Friday, January 25th, 2008...13:07
O Povo é Sereno? É só Fumaça?
Vivemos um debate existencial em Portugal. Parece que a lei anti-tabaco pode levar à restauração do “regime fascista”! Será só fumaça?
Antes de responder, uma declaração de interesses – fumador ocasional me confesso, mas sobretudo passivo. Activo só de charuto (ou cigarrilha, no mínimo). É que gosto do meu tabaco saudavelmente biológico. Além disso não poderia deixar passar uma oportunidade de mostrar a minha solidariedade fair trade pelo Terceiro Mundo em geral, e Cuba em particular. Infelizmente as ocasiões de mostrar o meu exibir o meu empenho internacionalista escasseiam.
Quanto à lei. É certo que se trata de nos aproximar do resto da civilização. Uma das imagens de marca de Londres são os fumadores a decorar os beirais dos edifícios de escritório. Este é um campo em que Lisboa já pode competir com a metrópole britânica.
Sinceramente não creio que se corra o risco de cairmos no nazi-fascismo por via do anti-tabagismo. É que, por um lado, Hitler nunca foi tão longe na sua campanha contra o tabaco – portanto, quando muito cairemos em algo ainda pior. Por outro lado, já temos auto-estradas e Mercedes (outras imagens de marca do regime nazi). E se é verdade que matam muita gente, não tiveram efeitos assinaláveis (até ver) na solidez do regime democrático.
Mas que fique claro: é uma lei desnecessária e politicamente arriscada. Politicamente arriscada pois o governo deveria apreciar a elevada percentagem de fumadores compulsivos entre jornalistas e comentadores, havendo ainda que considerar o impacto orçamental da medida – menos impostos, mais reformados por mais tempo. Há ainda que considerar o impacto da medida na coligação do PS com o Bloco em Lisboa.
É uma lei desnecessária, porque também eu sou a favor de se confiar na civilidade, no bem-senso, no bom-gosto, na serenidade dos portugueses. Mas, enfim, parece que é a vez dos portugueses fumadores confiarem no bom-senso e civilidade dos portugueses não-fumadores na aplicação da lei. Nada de perder a esperança. Afinal, se o contrário funcionaria, porque não assim? Será que só os fumadores portugueses são capazes do bom-senso, tolerância, cuidado pelo próximo? Não faria muito sentido acreditar que sim.
Andaremos talvez todos precisados de miminhos. Pelo menos é que parecem dizer alguns altos responsáveis e estadistas séniores, a começar pelo Presidente da República. Mas não me parece que essa função de consolo psicológico caiba na lista de funções apropriadas de um governo democrático e liberal. Esperemos que a fumaça retórica clareie um pouco em breve, todos cuidemos mais uns dos outros e das coisas realmente importantes, e o povo serene. De um bom cigarro é talvez o que alguns precisem para serenar.

2 Comments
January 25th, 2008 at 16:09
“os fumadores portugueses são capazes do bom-senso, tolerância, cuidado pelo próximo”
Nunca vi tal coisa. O que vi muito, da parte dessa malta, sempre foi intolerância, agressividade, estupidez, escárnio e vontade de agredir.
(Embora, de facto, nos últimos dois ou três anos, quando perceberam que a maré estava a mudar, alguns tenham começado a precaver-se e a ser menos incpompreensivos.)
Felizmente chegou agora a Viradeira.
January 25th, 2008 at 23:39
A infelicidade de uns nunca servirá a felicidade de outros.
Não a que importa.
Nem o sentimento de ‘vendetta’ jamais reporá qualquer injustiça.
Não verdadeiramente.
Qualquer (qualquer!) extremismo é sempre lamentável.
Não é agradável o fumo indesejável, quanto o não é verem-se seres escorraçados às portas dos prédios, encolhidos e resignados.
Não é digno.
Equilíbrio, bom senso e razoabilidade precisam-se.
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