Friday, February 1st, 2008...11:10

Homenagem ao que se perdeu

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O rei D. Carlos foi assassinado faz hoje 100 anos. Cem anos passados, a data deve ser lembrada, não só porque D. Carlos era um chefe de estado com inúmeras qualidades, mas também porque a história não pode ser contada só por alguns. Neste caso muito concreto, por aqueles que venceram.

A história deve ter em consideração também quem perdeu e, ao fazê-lo, ter em conta aquilo que o país prescindiu, o preço que pagou com a morte de um rei com 44 anos de idade.

D. Carlos era um homem relativamente novo para a época. Sem aquele assassinato, teria governado pelo menos mais 10 anos e o seu sucessor, Luís Filipe, estaria em melhores condições que o irmão para assumir o trono. Se hoje a monarquia é praticamente irrelevante, não o era naquele tempo. Tal como não o foi em 1926, não teria sido em 1945, em ‘61, nem sequer em 1974.

Toda a história do século XX português ficou dramaticamente marcada pelo que aconteceu no dia 1 de Fevereiro de 1908. Foram a República e as suas convulsões sociais (muito mais graves que as vividas na última fase da monarquia); a Primeira Grande Guerra; a ditadura militar; Salazar; a guerra do Ultramar e o perigo comunista na década de 70. Tudo poderia ter sido evitado, naturalmente evitado, se D. Carlos não tivesse morrido naquela data. Um rei dificilmente teria permitido a ascensão pessoal de um homem como Salazar. A adesão à Europa Ocidental nascida no pós-1945 poderia ter sido feita muito antes de ’76 e as divisões existentes hoje, num país pequeno como Portugal, mais atenuadas.

Lembrar o que sucedeu há 100 anos obriga a uma homenagem, muito semelhante à feita no ensaio de Rui Ramos na edição da Revista Atlântico hoje à venda. Uma homenagem não apenas a D. Carlos, mas ao que poderíamos ser. Ao que ficou perdido, às oportunidades desperdiçadas, ao sofrimento desnecessário de tantos, o que o país seria hoje, fruto de outra vivência, de outras experiências. Uma homenagem à derrota e ao que poderia ter sido a vitória. Uma homenagem à história que poderia ter sido contada pelos vencidos.

10 Comments

  • […] do Miticídio Fevereiro 1, 2008 | por luismiguelrainha No Atlântico, entretêm-se a descobrir as miríficas virtudes de defuntos antigos. Que até nos poderiam ter evitado, não fosse a maldita pontaria do Buíça, […]

  • “Tudo poderia ter sido evitado, naturalmente evitado, se D. Carlos não tivesse morrido naquela data. ”

    Como foi evitado nas outras monarquias do mediterrãneo (Espanha, Itália e Grécia)…

  • Pode-se argumentar, efectivamente, que as convulsões que houve em Espanha (tirando a ditadura de Primo de Rivera) foram durante a república. Mas o meu ponto é mais questionar se o regicidio terá mudado alguma coisa.

  • Excelente, André. Um abraço.

  • […] Homenagem ao que se perdeu. Por André Abrantes Amaral. Toda a história do século XX português ficou dramaticamente marcada pelo que aconteceu no dia 1 de Fevereiro de 1908. Foram a República e as suas convulsões sociais (muito mais graves que as vividas na última fase da monarquia); a Primeira Grande Guerra; a ditadura militar; Salazar; a guerra do Ultramar e o perigo comunista na década de 70. Tudo poderia ter sido evitado, naturalmente evitado, se D. Carlos não tivesse morrido naquela data. Um rei dificilmente teria permitido a ascensão pessoal de um homem como Salazar. A adesão à Europa Ocidental nascida no pós-1945 poderia ter sido feita muito antes de ’76 e as divisões existentes hoje, num país pequeno como Portugal, mais atenuadas. […]

  • A questão nem se põe assim. Na altura do regicidio Portugal estava de pleno direito na Europa com um ranking suficiente, apesar de algum atraso económico e tecnológico mercê das arremetidas contra a ciência e a técnica por parte do clero,que por acaso já hostilizara o Rei Luis e subrepticiamente tb criticava o seu filho Carlos dois aristocratas “progressivos”, ao contrário da maioria da Causa Real, a aristocracia miguelista latifundiária e boçal que não aprendeu nada com a tragédia dos Távoras e que na minha opinião fez até um pacto com o diabo para por o país de pantanas como conseguiu.
    Não vale a pena chorar lágrimas de crocodilo, Carlos I foi um estadista corajoso, morreu porque a sua opção política era ser Rei mas confiante e confiado pelo povo que ele regia. Isto num tempo em que a sucessão dinástica ainda fazia lei apesar dos combates contra esta corrente política,desde a Revolução Francesa.

  • O que teria acontecido se D. Carlos não fosse assassinado

  • O que teria acontecido se D. Carlos não fosse assassinado:

    http://ventosueste.blogspot.com/2008/02/contrafactual.html

  • […] do indivíduo pelo corrupto Estado, ainda vai dar cabo disto tudo. Pobres de nós: depois de assassinada Sua Presciente e Indispensável Majestade, já nem Deus nos vale, agora que estão a atirar a sua […]

  • […] primeira máquina do tempo é bem capaz de estrear dentro de meses. Imagino que estes bravos rapazes estejam já a aprontar-se para impedir a ascensão de Salazar, aderir à CEE ainda antes dela […]

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