Friday, February 1st, 2008...11:24

Fundamentalismos

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A Human Rights Watch (HRW) está na ordem do dia, graças ao seu relatório anual publicado ontem.  Nesse relatório, a ONG afirma que as potências dominantes, nomeadamente UE e EUA, contribuem para a desvalorização dos direitos humanos porque não reagem às tácticas políticas e eleitorais fraudulentas nos países onde têm interesses. Desde que ganhe o candidato ligado ao Ocidente, não interessa como. E entenda-se por interesses, vantagens comerciais e estratégicas (segurança e terrorismo).
Enfim, com todo o respeito pelo trabalho da HRW, parece-me que estamos perante mais um caso de fundamentalismo dos direitos humanos.

(1) A lista de irregularidades apresentada no relatório é muito extensa. Demasiado extensa para que fosse possível às potências agir em todos os países em questão. Não há poder que consiga estar presente em todo o lado, e quase ao mesmo tempo.

(2) Há países onde a intervenção resultaria em danos sociais, económicos e políticos ainda maiores. Veja-se o caso da China.

(3) É um facto que há melhores hipóteses de sobrevivência de uma democracia numa economia estável e em crescimento. Não se trata de criar democracias pelo desenvolvimento económico (porque uma não é a causa da outra), mas sim de construir bases para que esta possa existir. Interesses económicos e comerciais favorecem a UE e os EUA, é claro, mas também os países que se tornam seus parceiros. “Fechar os olhos” para privilegiar os interesses comerciais não é assim tão mau.

(4) A segurança internacional e os problemas associados ao terrorismo são questões fundamentais na política externa dos países do Ocidente, e na política interna de muitos países do Médio Oriente. É melhor para todos que, por exemplo, o Paquistão não seja governado por radicais islâmicos, pois serve de contra-peso na região. Se é uma escolha muito democrática ou não, é menos importante.

(5) Há algo que por vezes não é claro na mente de quem olha a política: não é regra que as democracias nasçam democraticamente. É até raro que assim seja. Nem toda a gente tem o privilégio de ter founding fathers. O que diria a HRW da Revolução Francesa? Mandava parar tudo antes de ser escrita a Declaração Universal dos Direitos dos Homens, porque a monarquia absolutista não foi derrubada por eleições livres e sufrágio universal?

É claro que cada caso é um caso, e que os pontos que acima enunciei não respondem uniformemente às situações de violação dos direitos humanos e civis. O importante é que seja feita uma reflexão prudente sobre os momentos certos para agir. Quem defende a democracia, não tem de agir sempre que esta é ameaçada. Os fundamentalismos conduzem a políticas precipitadas e erradas. Raymond Aron (e que falta ele nos faz) disse “a moralidade da prudência, a melhor tanto ao nível dos factos como dos valores, não resolve as antinomias de conduta estratégia e diplomática, mas tenta encontrar em cada o compromisso mais aceitável” (Peace and War: A Theory of International Relations), e tem razão. Nós é que ainda não o entendemos.

10 Comments

  • “É melhor para todos que, por exemplo, o Paquistão não seja governado por radicais islâmicos, pois serve de contra-peso na região. Se é uma escolha muito democrática ou não, é menos importante.” - AHC

    De facto dizer que não é uma escolha muito democrática é eufemismo. Na verdade, é uma escolha anti-democrática. Totalitária e terrorista, mesmo. Privar um povo da democracia e da liberdade, par melhor o escravizar e roubar poderia ser um objectivo nazi ou nazi-sionista. E se queremos ser cinicamente “pragmáticos” devemos ter a decência de não nos encobrirmos hipocritamente com as vestes da democracia. Se queremos ser filhos da puta, assumamo-nos como tal. Pelo menos ficará o mérito da frontalidade.

    Na verdade, quando você diz que será “melhor para todos” neste “todos” não está decerto a incluir os 150 milhões de paquistaneses, os principais interessados na democracia do seu país. Se os islamistas (a direita local, correspondente aos nossos democrata-cristãos) são ou não radicais, se merecem ou não o seu voto, cabe EXCLUSIVAMENTE aos paquistaneses decidir. Ponto. Mainada. Chamar à coerência democrática “fundamentalismo democrático” é um exercicio de cinismo próprio do neoconeirismo totalitário e satânico.

    E, além do mais, perfeitamente vão. Porque as massas populares dos países islâmicos derrubarão todos os Musharrafs de serviço, um a um, nas urnas ou à bomba.

    É perfeitamente natural que prefiram, como todos os povos, para os representarem pessoas honestas, solidárias, patriotas, violentamente anti-americanas e anti-sionistas. Não corruptos, vendidos, fantoches, torcionários, traidores mancumunados com o inimigo e colaboracionistas com a opressão dos povos irmãos palestinianos, iraquianos, etc. Em que país em que isso não acontece ?

    Enfim, democracia no mundo islâmico, depois do naufrágio do socialismo árabe (tipo nasserista, baasista ou FLN), rima com direita islamista. Influência americana rima com ditadura, torturas, apartheid, racismo, manipulação de eleições, repressão sangrenta, corrupção, traição, colaboracionismo.

    Alguém tem dúvidas que a democracia vai vencer o combate em curso ? E que isso será melhor para TODOS os democratas verdadeiros(ou “fundamentalistas”, como você diz) ?

  • O Presidente du Supremo Tribunal do Paquistão foi preso quando este se preparava para apreciar a legalidade da candidatura do ditador ? Ora essa, que importa ! Deixemo-nos de merdas e de fundamentalismos ridículos ! O que interessa é que os paquistaneses não tenham o governo que querem, mas sim o que os EUA querem. Isso é que é democracia ! Não é, ó AHC ?

    “Former Pakistan chief justice breaks silence, blasts Musharraf: A letter from Chaudhry to Western officials was circulated Wednesday. It lambasted Musharraf for squashing Pakistan’s independent judiciary and illegally detaining him and his family, and noted that the Supreme Court had not had a chance to rule on whether it was legal for Musharraf to run for re-election in December.”

  • Margarida Pereira
    February 1st, 2008 at 18:27

    “Less is more” - a catadupa leva ao cansaço e à eventual indiferença, perdendo-se o que poderia ser útil na informação.
    Contenção e objectividade não seria um bom exercício?
    E um bocadinho menos jargão?

  • O “euroliberal” actua pela saturação.
    Ó homem, ainda não entendeu que o adjectivo é o preservativo do pensamento?

  • Eh, eh, eh… a mongalhada neo-coneira não dá luta nenhuma… botam besteira e depois nem sequer tentam defendê-la… uns pândegos.

  • Margarida Pereira
    February 2nd, 2008 at 0:27

    Luta dessa talvez noutro ringue.
    A língua portuguesa é um património, cavalheiro.
    Mas a tolerância elegante é um dos predicados deste blogue, como é evidente.

  • Tolerância elegante ? Só se for em relação a violações de direitos humanos e “eleições” manipuladas por regimes ditatoriais “moderados”…
    Pois…não vejo é onde está a elegância em tudo isso. Em contrapartida, vejo claramente que não há contra-argumentos nem vontade de debater, o que do ponto de vista da elegância, enfim…

  • Margarida Pereira
    February 2nd, 2008 at 13:24

    Dos direitos humanos: a publicação de extensos, controversos, acintosos e virulentos textos de alguns senhores comentadores;
    Moderação: a excelsa paciência de quem coordena serenamente este espaço;
    Contra argumentos: a rodos, às vezes tão ou mais controversos do que o que pretendem combater;
    Vontade: o facto de se ler, por si só, deveria bastar a alguns exasperados - ler e meditar pode ser o caminho para se alterarem ideias.
    Elegância: responder-lhe, malgré tout, cavalheiro.
    Have a nice life.

  • “US Invasion And Occupation Killed One Million Iraqi’s, by AFP
    More than one million Iraqis have been killed because of the war in Iraq since the US-led invasion of the country in 2003, according to a study published Wednesday. ”

    Eis o tipo de “tolerância” e de “elegância” que certos atlânticos (cavalheiros e cavalheiras) defendem… Pois, deste tipo de elegante tolerância ocupou-se o Tribunal de Niremberga em 1946…

  • Margarida Pereira
    February 2nd, 2008 at 17:32

    Tanta mistura de ideias e conceitos, posições e factos não é nada fácil de traduzir e/ou explicar.
    É preciso (muita) boa vontade e (enorme) paciência.
    Não disponho.
    O que vale é que, apesar de tudo, se está num país livre.
    Até para o disparate.

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