Monday, January 21st, 2008...9:54

Economia e incerteza

Jump to Comments

O NRA acha que “há muito tempo que a economia não tem nada que ver com produzir e distribuir aquilo que é necessário e garantir às pessoas uma vida melhor“.  Basta olhar para o que era Portugal, em particular, v.g., há vinte anos atrás. Fraco acesso à habitação, dois canais a preto e branco, Vasco Granja para todos, spectrums para os filhos dos ricos, “cassetes pirata”, meia dúzia de brinquedos, uma distribuição de bens transaccionáveis bastante deficiente. Hoje assistimos a um crescimento exponencial da habitação própria decente, que permitiu aumentar a qualidade de vida de uma boa parte das classes médias, maior acesso à educação, mais carros, viagens low cost, hipermercados, supermercados, lojas de discount, cadeias de distribuição de vestuário, um maior acesso ao conhecimento, I’Pod’s, telemóveis, novos medicamentos, internet, uma inovação veriginosa. A economia não tem nada a ver com isso. E tudo o que vemos ao nosso redor é fruto da especulação, e não da transpiração, certamente.

O NRA está, sobretudo, preocupado com uma pequena parte da economia - a que funciona em redor dos mercados financeiros bolsistas - a que chama “especulativa”. Importa notar que só são cotadas em bolsa as empresas que optam por o ser. As Bolsas agregam apenas uma ínfima parte das empresas mundiais. Será que a economia é estúpida, será que os agentes económicos são estúpidos?

Diz o NRA:

O lucro está na especulação e não na produção. Esta economia de casino permite que haja empresas que enriquecem manipulando indicadores, gerando expectativas positivas que levam ao aumento exponencial das acções, ao mesmo tempo que há empresas sérias, que trabalham para produzir produtos necessários que perdem valor na bolsa e chegam a ir à falência.

O lucro existe, se uma dada empresa for capaz de produzir bens ou serviços transaccionáveis. Nenhuma empresa vai à falência porque a sua capitalização bolsista diminui. Os produtos também não ganham ou perdem valor na bolsa, como afirma o NRA (a menos que sejam bolsas específicas de mercadorias).

As acções sobem e descem - não só, mas também - em função das expectativas? Sim. O futuro é incerto, e nem a economia de mercado, nem o marxismo, nem mesmo o NRA, descobriram a forma de subtrair a incerteza associada aos tempos que ainda estão para vir.

Agora, investir na bolsa não é para todos. Uma das razões pelas quais há muita gente que perde dinheiro na bolsa não é só por causa da incerteza, é porque é economicamente iletrada. Ou, pelo menos, naif. Como só investe na bolsa quem quer - ninguém é obrigado - não se recomenda o investimento em activos com risco a pessoas que, pese embora gostem de escrever sobre economia, achem que há uma relação entre capitalização bolsista e falência, ou confundam capital com produção. Ou então que vivam convencidos que as casas de research fazem notas para “enganar” os investidores, e os investidores, que são estúpidos, seguem cegamente as notas dos “enganadores”. Para esses, há alternativas: os certificados de aforro ou, no limite, a parte inferior do colchão.

Os portugueses estão mais pobres? O NRA culpa a economia “especulativa” por isso. Há zonas do mundo onde as classes médias estão mais ricas. O PIB mundial atingiu em 2006 o seu máximo de sempre. O que está errado? São os salários dos gestores? É o funcionamento da bolsa? Ou será que - e também aqui cabe um lugar-comum - somos um país pouco competitivo?

5 Comments

  • Comentava der adler in http://diarioeconomico.sapo.pt/edicion/diarioeconomico/internacional/mercados/pt/desarrollo/1079939.html o seguinte:

    1. Em 2002 um barril de petróleo custava 70 dólares, o que equivalia mais ou menos a 76 Euros.

    2. Hoje em dia custa 100 dólares, o que pelo câmbio actual dá sensivelmente 70 Euros.

    como é possível ser contabilizado a custo para nós e termos aumentos de combustível se o petróleo está de facto mais barato? a custo de hoje, com o barril a 89US$ isto dá 61,39€, menos 20%… mas e para nós o preço subiu sempre… e não se pense que é só na gasolina e no gasóleo… o mesmo acontece na indústria ao nível dos custos energéticos e nas matérias primas, sobretudo nas derivadas do petróleo…

    Alguém anda-se a aboletar forte e feio, e quem será? é que se a diferença ainda viesse em nosso benefício, nós aqueles que deixamos de ser cidadãos e passamos a contribuintes… mas isto não vem de agora… foi uma “reforma” que começou no consulado do nosso actual PR… por isso é que ele se dá tão bem com o Sr. Pinto de Sousa, estão bem um para o outro… e Portugal é que se lixa…

  • […] RAF responde ao catastrofismo pouco informado Nuno Ramos de Almeida. Os portugueses estão mais pobres? O NRA […]

  • Não concordo nem discordo - porque não estou abilitado para tanto - com nenhuma das posições. (”antes pelo contrário”)…
    Acho que percebo os argumentos do artigo e da resposta do sr. Rodrigo. Faço-lhe notar no entanto - e porque já mo fizeram a mim - que os portugueses não têm mais “casa própria” que antigamente, uma vez que o recurso ao crédito nos impede de chamar à casa que comprámos de “nossa”. Há 20 ou 30 anos era mais fácil construir uma vivenda (ainda que modesta) com as poupanças do trabalho (também se começava a trabalhar mais cedo) do que hoje, em que nos endividamos para o resta da vida para pagar a casa.
    Este é apenas um exemplo de como os cidadãos - podemos considerar-nos também empresas - perderam capacidade de investimento apesar de cada vez “termos” mais bens.
    A riqueza existe de facto, no entanto a posse efectiva (para o cidadão comum) não existe: tudo o que pensamos possuir está emprestado, alugado, hipotecado…
    Bem, como se costuma dizer, também não se leva nada para a cova.

  • Caro David Silva,

    Apenas um reparo:

    “A riqueza existe de facto, no entanto a posse efectiva (para o cidadão comum) não existe: tudo o que pensamos possuir está emprestado, alugado, hipotecado…”

    Podemos dizer que há posse efectiva, embora a propriedade esteja limitada pela hipoteca. A pessoa possui - no sentido de que pode usufruir dela - mas ainda não pagou o suficiente para dizer que aquele património é integralmente seu.

    O que releva é que hoje pode comprar-se casas, com muitos melhores condições (as casas), algo que era impensável há vinte anos. O que isso representa em matéria de qualidade de vida das classes médias é algo que não podemos ignorar.

    Agora, concordo que nem tudo são rosas, e que o mundo hoje está cada vez mais exigente. Mas isso a economia não resolve, mas sim as pessoas.

  • Decerto que o David não está mesmo abilitado, porque provavelmente não está Habilitado creio.

Leave a Reply

eXTReMe Tracker