode ser considerado válido.
    Mas ainda há mais! Ouçamos Abel Matutes (Ministro espanhol dos Assuntos Exteriores), a propósito de Gibraltar, em 26 de Setembro de 1997, não esquecendo que naquela colónia britânica 99% da população votou por continuar a ser governada por Londres: “Gibraltar é uma situação colonial por resolver (…); supõe um atentado contra a integridade territorial espanhola e não lhe é aplicável o Direito à Autodeterminação (…). O Território de Gibraltar era parte integrante de Espanha(…). (Prometo aos gibraltinos…)…uma oferta muito generosa que, depois da integração de Gibraltar em Espanha, permitiria aos actuais habitantes desta colónia conservar nos aspectos fundamentais a sua actual situação económica e jurídica.”
    (Note-se ainda que, se a anexação de Gibraltar foi, e infelizmente, mais ou menos legal, Olivença é vista como estando ILEGALMENTE ocupada desde 1807, ou 1815-1817. Todas as administrações em Olivença desde, pelo menos, 1817, são consideradas pelo Estado Português como ilegais!)
    As palavras de Abel Matutes deixam muitos portugueses estupefactos, pois está-se perante o que consideram uma escandalosa, quase hipócrita, dualidade de critérios. Penso que não será preciso explicar detalhadamente porquê…
    Há responsáveis que dizem que Olivença não tinha importância nos tempos portugueses. Isto é uma falsidade histórica, pois Olivença era a décima terceira cidade portuguesa no século XVI. Basta ver o Património Monumental Português em Olivença para se compreender que tal afirmação não pode ser verdadeira. E, como diz a História de Extremadura da Bibl. Pop. Extr. de 1993, “Em 1801, o território extremenho ver-se-ia repentinamente aumentado com a IMPORTANTE cidade de Olivença - ENTÃO TÃO GRANDE E POVOADA COMO BADAJOZ - conquistada a Portugal (…)”. (trad. do espanhol)
    Ouve-se também o argumento de que Olivença já tinha sido espanhola antes de ser portuguesa em definitivo em 1297. Ora, esta povoação e o seu termo (que incluía mais ou menos Táliga) tinham então pouca importância, como aliás outras povoações castelhanas e portuguesas, em virtude da indefinição de fronteiras. Só depois de 1297 as povoações então tornads de vez portuguesas e castelhanas foram de facto verdadeiramente povoadas e organizadas.
    Este argumento dá a entender que a anexação espanhola de 1801 foi uma “recuperação de território”. Ora, e dentro da LEGALIDADE, a Olivença de então era totalmente diferente da de 1297, quando seria uma aldeia, talvez fortificada em tempos, com quiçá duzentos habitantes. Após quinhentos anos de vivência LEGAL portuguesa, falar em recuperação é um contra-senso. Aliás, os apelidos oliventinos, mesmo nos nossos dias, são esmagadoramente portugueses… mesmo após a espanholização administrativa geral que sofreram.
    Aprofundemos um pouco este aspecto. Imaginemos que Portugal ocupava Valéncia de Alcántara, que foi sua antes de 1297, e que, apesar de por um qualquer tratado ter de a devolver a Espanha, mantinha a localidade sob o seu domínio dizendo que tinha sido portuguesa até 1297! Como toda a vida organizada de Valéncia, bem como o seu povoamento, foram leoneses/castelhanos/espanhóis, mesmo porque em 1297 houve troca de populações, este argumento pecaria por ridículo ! LEGALMENTE espanhola desde 1297, Valéncia de Alcántara não podia ser alvo de uma tal argumentação, por ser absurda!
    Também se diz que Olivença foi fundada, não por Templários Portugueses, mas sim por Templários Leoneses (o mesmo se aplicando a Táliga). Aqui, de facto, há mais dúvidas que certezas. Um excelente livro (”Oliveza y el Tratado de Alcañices”, de Manuel Martínez Martínez, Ayuntamiento de Olivenza, 1997) equaciona as origens possíveis dos Templários que fundaram Olivença e Táliga, e, em minha opinião, conclui que, mais do que portugueses ou Leoneses, eram mais simplesmente Templários, fazendo um pouco o seu próprio e quase exclusivo jogo. Contudo, após alguns problemas em Castela-Leão, os Templários começaram a ser vistos como servindo os interesses dos Reis de Portugal. Afastados da Região Oliventina, terão influenciado o Rei Português (D. Dinis) a incluir o território dentro das fronteiras lusas, já que tinham sido eles os seus primitivos “reconquistadores” aos muçulmanos. Uma vingança, de certo modo.
    Este autor argumenta com todo o cuidado, e o seu trabalho parece ser o mais completo e honesto publicado até ao momento.
    Já não constitui um argumento muito válido considerar que a ocupação terá sido primitivamente leonesa pela posição geográfica e pela proximidade de Badajoz. Na corrida luso-”espanhola” de reconquista ao longo do Guadiana, tentaram os reis portugueses, contra até acordos já assinados, cortar o caminho aos seus vizinhos, ocupando as duas margens do Guadiana. Até Ayamonte foi ocupada pelo Rei Português Sancho II ! Nos territórios a Leste do Guadiana, vários povoados, hoje andaluzes ou extremenhos, tiveram origem portuguesa (casos de Aroche e Aracena). Com honestidade, poderá dizer-se que a situação na fronteira foi confusa no século XIII, até à assinatura do Tratado de Alcañices em 1297. As fronteiras então definidas foram mantidas até durante a União Ibérica de 1580-1640, com excepção de San Felices de los Gallegos, que leonesa-castelhana ficou, deixando Portugal de a reclamar, de vez, no século XV.
    Ao longo do tempo, sempre políticos e organizações portugueses, para além do próprio Estado, têm reclamado Olivença e tentado resolver o problema. No geral, concordam todos num ponto: a ocupação espanhola é ilegal, pelo que há que estudar maneira deacabar com ela.
    Não resisto a citar um argumento já ouvido mais de uma vez: Portugal não tem reclamado Olivença com força suficiente. Ora, isto pode significar que o Direito só é válido se puder ser imposto. Não há obrigações éticas, e, portanto, noções de honra ou de deveres de cumprimento de obrigações. Isto significa, em última análise, que se não é obrigado a cumprir o que se assina como correcto se a isso não se for obrigado pela força. O que leva qualquer pessoa a perguntar, algo estupefacto, se o que Portugal deveria ter feito era invadir a Espanha, em vez de esperar que esta cumprisse o que se considerava ser sua obrigação. Melhor ainda, não é honrado cumprir deveres, mas é honrado perpetuar uma ilegalidade! Será que os autores deste argumento têm consciência da lógica absurda em que caiem?
    Voltando às tentativas de recuperação por psrte de Portgal… o que choca é vê-las classificar como demagógicas, isoladas, loucas, esquerdistas, fascistas… esquecendo SEMPRE que o próprio ESTADO PORTUGUÊS MANTÉM ESSA REIVINDICAÇÃO ! Aliás, usa-se uma técnica de estigma pela classificação política em polos diferentes. Assim, e só para nos ficarmos pelos tempos mais recentes, as autoridades espanholas franquistas classificavam como equerdistas as posições dos grupos portugueses que reclamavam Olivença, nomeadamente o Grupo dos Amigos de Olivença; e, de facto, em alguns movimentos, estavam opositores ao Salazarismo. Noutros, estavam alguns salazaristas. Muito honestamente, pode-se dizer que tai movimentações tinham pessoas de vários quadrantes.
    Em 1975, os portugueses que reclamavam Olivença eram de extrema-esquerda, dizia-se em Espanha. Já em 1976 e 1977, eram classificados de salazaristas e saudosistas. Grandes contradições, na verdade!
    Concretamente, o preconceito e o desprezo eram anota dominante. Por preconceito, chegou-se a classificar o Presidente do Grupo dos Amigos de Olivença em 1977 como Salazarista, num livro publicado na década de 1990, a partir duma informação de uma revista de 1975 ou 1976. O ridículo disto é que se tratava do Professor Hernâni Cidade, um dos maiores e mais populares opositores a Salazar, que, pelo seu prestígio internacional, e nacional português também, o ditador sempre teve de libertar logo após tê-lo mandado prender (deter). Assim, neste tipo de argumentação, chega-se ao grotesco, à difamação.
    A Guerra Civil de Espanha tem sido também usada para denegrir Portugal na Questão de Olivença. É evidente que o papel de Salazar no conflito, ao entregar aos franquistas os refugiados espanhóis que sabia irem quase todos serem fusilados, e o apoio que deu ao ditador espanhol, são uma vergonha para Portugal e para os Portugueses. Não tenho pejo em afirmar que assumo como reprovável uma tal actuação, e que certamente os modernos democratas portugueses (porque os de então pouco puderam fazer) estão comigo, bem como o Povo Português em geral. E, todavia, as autoridades portuguesas, no meio da barbárie, tinham instruções para protegerem aqueles que provassenm ser oliventinos, através da correcta pronúncia de algumas palavras em Português. Com excepções pontuais, isso foi feito. Claro, o regresso de muitos oliventinos a casa foi cruel, já que as autoridades franquistas, receosas que alguns “comunistas” tivessem escapado graças à tolerância portuguesa, os perseguiram sem piedade

    .E o ditador Salazar nada fez contra isso, já que ele próprio era ferozmente anti-comunista, e a Polícia Política Portuguesa também não conhecia a palavra piedade. Todavia, e criticando sempre e sem perdão o ditador português, há que dizer muito claramente que quem desencadeou a Guerra Civil, quem praticou massacres, quem matou e perseguiu, foram as autoridades espanholas, que, neste caso, foram mais carrascos que autoridades… como o povo espanhol deve saber muito melhor do que eu! E digo tudo isto porque, na crítica que se faz a Portugal relativa à Guerra e a Olivença, por vezes, julgar-se~ia que Salazar teve mais culpas que Franco! Ora, sem esconder responsabilidades, o que é de assinalar é que tanto Portugal como Espanha estiveram sob o Domínio de ferozes Ditaduras, que não podem ser esquecidas nem, muito menos, repetidas. O caso espanhol foi mais grave, pois o totalitarismo nasceu após uma Guerra, situação em que o humanitarismo, muito mais do que em outras situações,
    é esquecido.
    Talvez o argumento mais traiçoeiro utilizado seja o de que Portugal não deve reclamar Olivença porque agora, na União Europeia, “já não há fronteiras”!
    Antes de ser traiçoeiro, é falso: não há fronteiras enquanto BARREIRAS, mas elas existem administrativamente. Um Espanhol paga impostos a Madrid, um Português a Lisboa. Vive-se dentro dos limites de um País, de um Distrito, de um Concelho.
    Mas… e voltando ao argumento de que agora “já não há fronteiras”, … se, de facto, as fronteiras já não têm o antigo significado e o peso nacionalista de outros tempos… por que diabo se insiste em colocá-la no Guadiana, diante de Olivença? Por que não colocá-la nas ribeiras de Olivença, Táliga, e Alcarrache? Aliás, a integração na União Europeia é até uma garantia para as populações de que o seu nível de vida, direitos, leis, não serão afectados. Nem sequer haverá problemas com trocas de nacionalidades, ou outras burocracias! Tudo mais fácil! A fronteira não tem importância? Tudo bem! Vamos colocá-la onde legalmente Portugal acha que ela se situa! A dizer-se não a isto, qualquer português pode pensar que, para a Espanha, só lhe interessa desprezar a fronteira quando isso lhe é favorável…
    Creio já me ter alongado muito, mas espero ter dado uma idéia dos argumentos que mais causam alguma indignação em Portugal a propósito da Questão de Olivença.
    O que magoa, mais do que tudo, é talvez o preconceito. Olivença é um assunto “tabu”. Informação minimamente objectiva, é quase inexistente. Em compensação (?), demagogia, frases grandiosas, propaganda, indignação, Xenofobia, Chauvinismo, não faltam.
    Não será tempo de se poder discutir este assunto, mesmo apaixonadamente, sem se cair em histerias nem atitudes ofensivas? Não se poderá dialogar, mesmo discordando?
    Carlos Eduardo da Cruz Luna / Estremoz, 3 de Fevereiro de 1999
    .

Leave a Reply

eXTReMe Tracker